Startup de IA que monitora vendedores em lojas físicas capta R$ 13 milhões em investimento
Com o auxílio de microfones de lapela e uma camada própria de inteligência artificial, a startup captura e avalia cada interação nas lojas para entender os motivos de vendas não concretizadas.
A Aliado, uma startup brasileira focada em inteligência artificial para o varejo físico, fundada há apenas oito meses, anunciou a captação de R$ 13 milhões em uma rodada seed liderada pelos fundos Headline e Nestal, valor acima da média para empresas tão jovens no Brasil.
Fundada em 2025 por André Franco (CEO) e Carlos Henrique Leclerc Oliveira (CTO), a Aliado se apresenta como a primeira plataforma de Conversion Intelligence (inteligência de conversão) do país.
Utilizando microfones de lapela instalados nos vendedores e sua própria camada de IA, a startup grava e analisa cada conversa nas lojas para responder a uma questão que muitos varejistas têm dificuldade de responder: por que as vendas não são efetivadas?
A Aliado tem como proposta fornecer treinamento em tempo real para os vendedores, ajudando a recuperar vendas prestes a serem perdidas. A plataforma funciona como um “coach de ombro” digital, oferecendo feedback imediato após cada atendimento.
Rodada seed de valor expressivo
O investimento de R$ 13 milhões é considerável, especialmente em um cenário onde o aporte médio para startups brasileiras gira em torno de R$ 1 milhão, apontam dados da Abstartups.
Esse aporte evidencia uma alta expectativa dos investidores em um setor ainda pouco explorado: a inteligência de dados para entender as “vendas perdidas” em lojas físicas.
A rodada de investimento foi liderada pela Headline, gestora global de venture capital, com atuação no Brasil comandada por Romero Rodrigues. A empresa possui US$ 500 milhões em ativos sob gestão e conta com mais de 70 investimentos, incluindo nomes como Pismo, Creditas, Gympass, RD Station, Rappi e Olist.
Outro fundo importante na rodada foi a Nestal, criada por três ex-sócios da Easynvest: Alexandre Baldasseirine Neto, Carlos Avian e Paulo Avian. Baldasseirine destacou a expectativa de que a Aliado se torne essencial em diferentes segmentos, como moda, saúde, beleza, automotivo e imobiliário.
Os recursos da captação serão destinados ao aprimoramento da tecnologia, expansão da equipe (que hoje conta com cinco integrantes) e implementação das estratégias comerciais voltadas para varejistas de médio e grande porte.
Como funciona a solução da Aliado nas lojas?
O principal desafio que a Aliado busca resolver no varejo é o conhecimento parcial dos gestores sobre as razões pelas quais vendas não são concluídas, apesar de terem dados detalhados sobre o que foi vendido.
Como relata o CEO André Franco, muitos varejistas possuem diversos sistemas de análise, mas não conseguem identificar claramente porque suas vendas não acontecem.
Atualmente, algumas redes utilizam câmeras inteligentes para mensurar o fluxo de pessoas e a taxa de conversão — ou seja, quantos clientes que entram na loja saem comprando.
A proposta da Aliado vai além: com microfones de lapela conectados a um software proprietário, as conversas dos atendimentos são gravadas, transcritas por IA e o áudio é apagado imediatamente.
A partir das transcrições, a plataforma identifica padrões de comportamento, objeções comuns e motivos que prejudicam a conversão, como falta de estoque, preço inadequado, incompatibilidade do produto ou falhas no atendimento.
Após cada atendimento, o vendedor recebe um microtreinamento em formato de mensagem com avaliação e recomendações específicas para melhorar o atendimento, baseadas em um playbook de vendas personalizado para o cliente.
A ferramenta avalia aspectos como a abordagem, sondagem do cliente, explicação dos produtos e oferta de itens adicionais, destacando, por exemplo, quando o vendedor deixa de sugerir produtos complementares.
