Casal transforma investimento inicial para casa em negócio que fatura R$ 16 milhões

A startup brasileira Twiggy, especializada em inteligência artificial aplicada ao varejo de moda, evoluiu de um aplicativo pouco lucrativo para uma empresa que teve receita de R$ 12 milhões em 2024, com previsão de alcançar R$ 16 milhões em 2025 e a expectativa de dobrar esse valor em 2026, impulsionada pela expansão no mercado norte-americano.

Fundada em 2022 pelos paulistas Ian Oliveira e Ariadne Alcântara, a Twiggy desenvolveu uma tecnologia exclusiva que utiliza buscas por imagem para recomendar roupas. Em vez de se limitar a filtros convencionais como cor e tamanho, a plataforma analisa imagens e extrai mais de 200 atributos, incluindo caimento, tipo de estampa e detalhes de acabamento, criando um código único para cada peça, semelhante a um “DNA”.

Esse sistema permite que a ferramenta sugira itens semelhantes de forma rápida e precisa dentro do e-commerce das marcas, entendendo, por exemplo, que uma jaqueta com zíper lateral e um determinado tipo de estampa combina melhor com o gosto do consumidor do que outra peça que seja parecida apenas na cor.

O algoritmo associa peças com base nas similaridades dos códigos gerados, não apenas pela imagem visual, o que resulta em recomendações mais relevantes, facilitando a navegação do usuário e aumentando a chance de compras com menos cliques.

Atualmente, a Twiggy oferece três funcionalidades principais: busca inteligente por texto, busca por imagem e vitrines de recomendação. A empresa estima que essa tecnologia aumenta em cerca de 30% tanto a taxa de conversão quanto o ticket médio dos sites parceiros.

A startup já atende mais de 40 marcas brasileiras como Grupo Soma (incluindo Animale e Hering), Arezzo e Shoulder, além de quatro marcas americanas, como Michael Kors, Anthropologie e Steve Madden. Com tíquetes médios mais elevados no mercado americano, cerca de 70% das receitas da Twiggy já vêm dos Estados Unidos.

Do projeto inicial para casa própria ao empreendedorismo

Antes de empreender, Ian Oliveira trabalhou em pesquisa de negócios e gestão de produto no Shopping Iguatemi, enquanto Ariadne Alcântara atuou na área de tecnologia focada em qualidade de software e eficiência operacional em redes como DPSP (Drogaria São Paulo e Drogarias Pacheco). O casal se conheceu em hackathons de tecnologia.

Em determinado momento, decidiram investir R$ 700 mil, um valor separado para construir uma casa no interior de São Paulo, em uma ideia ainda incerta de negócio. “Ou investíamos na casa, ou na empresa”, lembra Ian Oliveira.

Inicialmente, a Twiggy foi concebida como um aplicativo para o consumidor final que permitia tirar fotos de looks e encontrar roupas semelhantes de outras marcas. Apesar de alcançar 60 mil downloads, o app gerava pouca receita, quase levando ao encerramento da startup.

O divisor de águas ocorreu ao migrarem para o modelo B2B, integrando as recomendações de busca por imagem diretamente nos sites das marcas, sem exigir que o consumidor baixasse um novo aplicativo para usar o serviço.

Desde então, a empresa captou R$ 600 mil em investimentos da Bossa Nova e WOW Aceleradora em 2022; em 2023, entrou para o programa Google Black Founders Fund, voltado a founders negros; e em 2024, realizou rodada pré-seed de R$ 3,5 milhões com recursos do fundo soberano do Espírito Santo (FUNSES), Bossa Invest, WOW Aceleradora e ACE Ventures.

O “motor invisível” da inteligência artificial no e-commerce

No mercado internacional, a Twiggy enfrenta concorrentes que já comprovaram a eficiência da personalização em larga escala, como a Dynamic Yield, adquirida pelo McDonald’s em 2019 por US$ 300 milhões e posteriormente vendida à Mastercard. Essa empresa desenvolveu, por exemplo, tecnologia para drive-thru que reconhecia a placa do carro para sugerir itens conforme pedidos anteriores do cliente.

Assim, a concorrência envolve não apenas avanços tecnológicos, mas também acesso a dados e integração com grandes redes varejistas.

A proposta da Twiggy é atuar nos bastidores do comércio eletrônico, como um “motor invisível” de inteligência artificial que determina quais produtos aparecem, quando e para quem, enquanto o consumidor navega normalmente pela vitrine da marca escolhida.

Para ampliar seu faturamento para R$ 30 milhões até 2026, a startup planeja o lançamento do Twiggy Cart Recovery, uma solução voltada para recuperar carrinhos abandonados em sites de moda. Em vez de envios genéricos de e-mails, a ferramenta usa conversas automatizadas para identificar os motivos reais da desistência da compra.

Além disso, a solução tenta detectar causas estruturais, como custos altos de frete em determinadas regiões ou prazos de entrega inadequados, fornecendo insights que poderão ajudar as marcas a negociar logística ou ajustar suas políticas comerciais.

O produto será inicialmente oferecido para a base atual da Twiggy no Brasil e nos EUA, com planos de ampliação para novos clientes. Caso obtenha sucesso, poderá fortalecer a startup como parceira estratégica não só na descoberta de produtos, mas também na retenção e recuperação de receitas.

Foco na expansão internacional com divisão de tarefas

O casal empreendedor projeta criar uma ponte entre Brasil e Nova York nos próximos anos, com Ian Oliveira transferindo-se para os Estados Unidos, enquanto Ariadne Alcântara permanecerá na operação brasileira, buscando equilibrar a vida pessoal, o relacionamento e o crescimento internacional da empresa.

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