PDVSA sob pressão: qual o futuro da petroleira venezuelana com a ofensiva dos EUA?
Após declarações do ex-presidente Donald Trump afirmando o desejo de “assumir” o mercado petrolífero da Venezuela, o destino da estatal PDVSA voltou ao centro das discussões. A Venezuela detém aproximadamente 17% das reservas comprovadas de petróleo mundial, correspondendo a mais de 300 bilhões de barris, e por muitos anos manteve quase um monopólio no setor após a reestatização iniciada por Hugo Chávez.
Com a prisão de Nicolás Maduro, Trump prometeu uma remodelação da indústria petrolífera venezuelana, com a injeção de bilhões de dólares provenientes de grandes empresas americanas. Esse contexto colocou os destinos dessas reservas na mira de governos, investidores e corporações globais.
As ações de companhias petrolíferas dos EUA tiveram alta inicial notável, com destaque para a Chevron, que já possui operações na Venezuela e apresentou valorização de 5,13% em um único dia. Porém, conforme o mercado percebeu que mudanças robustas demandam tempo, as ações sofreram queda.
Especialistas consultados indicam que tal movimentação reflete principalmente a percepção de um novo cenário geopolítico, mais do que alterações imediatas na oferta de petróleo no mercado internacional.
Apesar da ocorrência de ações militares, a PDVSA segue com suas atividades regulares de produção e refino intactas, segundo informações da Reuters, mesmo com danos significativos ao porto de La Guaira depois dos ataques.
Situação atual da PDVSA
Ainda que a estatal venezuelana continue em funcionamento, o maior desafio não está nas operações diárias, mas sim na estrutura de longa duração da empresa.
Welber Barral, sócio da BMJ Consultores Associados e ex-secretário do Ministério do Desenvolvimento, destaca que a PDVSA foi progressivamente enfraquecida pela carência de investimentos. Atualmente, a produção está em apenas um terço do volume registrado duas décadas atrás, consequência da má gestão, mas reconhece o potencial pelo volume das reservas disponíveis.
Como principal responsável pela exploração, produção, refino e exportação, a PDVSA é crucial para a economia venezuelana, já que o petróleo gera cerca de 90% das receitas de exportação do país, sustentando as finanças públicas.
Entretanto, sob os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, a companhia sofreu forte interferência política, casos frequentes de corrupção, fuga de técnicos qualificados e o afastamento de investidores estrangeiros.
Esses fatores levaram a queda de mais de 70% na produção desde o final dos anos 1990. Incidentes operacionais, como acidentes em oleodutos e refinarias, agravaram o quadro, enquanto sanções dos EUA a partir de 2017 limitaram o acesso da empresa a financiamentos, tecnologias e mercados internacionais.
Mesmo assim, a PDVSA conseguiu manter sua produção estabilizada em torno de 1 milhão de barris diários, em parte devido a licenças especiais concedidas a empresas estrangeiras como a Chevron.
Rafael Chaves, ex-diretor da Petrobras e professor da FGV, acredita que a estatal venezuelana poderá manter sua relevância, mas deverá modificar seu modelo atual, que é marcado por um isolamento político e econômico. Para ele, a tendência é um novo modelo no qual a empresa opere em colaboração com empresas internacionais, o que fortaleceria a companhia em vez de enfraquecê-la.
Objetivos de Trump e papel das empresas americanas
Durante uma coletiva de imprensa, Trump declarou a intenção de “reparar” a indústria petrolífera da Venezuela ao permitir a entrada de grandes companhias americanas, o que viabilizaria a recuperação da infraestrutura e a reinserção do petróleo venezuelano no mercado global.
Ele afirmou que empresas americanas investiriam bilhões, reconstruindo a estrutura e trazendo lucros para o país, defendendo a participação direta do capital privado nesse processo.
De acordo com um relatório do UBS BB, Trump defende uma administração americana da Venezuela durante um período de transição, com a produção liderada por companhias dos EUA, sem que isso represente estatização.
Para Rafael Chaves, a expressão “assumir” feita por Trump deve ser interpretada como permitir que empresas privadas como Exxon e Chevron atuem livremente no país.
Welber Barral ressalta que, apesar de restrições nos últimos anos, algumas companhias americanas mantiveram interesse limitado na Venezuela, condicionados à segurança jurídica. Autorizações criadas durante o governo Biden foram revogadas com Trump, fazendo muitas empresas suspenderem suas atividades, porém a intenção de retomar investimentos continua.
O caminho mais provável para isso seria por meio de acordos com a PDVSA, que podem incluir a cessão de blocos ou outras formas de parceria, visando facilitar a produção e exportação, particularmente para o sul dos EUA, onde há várias refinarias.
Essa perspectiva de reabertura do mercado venezuelano impulsionou o valor das ações das maiores petrolíferas dos EUA desde o início de janeiro.
Impactos no mercado internacional de petróleo
Segundo especialistas consultados, as recentes mudanças no setor petrolífero venezuelano devem exercer um reflexo limitado nos preços internacionais do petróleo no curto prazo.
A explicação principal reside no fato de que a produção venezuelana está atualmente ao redor de 1 milhão de barris diários, cifra inferior ao potencial histórico do país.
Para que haja aumento expressivo na oferta, será necessário um processo prolongado de investimentos, recuperação das infraestruturas e reestruturação da governança da PDVSA.
Além disso, o mercado global para 2026 já está projetando excesso de oferta e demanda fraca, o que reduz as chances de influências rápidas ou significativas nos preços.
Helder Queiroz, professor da UFRJ e ex-diretor da ANP, afirma que mesmo em um cenário otimista, a recuperação seria gradual, e que um retorno à produção de 3 milhões de barris diários demoraria pelo menos cinco anos.
Por outro lado, um eventual aumento na produção venezuelana tornaria o mercado mais competitivo, incentivando o Brasil e a Petrobras a avançarem na exploração de suas reservas, segundo Rafael Chaves.
Ele reconhece a importância da Petrobras, mas ressalta a necessidade de aceleração dos projetos para converter o potencial energético em crescimento econômico.
O papel da China e o cenário geopolítico
A iniciativa dos EUA na Venezuela também possui implicações estratégicas globais. Gustavo Vasquez, gerente de petróleo e GLP da Argus, destaca que a China é atualmente o principal comprador do petróleo venezuelano, adquirindo cerca de 430 mil barris por dia, além de ser credora de aproximadamente US$ 12 bilhões em empréstimos garantidos pelo petróleo venezuelano.
Especialistas interpretam que os EUA buscam reduzir a influência chinesa e russa no país sul-americano, o que pode levar outras nações da região a repensar suas relações econômicas e políticas.
No entanto, Welber Barral considera que não existe, até o momento, uma estratégia americana clara para o futuro da Venezuela além da destituição de Maduro. Segundo ele, os interesses geoestratégicos principais visam afastar a Venezuela das alianças com Rússia, China e Irã.
Na visão dos analistas, as reações do mercado refletem mais a leitura do novo contexto político do que alterações efetivas na produção ou na estrutura da indústria petrolífera venezuelana.
Helder Queiroz observa que, embora tenha havido maior tensão inicialmente, os preços do petróleo retornaram aos níveis anteriores, indicando que o impacto prático ainda é incerto e espera-se por definições futuras no âmbito geopolítico e energético.



