Cosan ainda enfrenta desafios financeiros um ano após desistir do investimento na Vale
Um ano após decidir encerrar sua participação na mineradora Vale, a Cosan continua trabalhando para desatar os complexos entraves financeiros gerados pela operação iniciada em outubro de 2022. Nesse processo, o BTG Pactual, que se tornou o principal acionista individual da Cosan, assumiu papel fundamental nas renegociações das dívidas do grupo.
A venda das ações da Vale, concretizada em 16 de janeiro do ano passado por cerca de R$ 9 bilhões, não foi suficiente para cobrir as obrigações que a holding liderada por Rubens Ometto adquiriu mais de três anos atrás, quando sua exposição total à mineradora ultrapassou R$ 20 bilhões, elevando significantemente o endividamento da Cosan.
Na última semana de 2025, especificamente em 30 de dezembro, o grupo anunciou uma renegociação de dívida relacionada à Compass, empresa do segmento de gás natural pertencente ao conglomerado. Essa operação contou com a entrada do BTG Pactual, comandado por André Esteves, que adquiriu do Bradesco metade do crédito vinculado a um empréstimo de R$ 4 bilhões concedido à Cosan. A transação, avaliada em R$ 2 bilhões, foi realizada sobre as ações da Cosan Dez, holding que detém 88% do capital da Compass.
Segundo fontes próximas à operação, a reestruturação foi necessária porque o custo do financiamento estava prestes a aumentar em 2026 devido a cláusulas contratuais de step-up, que elevam automaticamente a remuneração do empréstimo ao longo do tempo, tornando-o mais oneroso.
Com o BTG adquirindo parte da dívida do Bradesco, os bancos conseguiram renegociar os termos originais com a Cosan, possibilitando que a partir do final da década eles possam vender as ações da Cosan Dez de volta para a holding. O novo acordo resultou em redução do custo financeiro em comparação ao modelo inicial.
Na ocasião do empréstimo original junto ao Bradesco, o custo médio implícito equivalia a CDI mais 1,1% ao ano até o término de 2024, além de prever mecanismos que aumentavam gradualmente a parcela dos lucros destinada aos acionistas preferenciais.
O BTG também teve papel central no aumento de capital de R$ 10 bilhões realizado pela Cosan, ancorando a subscrição de R$ 4,5 bilhões no follow-on e elevando sua participação no grupo para pouco mais de 20%. Contudo, Rubens Ometto manteve o controle formal da Cosan por meio de acordo societário, apesar da menor fatia acionária.
Estratégia financeira para entrada na Vale
A entrada da Cosan no capital da Vale, anunciada em outubro de 2022, foi viabilizada por uma estrutura financeira criada para minimizar o desembolso imediato em caixa. O plano envolveu combinação de compra direta de ações com derivativos de longo prazo, configurando um investimento total da ordem de R$ 21 bilhões para controlar até 6,5% das ações da mineradora.
Desse valor, aproximadamente R$ 13 bilhões foram financiados por meio de derivativos garantidos pelas próprias ações da Vale, em operações estruturadas com bancos internacionais. Outros R$ 8 bilhões foram captados por meio de dois empréstimos-ponte concedidos pelo Itaú Unibanco e pelo Bradesco BBI, com garantias constituídas pelas ações de empresas do grupo Cosan.
Para viabilizar esses financiamentos, a Cosan emitiu ações preferenciais resgatáveis em holdings que concentravam as participações na Compass (para o Bradesco BBI, via Cosan Dez) e na Raízen (para o Itaú, via Cosan Nove).
Diferente das ações preferenciais convencionais, as ações preferenciais resgatáveis funcionam essencialmente como um empréstimo: os bancos recebem parte dos lucros das empresas e têm o direito de vender essas ações de volta para a Cosan em condições previamente definidas. O plano original previa que os dividendos dessas holdings amortizariam gradualmente o financiamento, mas essa estratégia não se confirmou plenamente.
Reestruturação das dívidas e desafios societários
No caso do Bradesco BBI, a garantia do empréstimo de R$ 4 bilhões estava vinculada à participação na Cosan Dez, responsável por 88% da Compass. Antes de vender metade desse crédito ao BTG, o Bradesco detinha 23% da Cosan Dez, correspondendo a uma participação indireta de 20,2% na Compass.
Em 2024, a Cosan Dez distribuiu R$ 1,67 bilhão em dividendos, com aproximadamente R$ 380 milhões voltados ao Bradesco BBI, contribuindo para reduzir o montante da dívida, mas ainda insuficiente para quitação integral.
Por outro lado, o financiamento de igual valor concedido pelo Itaú estava garantido pela Cosan Nove, que possui 39% da Raízen, empresa de combustíveis controlada em conjunto com a Shell.
Nesse caso, a situação se mostrou mais delicada: a Raízen enfrenta seu momento financeiro mais complexo, com uma dívida líquida de R$ 53,4 bilhões e alavancagem de 5,1 vezes o Ebitda, acima do recomendado pelo mercado. Sem espaço para distribuir dividendos, o pagamento ao Itaú tornou-se inviável na forma inicialmente planejada.
Fontes indicam que a renegociação envolvendo a Cosan Nove é mais complexa, pois envolve decisões societárias dentro da Raízen, não se limitando apenas a ajustes financeiros. A Raízen pode precisar de um aumento de capital expressivo, da ordem de R$ 10 bilhões, dependendo da iniciativa da Shell para o grupo Cosan acompanhar o movimento.
Reflexos da aposta e necessidade de reorganização
A entrada da Cosan na Vale foi descrita como um investimento oportunista, aproveitando a alta do minério de ferro que ocorreu com o início da guerra na Ucrânia, momento em que os papéis da mineradora sofriam pressão, criando uma janela adequada para investimento.
A expectativa era que o aporte de cerca de R$ 20 bilhões representasse um investimento pequeno em relação à dimensão da Vale, avaliada em mais de R$ 330 bilhões. Contudo, o fracasso da estratégia e o elevado custo da estrutura financeira resultaram em necessidade de rearranjo do balanço.
Adicionalmente, havia o objetivo de ampliar a influência da Cosan na gestão da Vale, especialmente diante da iminente troca de CEO, embora publicamente isso tenha sido negado por Rubens Ometto. Nos bastidores, tanto ele quanto o governo federal tentaram indicar pessoas de confiança para a liderança da mineradora, mas a Vale acabou promovendo um executivo interno, Gustavo Pimenta, para o cargo de presidente.
Sem conseguir exercer a influência desejada e com o aumento do custo da operação, a Cosan optou por vender todas as ações da Vale, arrecadando cerca de R$ 9 bilhões – valor inferior à metade do montante inicialmente investido.
Em setembro do ano passado, a Cosan realizou um aumento de capital de R$ 10 bilhões, ajudando a ajustar seu endividamento e consolidando a entrada do BTG Pactual no bloco de controle. Desde então, busca alternativas semelhantes para ajustar as dívidas da Raízen, atualmente a empresa mais endividada da holding.
Além disso, em dezembro, o grupo captou R$ 2,5 bilhões por meio de empréstimo garantido por 10% da Rumo, sua operadora ferroviária. Na última semana do ano, reorganizou parte de sua posição na Moove, transferindo 19,9% das ações — avaliadas em R$ 1,7 bilhão — para um fundo de investimento estruturado com o Citibank, como estratégia para simplificar a estrutura de capital da empresa, que tentou sem sucesso realizar IPO em Nova York em 2024.
Cosan, BTG, Itaú e Bradesco não comentaram o assunto quando procurados.



