Problemas na narrativa do Bitcoin: após conquista de Wall Street, criptomoeda recua por falta de fundamentos
O bitcoin, maior criptomoeda do planeta, atingiu seu pico impulsionada por fundos negociados em bolsa (ETFs), suporte institucional e respaldo de Washington, mas carece de fundamentos sólidos como os de ações ou commodities. O valor da moeda digital depende quase que exclusivamente do poder das narrativas que a sustentam, agora em declínio, gerando uma queda superior a 40% desde seu ápice.

O cenário atual do bitcoin surpreende, pois diante da dramática queda de mais de 40% em seu valor desde o máximo histórico, os investidores tradicionais que usualmente aproveitam essas quedas ficaram afastados, e as forças que normalmente geram recuperação atuam contra a criptomoeda.
Enquanto o ouro tem ganhado espaço como reserva de valor para proteção macroeconômica, as stablecoins assumem papel destaque nos meios de pagamento e mercados de previsão dominam a especulação financeira. Curiosamente, esses movimentos não refletem uma falha do sistema bitcoin, já que o apoio institucional e a adesão em Wall Street nunca estiveram tão fortes, evidenciando que a adoção do ativo atingiu seu limite sem corresponder à valorização desejada.
Essa situação revela que o desafio central para o bitcoin atualmente não é mais o preço, mas sim seu propósito e utilidade real. A dada queda impulsiona um questionamento sobre seu papel: se não é a melhor proteção contra riscos, nem instrumento ideal para pagamentos ou especulação, qual é sua real função no mercado?
O fim da narrativa do crescimento contínuo
Até recentemente, a história preponderante do bitcoin era a de que seu valor sempre subiria, um mantra que cativava investidores e reforçava sua reputação. Contudo, com a reversão da tendência e a queda persistente nos preços, essa narrativa perdeu força. Como afirmou Owen Lamont, gestor de portfólio da Acadian Asset Management, “a narrativa central do bitcoin era ‘o número só sobe’, e agora vemos que o número está caindo, o que não é uma boa história”.

Falta de fundamentos sólidos
Diferentemente de ativos tradicionais como ações e commodities, o bitcoin não possui fundamentos econômicos tangíveis. Seu valor reside predominantemente na fé e no entusiasmo dos investidores, estimulados por narrativas que convencem novos compradores a ingressar no mercado. Com o esfriamento dessas histórias, os investidores de varejo, especialmente aqueles atraídos por impulsos políticos recentes, encontram-se agora com prejuízos expressivos.
Além disso, novos instrumentos especulativos, como mercados de previsão e bolsas de commodities, começam a atrair a atenção antes dedicada exclusivamente ao mercado cripto, segundo Noelle Acheson, analista na newsletter Crypto is Macro Now. Com o bitcoin absorvido como um ativo macroeconômico, ele enfrenta concorrência de alternativas mais acessíveis e compreensíveis para investidores institucionais e conselheiros.
Deslocamento no mundo das criptomoedas
Em novembro, um indicativo claro desse movimento foi a decisão de Jack Dorsey, um dos maiores defensores corporativos do bitcoin, de adicionar suporte a stablecoins em seu aplicativo Cash App. Por anos, Dorsey defendeu o maximalismo do bitcoin, mas sua mudança evidencia que o foco dos pagamentos digitais está evoluindo.
Washington também tem favorecido as stablecoins, com aprovações bipartidárias de regulamentos, como o Genius Act, além do incentivo a uma infraestrutura robusta para tokens lastreados em dólar. Internamente, o ecossistema cripto amplia suas utilidades com tokenização, derivativos em blockchain e pagamentos transfronteiriços via stablecoins, tecnologias que não dependem do bitcoin para funcionamento.
Carlos Domingo, CEO da plataforma de tokenização Securitize, reforça que atualmente o bitcoin não é visto como um instrumento de pagamento eficaz, destacando que a atividade econômica envolvendo stablecoins está muito mais alinhada com redes como Ethereum.
A financeirização e a perda de mística
Ironicamente, a retração do bitcoin ocorre em meio a uma fase de avanço institucional. O ciclo de alta em 2025 impulsionou a criação de infraestrutura para o ativo, que na prática o tornou muito similar a qualquer instrumento financeiro tradicional, disponível facilmente nas corretoras com múltiplos produtos financeiros derivados. O mistério e a exclusividade que antes cercavam o bitcoin desapareceram.
Apesar de ainda serem mencionados seus atributos de escassez programada, como o limite fixo de 21 milhões de unidades e o processo de halving, a atenção do mercado está dispersa entre uma infinidade de outras alternativas. Além disso, preocupações técnicas, como possíveis impactos futuros da computação quântica sobre a segurança criptográfica do bitcoin, minam sua narrativa de inviolabilidade, apesar de serem ameaças a longo prazo.
Fracasso como proteção macroeconômica
Embora tenha sido promovido durante anos como “ouro digital”, o bitcoin não correspondeu às expectativas fundamentais como proteção contra a inflação ou instabilidades globais. Em um ano marcado por tensões geopolíticas e fraqueza do dólar, o ouro e a prata registraram fortes valorizações, enquanto o bitcoin sofreu desvalorização.
Os fluxos financeiros refletem essa divergência: ETFs de ouro nos EUA arrecadaram mais de US$ 16 bilhões nos últimos três meses, enquanto ETFs referente ao bitcoin sofreram saídas líquidas de aproximadamente US$ 3,3 bilhões, de acordo com dados da Bloomberg. Consequentemente, a capitalização de mercado do bitcoin diminuiu em mais de US$ 1 trilhão.

