Engie Brasil aponta que curtailment reduz investimentos em energias renováveis e pode acelerar consolidação do setor
O aumento do curtailment — ocorrências em que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) força a redução na geração de energia — tem se tornado um dos maiores obstáculos para novos investimentos em fontes renováveis no Brasil, segundo avaliação da Engie Brasil (EGIE3). A empresa acredita que este cenário pode estimular um processo de consolidação no setor.
Guilherme Ferrari, diretor de Energia Renovável da Engie, declarou em entrevista que a combinação de uma sobreoferta estrutural de energia, o rápido crescimento da geração distribuída e incentivos regulatórios inadequados têm prejudicado a previsibilidade do mercado, dificultando a viabilização de novos projetos no curto e médio prazo.
“O setor de renováveis enfrenta hoje desafios estruturais inéditos. O curtailment tem frustrado planos de negócios, comprometido a manutenção dos ativos e bloqueado completamente os investimentos futuros”, afirmou Ferrari.
Ele explica que o excedente de oferta atual é consequência de um ciclo de investimentos elevados em fontes centralizadas de energia renovável entre 2021 e 2024. Durante esse período, o governo indicou que as fontes renováveis não convencionais, como solar e eólica, já tinham alcançado um nível de maturidade que dispensaria subsídios de 50% nas tarifas de uso dos sistemas de transmissão e distribuição (TUST/TUSD).
A expectativa do fim gradual desse benefício levou investidores a anteciparem seus projetos para garantir condições regulatórias favoráveis, o que provocou um crescimento acelerado da oferta sem que a demanda acompanhasse na mesma proporção.
Ao mesmo tempo, a expansão da geração distribuída — destacando-se os sistemas solares instalados em residências e empresas — agravou este desequilíbrio, intensificando a sobreoferta durante o dia e aumentando os cortes para geradores centralizados, como as hidrelétricas.
Segundo Ferrari, “o sinal econômico foi mal calibrado. Embora os incentivos tenham beneficiado o curto prazo, suas consequências se mostraram negativas em longo prazo. Muitos projetos foram implementados sem que o risco de excesso de oferta fosse devidamente precificado.”
A Engie Brasil possui uma participação menor em renováveis não convencionais em comparação a outros grandes players. A empresa tem uma capacidade instalada de cerca de 10,5 GW, onde 70% a 75% vem de hidrelétricas, aproximadamente 15% de eólicos e 10% de solar.
No entanto, a companhia destaca que uma parcela significativa da capacidade eólica e solar é subutilizada nos momentos de excesso de geração, especialmente durante o dia, o que impacta negativamente seus resultados.
Curtailment reduz investimentos e parcela projetos da Engie Brasil
Diante deste contexto, a empresa adotou uma postura mais cautelosa em relação aos investimentos. Recentemente, solicitou a revogação da outorga de quatro projetos solares no Rio Grande do Norte, após avaliar que estes empreendimentos não seriam economicamente sustentáveis no horizonte planejado. “Fizemos o pedido para evitar descumprimento das autorizações”, explicou Ferrari.
No atual cenário do setor elétrico, a Engie não identifica condições financeiras para iniciar novos projetos greenfield em renováveis no curto e médio prazo. “Não existe viabilidade para projetos que convivam com cortes frequentes de geração neste nível”, ressaltou o diretor.
A empresa acredita que a energia eólica deve se recuperar anteriormente à solar, devido ao seu perfil de geração menos concentrado nos horários de maior oferta. Ainda assim, não há sinais claros de retomada de investimentos no futuro próximo.
Ferrari acrescenta que a piora nas condições pode fomentar um movimento de consolidação no setor, especialmente entre companhias mais dependentes de renováveis não convencionais. “Empresas 100% renováveis estão totalmente expostas ao curtailment e podem enfrentar dificuldades para honrar financiamentos, o que tende a incentivar processos de fusões e aquisições”, avaliou.
Mesmo assim, o executivo observa que o ambiente permanece complexo para aquisições. “Existe um descompasso entre a expectativa dos vendedores sobre o nível de curtailment e a avaliação mais conservadora dos compradores, dificultando a negociação dos preços”, explicou.
Com predominância de hidrelétricas no portfólio, a Engie se considera em uma situação relativamente menos afetada diante desse cenário.
Para crescer, a empresa tem focado em alternativas que ofereçam maior previsibilidade, como leilões de capacidade — destacando-se a possível ampliação da Usina Hidrelétrica Jaguari, no interior de São Paulo —, aquisições seletivas e novos vetores regulados, como projetos de armazenamento por baterias, cuja licitação está prevista para este ano.
Sobre o futuro das renováveis, a Engie destaca que a retomada dos investimentos depende de soluções estruturais, passando por maior estabilidade regulatória e equilíbrio do sistema. A companhia defende a revisão dos incentivos para geração distribuída, apontando que “o curtailment tornou-se um fator estrutural e representa um dos maiores desestímulos para investimentos em novas fontes renováveis”.



