Inflação em 2025: Quais preços mais caíram e quais tiveram maior alta
Estudos realizados recentes revelam a evolução das projeções inflacionárias ao longo de 2025 e apontam os produtos que tiveram maior impacto no bolso dos consumidores brasileiros.
A trajetória da inflação oficial brasileira surpreendeu em 2025, contrariando grande parte das previsões feitas no início do ano. Entre os fatores que ajudaram a controlar o aumento dos preços, destacam-se as melhores safras agrícolas do que o esperado e a ausência de eventos climáticos adversos que poderiam prejudicar as plantações, especialmente no setor de alimentos.
Além disso, a valorização do real frente ao dólar, políticas comerciais adotadas pelos Estados Unidos e a manutenção dos juros elevados no Brasil exerceram papel fundamental para conter a inflação durante o ano.
Segundo um levantamento, metade dos dez produtos que mais contribuíram para frear a inflação são alimentos, destacando laranja-pera (-27,21%), batata-inglesa (-26,57%) e arroz (-24,24%). A expectativa é que a inflação brasileira termine 2025 dentro do intervalo de tolerância de 4,5% estabelecido pelo Banco Central.
A evolução das projeções de inflação em 2025
Em breve, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará o número final da inflação oficial no Brasil para 2025. No entanto, já é sabido que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apresentou comportamento diferente daquele previsto por economistas no começo do ano.
Ao final de 2024, o cenário era marcado por uma valorização do dólar, incertezas climáticas e forte ritmo da atividade econômica, elevando o pessimismo quanto ao controle inflacionário. Naquele momento, o mercado temia que o Banco Central não conseguisse conter o ritmo da inflação e que as políticas comerciais do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, interferissem negativamente no comércio global.
André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), ressalta que o clima pessimista impactou as projeções, apontando como exemplo o Boletim Focus de início de 2025, que previa inflação próxima a 4,99% e dólar cotado a R$ 6 no fim do ano.
Entretanto, acontecimentos positivos durante o ano mudaram esse cenário, segundo Braz. O economista Fábio Romão, da 4Intelligence, apresentou um levantamento mostrando que, entre nove grupos econômicos avaliados, quatro tiveram suas expectativas de inflação reduzidas para 2025, enquanto um permaneceu estável.
Um dos principais fatores que impulsionaram a redução nas previsões foi o subgrupo de alimentação no domicílio, que iniciou o ano estimado para subir 5,8%, chegou a prever aumento de 7% no meio do ano, mas agora projeta alta reduzida a 2,3%.
Romão relaciona essa moderação ao desempenho mais favorável dos preços agropecuários, com safras superiores ao esperado e a não ocorrência de eventos climáticos prejudiciais, além de um aumento temporário na oferta doméstica de proteínas devido à gripe aviária.
Outros fatores como a valorização do real, políticas comerciais dos EUA e juros elevados no Brasil também atuaram para manter a inflação em controle.
Produtos que tiveram queda de preços em 2025
O FGV Ibre, a pedido desta reportagem, identificou que metade dos dez itens com maior contribuição para a desaceleração da inflação pertencem ao segmento de alimentos, destacando laranja-pera, batata-inglesa e arroz, que apresentaram quedas significativas nos preços.
Segundo André Braz, esses produtos registraram uma redução média de 16,9% durante o período, aliviando o custo da cesta básica e reduzindo a pressão nas despesas das famílias de menor renda, que dedicam uma parte maior do orçamento à alimentação.
O levantamento considerou a variação acumulada entre janeiro e novembro, com base no Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15).
Vale mencionar também o grupo dos bens duráveis, que inclui eletrodomésticos, móveis e equipamentos eletrônicos. Esse setor, mais sensível aos aumentos dos juros, apresentou recuo médio de 3,5% no período, motivado pelo encarecimento do crédito e a necessidade das empresas em conceder descontos para continuar vendendo.
Itens que mais subiram de preço em 2025
De acordo com o estudo do FGV, os maiores responsáveis pela inflação acumulada até novembro foram os serviços livres e os preços monitorados.
A explicação para o aumento dos preços desses serviços está no comportamento favorável do mercado de trabalho durante o ano. A taxa de desemprego fechou em 5,2% no trimestre encerrado em novembro, menor nível desde o início da série histórica em 2012, segundo dados do IBGE.
André Braz explica que a manutenção do desemprego em patamares tão baixos mantém a demanda por serviços aquecida, dificultando a desaceleração dos preços.
Seis dos dez componentes que mais impulsionaram a inflação são serviços livres, incluindo aluguel residencial, refeições, lanches, ensino fundamental, empregado doméstico e condomínio.
Juntos, esses gastos representam 15,8% dos orçamentos familiares e tiveram aumento médio de 6,2% entre janeiro e novembro, superando a meta de 3% estipulada pelo Banco Central.
Um destaque especial é o café, que subiu 43,27% até novembro, explicado por um choque de oferta devido a fatores climáticos, safras e câmbio, independentemente das condições do crédito doméstico.
Desaceleração da inflação ainda não resulta em alívio para o consumidor
Há previsão de que a inflação brasileira conclua 2025 dentro da faixa de tolerância da meta do Banco Central, fixada em 4,5%, o que representaria um ligeiro declínio em relação aos 4,83% de 2024.
No entanto, apesar dessa desaceleração, os brasileiros sentem os preços ainda elevados em seus orçamentos. Especialistas atribuem essa percepção principalmente ao incremento forte e acumulado nos preços dos alimentos ao longo dos últimos anos.
Braz destaca que os custos da alimentação em domicílio desde 2020 apresentam variação muito superior à da inflação média, impactando negativamente o poder de compra das famílias, cujos salários são corrigidos pelo IPCA.
Ele aponta que muitas famílias foram obrigadas a cortar gastos em outras áreas para garantir a alimentação, já que os reajustes salariais não acompanharam a expressiva alta nos preços dos alimentos nos últimos cinco anos.
Perspectivas para 2026
Com a aproximação de um ano eleitoral, espera-se que o Brasil possa vivenciar medidas de transferência de renda ou injeção de recursos na economia, o que tende a gerar maior pressão inflacionária.
Além do cenário político, outros fatores devem influenciar os preços no ano, como o clima, a qualidade das safras, a variação cambial, as taxas de juros e a evolução do mercado de trabalho.
Segundo André Braz, as expectativas até o momento são cautelosamente positivas, pois o Banco Central demonstra compromisso com a meta inflacionária, mas o cenário político e as condições climáticas representam desafios.
Os especialistas destacam a necessidade de monitorar o mercado de trabalho, que ainda se mantém aquecido, e o câmbio. Há ainda a perspectiva de melhora nos preços administrados e na inflação dos alimentos, dependendo das condições climáticas.
Fábio Romão enfatiza que a curva dos preços do petróleo indica uma margem confortável para reajustes em 2026 e que índices como o IGP-M e o IPCA mais baixos podem mitigar eventuais aumentos nas contas de energia. Ele adiciona a expectativa de boas colheitas e alguma redução nos preços do café.
“Esperamos uma inflação similar à de 2025, mas é fundamental acompanhar os desdobramentos futuros”, conclui o economista.



