Turistas no Japão se surpreendem com a ausência de lixeiras públicas

Ao chegar ao Japão, muitos visitantes ficam intrigados ao perceberem a quase inexistência de lixeiras nas ruas, um contraste marcante comparado a outros países. Esse fenômeno tem chamado atenção internacional, já que, tradicionalmente, o Japão é conhecido por sua limpeza exemplar mesmo sem contar com muitas lixeiras públicas.

Miranda Castleberry, uma engenheira de Atlanta, exemplifica essa surpresa. Em sua viagem de três semanas pelo país, ela teve que adaptar-se carregando seu lixo pessoal nos bolsos, após não encontrar locais para descartá-lo, principalmente após provar um café gelado com sorvete em um 7-Eleven. “Nunca imaginei que eu mesma fosse me tornar uma lixeira ambulante”, comentou.

O cenário é resultado de uma mudança iniciada em 1995, após um ataque com gás tóxico no metrô de Tóquio, que fez com que o governo retirasse muitas lixeiras das ruas por motivos de segurança e também devido aos custos de manutenção e regulamentações rígidas sobre instalações públicas. Atualmente, os japoneses costumam levar seu lixo para casa, e os turistas são esperados a seguir essa prática. Contudo, o aumento recorde de visitantes estrangeiros — 42,7 milhões no último ano — tem tornado essa estratégia inviável, provocando acúmulo de lixo em áreas turísticas.

Pesquisas indicam que a ausência de lixeiras é a reclamação mais frequente feita por turistas, superando dificuldades com idioma e aglomerações. Leslie Saxton, de Riverside, Califórnia, relatou que no seu primeiro dia tentou descartar embalagens de snacks durante uma caminhada e não encontrou nenhuma lixeira até o quarto dia, chegando a gravar um vídeo como se tivesse capturado uma espécie rara ao encontrar uma lixeira em frente a uma loja da Nike.

Com o aumento do lixo deixado em ruas e espaços públicos, inclusive com turistas escondendo resíduos em arbustos ou em parapeitos, algumas localidades começara a mudar suas políticas. No bairro de Shibuya, em Tóquio, autoridades implementaram regras que exigem que lojas de conveniência e cafés instalem lixeiras, sob pena de multa de cerca de US$ 325.

O Parque de Nara, conhecido pelos cervos que circulam livremente, restabeleceu lixeiras após quatro décadas, instalando recipientes inovadores movidos a energia solar com sensores que comprimem o lixo quando cheio e estampam a mensagem “Save the Deer” em inglês.

Outras cidades têm adotado lixeiras inteligentes, graças a subsídios do governo japonês para essa finalidade. Um exemplo simples é a distribuição de sacos de lixo impermeáveis para turistas na cidade de Kawagoe, nos arredores de Tóquio.

Além disso, iniciativas comunitárias vêm ganhando força. Um grupo de estudantes da Universidade Seikei, em Tóquio, criaram um projeto onde carregam lixeiras nas costas como mochilas enquanto circulam pela região de Shibuya, incentivando a coleta coletiva de lixo. O projeto, que começou como ação voluntária, agora atrai anunciantes e pretende expandir para outras cidades e eventos culturais.

Nas redes sociais, muitos viajantes compartilham dicas para lidar com a ausência de lixeiras, como sempre levar um saco plástico para armazenar seus resíduos e procurar por lojas de conveniência e grandes estações de trem, que normalmente possuem locais para descarte. A reação diante de uma lixeira se tornou quase uma atração turística, gerando memes e vídeos de surpresa.

O professor Ryo Nishikawa, especialista em turismo na Universidade Rikkyo, explica que o choque dos estrangeiros em relação à falta de lixeiras contrasta com a abundância de banheiros públicos no Japão, que são, na maioria das vezes, gratuitos e acessíveis — algo incomum em países como os Estados Unidos, onde o acesso a banheiros públicos é frequentemente restrito.

Para Miranda Castleberry, a experiência no Japão evidenciou a diferença cultural em relação à gestão do lixo. Ela observou que nos Estados Unidos o descarte inadequado é comum e reforçou sua impressão de que o Japão mantém uma das ruas mais limpas que já visitou, sem precisar mudar sua postura.

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