‘Herançocracia’: o motivo pelo qual as gerações atuais dependem mais do patrimônio dos pais para o sucesso financeiro
A historiadora britânica Eliza Filby, autora do livro “Inheritocracy: It’s Time to Talk About the Bank of Mum and Dad” — cuja tradução livre seria “‘Herançocracia’: está na hora de falar do banco da mamãe e do papai” —, explora as consequências da fortuna acumulada por uma geração específica, os baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964), sobre o sistema econômico atual e as gerações seguintes.
Este fenômeno, segundo Filby, afeta profundamente os integrantes da geração X (1965 a 1980) e os millennials (1981 a 1986), podendo se estender futuramente para a geração Z (1997 a 2012) e a geração alfa (2013 a 2024). A autora argumenta que isso criou um sistema onde cerca de metade das pessoas não conta com caminhos alternativos claros para garantir uma vida estável.
Filby enfatiza que a chamada herançocracia muda significativamente a maneira como as pessoas escolhem parceiros, planejam suas vidas e percebem segurança.
O conceito de meritocracia e seus desdobramentos
A autora destaca que o termo “meritocracia” surgiu originalmente como um alerta, cunhado pelo sociólogo britânico Michael Young em 1958, que usou o termo para ironizar uma sociedade onde o sucesso era atribuído exclusivamente ao talento e esforço individual, e o fracasso era responsabilidade do próprio indivíduo.
Com o tempo, a palavra passou a ser usada como elogio, o que, para Filby, contribui para a frustração das gerações mais jovens, que cresceram na expectativa de que o trabalho duro garantiria seu sucesso.
Ela explica que essa ideia basal para democracias modernas foi reduzida a uma visão limitada do mérito, focada em aprovação em exames e estudos acadêmicos, propondo que o modelo favoreceu os baby boomers, uma geração que, beneficiada por um crescimento econômico pós-guerra e maior investimento público em educação superior, conseguiu ascender socialmente.
No entanto, essa dinâmica não se manteve para as gerações posteriores, pois o sistema educacional e econômico não conseguia oferecer garantias reais de estabilidade e sucesso para todos que buscavam essa trajetória.
Além disso, os custos da educação aumentaram, o valor real dos diplomas caiu, e muitos jovens, especialmente de famílias menos favorecidas, acabaram endividados sem assegurar um futuro seguro.
Filby também aponta que o modelo rígido, baseado em inteligências e parâmetros do século XIX, tornou-se inadequado para os desafios contemporâneos, inclusive diante das transformações causadas pela inteligência artificial e as mudanças no mercado de trabalho. Ela afirma que a educação deve ser um processo contínuo, e que as empresas precisam investir mais na capacitação de seus funcionários, contrariando a expectativa de que eles cheguem “preparados” ao emprego.
O papel do ‘banco da mamãe e do papai’
Diante dessa realidade, a autora destaca que o apoio financeiro familiar se tornou uma fonte de estabilidade mais relevante que o próprio emprego para muitos jovens. Essa ajuda familiar não é um ato de mera indulgência ou irresponsabilidade, e sim uma resposta adaptativa a falhas estruturais do mercado e do Estado.
O termo “banco da mamãe e do papai” começou a se popularizar no Reino Unido por volta de 2013 para descrever a prática crescente de pais e avós que ajudam filhos e netos com custos como educação, moradia, creche e até despesas básicas do dia a dia.
Após a crise financeira de 2008, enquanto alguns itens como tecnologia e lazer ficaram mais acessíveis, gastos essenciais como moradia, saúde e educação tornaram-se mais caros, deixando os grandes desafios da vida adulta fora do alcance sem suporte familiar.
Esse contexto derruba estereótipos como o do millennial que apenas gasta com modismos, revelando que muitos priorizam economizar para as obrigações maiores, que são inviáveis sem auxílio.
Contrariando a ideia de que esse fenômeno é exclusivo da classe média alta, Filby aponta que a maioria dos jovens que permanece morando com os pais na casa dos 30 anos pertence à classe trabalhadora, e recebe apoio em formas básicas como teto, alimentação e cuidado mútuo, com redes familiares funcionando como sistema de suporte crucial.
No entanto, nem todas as famílias conseguem proporcionar essa proteção, tornando o nascimento e o contexto familiar fatores decisivos na estabilidade econômica e social do indivíduo.
Implicações sociais da herançocracia
Além dos efeitos financeiros, a herançocracia também está moldando aspectos sociais profundos, influenciando desde a escolha de parceiros até o planejamento de vida dos indivíduos. Filby observa um aumento na tendência de formar casais entre pessoas com condições e patrimônios familiares similares, inicialmente entre universitários e, mais recentemente, com base no acesso ao patrimônio dos pais.
Pesquisas indicam que mais de metade da geração Z considera a compatibilidade financeira um fator decisivo em relações, levantamento que supera muito as gerações anteriores.
A autora ressalta ainda a pressão sobre a “classe média espremida”, que freqüentemente se vê na posição de cuidar dos pais idosos enquanto assistem os filhos adultos, um reflexo da concentração da riqueza sobretudo entre os idosos e da fragilidade crescente do sistema socioeconômico.
Filby conclui que esse movimento está minando a crença das gerações atuais na capacidade do Estado de garantir uma vida melhor para elas e seus filhos, atravessando um momento semelhante ao de desilusão da década de 1970, exigindo uma reformulação dos fundamentos do contrato social.
Ela destaca que discutir a herançocracia é essencial para entender a distribuição das oportunidades, não para estigmatizar, e que reconhecer essa realidade permite decisões mais conscientes em âmbito pessoal e coletivo, já que ignorá-la pode levar a um colapso mais profundo do que somente o econômico.



