De descartado a valioso: pé de galinha se torna importante negócio de exportação do Brasil para a China

O pé de galinha, que antes era considerado um resíduo nos açougues e frigoríficos brasileiros, transformou-se em uma mercadoria altamente rentável para o país. Essa mudança significativa ocorreu a partir de 2009, quando a China autorizou as exportações brasileiras de carne de frango. Em 2025, as vendas desse produto para o mercado chinês renderam à indústria nacional cerca de US$ 221 milhões, consolidando a China como o principal destino do pé de galinha brasileiro.

Na China, o pé de frango é consumido como um petisco popular, chegando até a ser vendido em máquinas automáticas em estações de metrô e shoppings. Já na África do Sul, que ocupa a segunda posição entre os maiores compradores brasileiros, o pé é ingrediente fundamental no prato tradicional denominado “walkie-talkie”, que combina cabeça e pé de frango.

Tradição e valorização no mercado nacional

A chef Jiang Pu, que vive na zona sul de São Paulo, relembra que o pé de galinha era oferecido gratuitamente nos açougues quando sua família chegou ao Brasil na década de 1990. Hoje, o produto tem preço valorizado e pode custar até R$ 14 o quilo no varejo, enquanto no mercado atacadista o valor médio no estado de São Paulo em 2026 está em torno de R$ 5,75, representando um aumento de mais de 40% em relação a 2020, conforme dados de Fernando Iglesias, analista do Safras & Mercado.

Segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), essa valorização está ligada principalmente à expansão do comércio com a China e ao crescimento da indústria de alimentos para animais de estimação, que utiliza o pé de galinha para a elaboração de farinhas destinadas à ração.

Pé de galinha como snack na China

No contexto chinês, o pé de galinha desempenha o papel de um snack para saciar a fome ao longo do dia, servindo à semelhança do amendoim para os brasileiros. Jiang Pu descreve que o consumo se dá ao roer e chupar o pé, o que prolonga o tempo de mastigação. No país, o produto é oferecido em embalagens individuais, já temperado e pronto para consumo, facilmente encontrado em lojas de rua, rotisserias e até em vending machines espalhadas por metrôs e centros comerciais.

Além disso, na culinária tradicional chinesa, o pé de galinha é utilizado para engrossar caldos, contribuindo com colágeno que confere textura viscosa e gelatinosa às sopas, que podem servir de base para outras receitas. A culinária chinesa valoriza o aproveitamento integral dos alimentos, um hábito enraizado pela longa história de adversidades enfrentadas pela população.

Uso e preparo do pé de galinha na China

Jiang destaca que prefere servir o pé de galinha como entrada, normalmente em saladas, e não como prato principal. Para prepará-lo, ela remove os ossos, preservando somente a pele, que após o cozimento adquire textura crocante similar à de pele de porco.

O pé de galinha na culinária africana

Além da China, o Brasil também exporta esse miúdo para países africanos como Libéria, Serra Leoa, Moçambique e Guiné, mas a maior fatia fica para a África do Sul, que aumentou consideravelmente suas importações em 2025, chegando a US$ 49 milhões, uma alta superior a quatro vezes em relação ao ano anterior.

Na África do Sul, o pé de galinha integra pratos tradicionais, especialmente o “walkie-talkie”, que combina o pé (associado ao verbo “walk”, andar em inglês) com a cabeça (ligada ao verbo “talk”, falar). Também é conhecido como “runaway” ou “Maotwana” no país. Diferentemente da textura crocante apreciada na China, na culinária sul-africana o pé é cozido lentamente e preparado em ensopados, assemelhando-se ao cozido típico brasileiro de Minas Gerais.

Culinária de resistência e criatividade

Mariana Bahia, representante da Câmara de Comércio Brasil-África do Sul, explica que muitos pratos populares na África do Sul têm origem no período colonial, quando a segregação racial limitava o acesso da população negra a cortes nobres de carne. Assim, eles passaram a usar miúdos de maneira criativa, temperando bem os pratos com especiarias como curry, páprica, cúrcuma e gengibre. O acompanhamento tradicional é o “pap”, uma polenta de milho local que serve como base para carnes e miúdos.

Essa prática de utilizar integralmente as partes do animal está presente também na cultura culinária chinesa, um reflexo das dificuldades históricas enfrentadas para garantir alimento de forma sustentável.

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