Para os gestores, a plataforma oferece um painel de business intelligence focado nas razões das não conversões. Dessa forma, os varejistas podem identificar se perdem clientes por falta de estoque, preços inadequados ou deficiência no treinamento da equipe, além de receber alertas via WhatsApp sobre alterações de tendências ou demandas específicas em tempo real.
Um dos próximos avanços da ferramenta, denominado “salva-vendas”, tem como objetivo avisar gerentes e vendedores durante o atendimento quando uma venda está prestes a ser perdida, sugerindo argumentos adequados para contornar objeções na hora.
Equilíbrio entre treinamento e privacidade
Apesar da vantagem de aumentar taxas de conversão, a gravação de atendimentos pode gerar receio quanto à sensação de hipervigilância.
O CEO André Franco enfatiza que a Aliado não pretende ser uma ferramenta de supervisão ou monitoramento, recusando inclusive sugestões para tratar seu produto como tal.
Para preservar a privacidade e tranquilizar colaboradores, a empresa adotou três medidas principais: a primeira é técnica, o áudio é transcrito automaticamente por IA e apagado logo após, sem possibilidade de resgate por humanos ou pelo varejista; a segunda é operacional, dando aos vendedores controle sobre quando iniciar e encerrar as gravações para assegurar que somente atendimentos sejam registrados, evitando captar conversas entre colegas; a terceira é jurídica, com um parecer legal elaborado para assegurar a conformidade com a LGPD, incluindo comunicação clara aos clientes e colaboradores e políticas que impedem o uso dos dados para demissões, restringindo-os ao treinamento e avaliação de desempenho.
Origem e trajetória da empresa
Comandando a Aliado está André Franco, empreendedor com vasta experiência que está na sua quinta startup. Ele já fundou e vendeu a Dialog, empresa de comunicação interna para RH que atendia grandes varejistas como Carrefour, Via Varejo e EspaçoLaser, experiência que o auxiliou a entender os desafios de treinamento e conversão nas lojas físicas.
No início da Aliado, em 2025, Franco captou R$ 500 mil em capital inicial com investidores-anjo, entre eles Marden Neubert, ex-CTO do PagSeguro. Esse valor foi usado para formar a equipe inicial e realizar os primeiros testes pilotos.
Atualmente, a startup conta com cerca de dez varejistas entre clientes pagantes e em fase avançada de testes, abrangendo segmentos variados como moda e concessionárias de veículos.
Em um exemplo citado, uma vendedora de automóveis aumentou suas vendas mensais de cinco para 14 após começar a utilizar a plataforma. O CEO reconhece que ainda não há dados suficientes para afirmar que o crescimento ocorreu unicamente por causa da Aliado, porém observa uma correlação consistente entre o uso intensivo da ferramenta e o incremento das vendas.
Segundo os cálculos internos da empresa, mesmo um aumento de 3% na taxa de conversão cobriria o custo da solução, mas a meta da Aliado é proporcionar de cinco a dez vezes o retorno sobre o investimento para os varejistas que utilizam a plataforma.
Próximos passos e visão futura
A startup planeja encerrar 2026 com mais de 30 colaboradores, reforçando principalmente as equipes de produto e tecnologia, além de ampliar a base de lojas atendidas no Brasil antes de iniciar uma expansão além das fronteiras nacionais.
A Aliado já integra o Cubo, hub de inovação do Itaú, e participa de programas de startups oferecidos por empresas como AWS, Nvidia e Google, buscando crédito em nuvem e suporte técnico para treinar seus próprios modelos de IA.
No aspecto tecnológico, a startup atualmente utiliza modelos de linguagem comerciais combinados com sua camada de análise própria, mas deseja evoluir para um modelo mais especializado. A intenção é que a plataforma deixe de apenas seguir roteiros predefinidos de atendimento e passe a sugerir novos scripts baseados nas práticas que mais convertem, replicando o conhecimento dos melhores vendedores entre toda a equipe.
De acordo com o CEO, a visão de longo prazo é que a Aliado evolua para uma empresa de inteligência de dados para varejo, capaz de oferecer insights e indicar tendências em tempo real para redes, marcas e lojas, atuando como uma “Nielsen do varejo”.