Tom Essaye, ex-trader da Merrill Lynch, destaca que o bitcoin permanece um ativo especulativo e não substitui o ouro nem oferece utilidade comparável. Ele afirma que o ativo não é um mecanismo eficaz contra inflação ou crises, especialmente pela sua alta volatilidade. Investidores encontram outras proteções mais estáveis no mercado.
Desmontagem do modelo corporativo
Empresas como a Strategy Inc. adotaram o bitcoin como reserva em suas tesourarias, acumulando a criptomoeda durante o período de valorização e emitindo ações lastreadas nesses ativos, criando um ciclo virtuoso para atrair investidores institucionais. Porém, esse modelo se reverteu recentemente, minando a confiança.
Organizações representativas desse perfil sofreram quedas marcantes, algumas com performances inferiores até mesmo ao próprio bitcoin, negociando atualmente abaixo do valor de seus ativos digitais.
Perda de domínio na especulação
O domínio do bitcoin entre investidores especulativos começa a diminuir, com plataformas de mercados de previsão, como Polymarket e Kalshi, conquistando espaço com apostas rápidas e baseadas em eventos reais. O volume semanal dessas plataformas cresceu significativamente no último ano, e até grandes corretoras, como a Coinbase Global, adotaram contratos de previsão.
Para Roxanna Islam, especialista da TMX VettaFi, esses mercados de previsão atraem os mesmos investidores que antes operavam ativamente com criptomoedas especulativas, o que pode representar uma redução geral na atenção ao mercado cripto ou, alternativamente, uma migração para um perfil de investidores mais focado e de longo prazo.
Operações de margem e volatilidade
Um desafio oculto no mercado de bitcoin reside no descompasso entre as formas simplificadas de aquisição, como ETFs à vista, e a negociação intensa em mercados de derivativos offshore, onde alavancagens de até 100 vezes são comuns. Essas plataformas aplicam mecanismos automáticos de liquidação forçada quando os limites de margem são ultrapassados, resultando em quedas abruptas no preço à vista em questão de minutos.
Esse fator ficou evidente na queda dramática de outubro, com bilhões em posições alavancadas liquidadas rapidamente, causando prejuízos antes mesmo que detentores de ETFs percebessem a magnitude do impacto.
Perspectivas para o bitcoin
Apesar dos desafios, o bitcoin permanece como o ativo digital mais líquido, com grande profundidade de mercado e ampla cobertura de exchanges. Os ETFs facilitaram sua inclusão definitiva em carteiras institucionais, e a regulamentação que beneficia as stablecoins pode fortalecer todo o ecossistema blockchain no longo prazo.
Historicamente, o bitcoin já sobreviveu a crises severas, incluindo o colapso da Mt. Gox, o banimento da mineração na China e quedas expressivas em 2014, 2018 e 2022, sempre se recuperando e batendo novos recordes. Essa resiliência confere ao ativo uma legitimidade singular dentro do segmento de criptomoedas, muitos dos quais não resistiram a tempos turbulentos.

O risco da perda de relevância
No entanto, sobreviver a crises não garante relevância contínua. O maior perigo para o bitcoin não reside em concorrentes diretos, mas na perda gradual de atenção, capital e fé, quando nenhuma narrativa consegue sustentar sua atratividade. Ainda que a rede funcione e o ativo exista, as histórias que lhe davam poder, como ouro digital, moeda da liberdade e reserva institucional, estão se desgastando simultaneamente. Resta saber se isso representa uma crise temporária ou um fenômeno permanente na economia digital.
Michael Rosen, gestor de investimentos da Angeles Investment Advisors, compara o comprometimento com o bitcoin a uma crença religiosa, difícil de abalar, mas ressalta que este não é seu posicionamento pessoal.



