Correios projetam queda nas receitas e aumento nos gastos para 2026
O orçamento previsto para os Correios em 2026 indica um aumento de 21% nas despesas operacionais da empresa e uma queda de 26% nas receitas, conforme apresentado no decreto com as projeções orçamentárias das estatais federais para 2026, publicado no Diário Oficial da União e assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 29 de dezembro.
Essa situação reflete o momento financeiro desafiador que a estatal enfrenta há alguns anos, evidenciado pelo cenário de receitas reduzidas e custos maiores.
Receita estimada para 2026
Para o próximo ano, os Correios estimam arrecadar R$ 17,7 bilhões em receitas correntes, que abrangem serviços como encomendas, envio de mensagens, correspondências internacionais, entre outros. Esse montante é R$ 6,3 bilhões menor do que a projeção para 2025, que era de R$ 24 bilhões, e representa uma queda significativa em relação à estimativa de R$ 20,6 bilhões feita para 2024.
Até setembro de 2025, os Correios registraram R$ 12,3 bilhões em receitas, o que equivale a 60% do esperado para o ano inteiro. Para atingir a previsão anual, seria necessário captar cerca de R$ 8,3 bilhões no último trimestre, valor praticamente o dobro da média dos trimestres anteriores.
Aumento das despesas
Por outro lado, há uma projeção de crescimento nas despesas correntes da companhia, que incluem custos com prestação de serviços, salários, publicidade e administração, totalizando um aumento de R$ 5 bilhões (21%), saindo de R$ 24 bilhões estimados para 2025 para R$ 29 bilhões em 2026.
Dentre os componentes do crescimento dos custos, destaca-se o Programa de Demissão Voluntária (PDV), que prevê a saída de até 10 mil funcionários. As despesas com pessoal também devem subir R$ 1,5 bilhão (10,5%), passando de R$ 14,2 bilhões para R$ 15,7 bilhões. Em contrapartida, os gastos com dirigentes terão a maior redução proporcional, diminuindo 33,48% de R$ 13,9 milhões para R$ 8,8 milhões.
Também no orçamento, estão previstas receitas de capital, relacionadas a empréstimos e financiamentos.
Empréstimo bilionário aprovado e recebido
No dia 30 de dezembro, os Correios receberam R$ 10 bilhões dos R$ 12 bilhões contratados junto a um consórcio de bancos privados formado por Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, conforme o contrato publicado no Diário Oficial da União em 27 de dezembro.
O acordo tem validade até 2040 e é garantido pela União, com autorização do Tesouro Nacional dada em 18 de dezembro, o que significa que o Governo Federal assumirá o pagamento caso a estatal não consiga honrar suas dívidas.
De acordo com o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, Banco do Brasil, Caixa e Bradesco aportarão R$ 3 bilhões cada, enquanto Itaú e Santander contribuirão com R$ 1,5 bilhão cada. O contrato ainda prevê um período de carência de três anos, com início das parcelas mensais em dezembro de 2029, e a taxa de juros fixada em 115% do CDI, abaixo do limite máximo de 120% estipulado pelo Tesouro.
Durante uma coletiva, Rondon afirmou que a empresa não descarta a possibilidade de realizar novos empréstimos, podendo captar até R$ 8 bilhões adicionais. Essa captação teria como alternativas recursos do Tesouro Nacional ou novos financiamentos, que estão sendo avaliados.
A proposta inicial da estatal era contratar R$ 20 bilhões em empréstimos, mas o Tesouro não aprovou o montante devido às taxas de juros propostas excederem os parâmetros permitidos.
Plano de reestruturação em andamento
O plano de recuperação estratégica dos Correios prevê uma redução de R$ 2 bilhões nos gastos com pessoal, venda de imóveis e o fechamento de cerca de mil agências deficitárias, considerando que atualmente a empresa opera em aproximadamente 5 mil unidades.
Prevê-se também a implementação de um programa de demissão voluntária para diminuir em até 15 mil o número de funcionários ao longo de dois anos, representando corte de 18% na folha salarial.
O presidente Emmanoel Rondon explicou que o modelo econômico-financeiro atual da empresa se tornou insustentável. O objetivo do plano é reverter a sequência negativa de 12 trimestres consecutivos com prejuízos, buscando equilibrar as contas já em 2026 e retornar ao lucro a partir de 2027.
As metas incluem:
- Redução de R$ 2,1 bilhões nos custos de pessoal;
- Venda de R$ 1,5 bilhão em imóveis não essenciais;
- Fechamento de mil pontos de atendimento deficitários;
- Reestruturação do plano de saúde, com economia anual estimada em R$ 500 milhões.
Em setembro de 2025, os Correios divulgaram um prejuízo de R$ 4,3 bilhões no primeiro semestre, elevado se comparado ao déficit de R$ 1,3 bilhão do mesmo período em 2024. Rondon alertou que, caso as medidas não sejam implementadas, o prejuízo pode chegar a R$ 23 bilhões em 2026, sem perspectiva de melhora significativa ainda em 2025.
Foco na ampliação das receitas futuras
A empresa também planeja estratégias para incremento de receitas, com a ambição de alcançar R$ 21 bilhões em 2027.
Nos últimos anos, a receita total dos Correios tem apresentado queda: foram R$ 18,9 bilhões em 2024, abaixo dos R$ 19,2 bilhões de 2023 e dos R$ 19,8 bilhões de 2022. Até setembro de 2025, a receita caiu quase R$ 2 bilhões na comparação com o mesmo período de 2024.
Parte desse recuo resulta do programa Remessa Conforme, criado pelo Ministério da Fazenda em 2023, que instituiu um imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, popularmente conhecido como “taxa das blusinhas”, e que também permitiu a atuação de empresas privadas de logística na distribuição de encomendas internacionais, reduzindo a exclusividade dos Correios nesse mercado.
Segundo dados apresentados, a parcela de mercado dos Correios nas encomendas diminuiu de 51% em 2019 para 22% em 2025.
Além disso, a estatal prevê investimentos da ordem de R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030, financiados por um empréstimo do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, presidido por Dilma Rousseff. Esses recursos deverão ser aplicados na automação dos centros de triagem, renovação da frota, modernização da infraestrutura de tecnologia da informação e otimização da logística.



