Por que as corridas por aplicativo, como Uber e 99, aumentaram 56% em preço?
De acordo com economistas ouvidos, o crescimento expressivo nos valores das corridas foi impulsionado por diversos fatores combinados.
Em 2025, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou um aumento de 56,08% nas tarifas de serviços de transporte por aplicativo, o maior patamar anual já anotado para essa categoria. Em cidades com maior demanda, esse acréscimo chegou a aproximadamente 70%.
Principais causas para a elevação dos preços
Especialistas consultados explicam que vários elementos influenciaram essa alta, entre eles a inclusão da tarifa dinâmica no cálculo do IPCA pelo IBGE, o aumento nos custos operacionais dos motoristas e uma mudança na estratégia das plataformas para garantir maior sustentabilidade financeira após períodos de crescimento subsidiado.
Andréa Ângelo, estrategista-chefe da Warren Investimentos, destaca que a ascensão dos preços já vinha ocorrendo nos últimos anos, com picos em 2021 (33%) e 2024 (10%). Ela ressalta que a tarifa dinâmica, que ajusta valores conforme eventos específicos ou disponibilidade de motoristas, traz maior volatilidade ao índice.
Além disso, ela aponta que aumentos em serviços relacionados, como o táxi, também acabam por influenciar as tarifas dos aplicativos.
Demanda crescente e alteração no modelo tarifário
Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, observa que o mercado de trabalho aquecido e a alta no setor de serviços impulsionaram a procura por corridas, sensibilizando diretamente a política de tarifa dinâmica das plataformas. Em cidades como São Paulo, onde a demanda é mais intensa, variações regionais do ICMS sobre combustíveis contribuem para a formação das tarifas.
Conforme as empresas, os preços sobem em momentos de alta demanda quando a quantidade de carros disponíveis não supre as solicitações de viagens.
Reajuste de custos, recuperação de ganhos e margem das plataformas
Leonardo Leão, CEO da consultoria Brave, reforça que o aumento dos valores decorre de fatores estruturais como o encarecimento dos combustíveis, despesas com manutenção dos veículos, seguros, taxas cobradas pelas plataformas e custo de capital.
Ele explica ainda que os motoristas enfrentaram um período de redução nos rendimentos, o que exigiu reajustes para recuperar a remuneração e manter o serviço ativo.
Por sua vez, as plataformas mudaram sua abordagem, deixando de subsidiar as corridas como antes e buscando equilíbrio financeiro repassando parte dos custos ao consumidor final.
Variações entre cidades: influência da legislação e condições locais
As discrepâncias nos aumentos entre diversas capitais estão relacionadas a fatores regionais específicos, segundo Leão. A escassez de motoristas, o tráfego intenso e o tempo maior de deslocamento influenciam diretamente nos preços.
Além disso, custos do veículo, regulamentações locais e perfil da demanda também impactam a composição das tarifas. O transporte por aplicativo é uma atividade sensível às particularidades econômicas e operacionais de cada cidade, de modo que o índice nacional reflete uma média e não as realidades locais, que podem apresentar altas muito maiores.
Posicionamento das plataformas
Em comunicado, a Amobitec, associação que representa empresas como Uber e 99, declara que os preços das corridas são determinados por fatores como tempo e distância da viagem, demanda regional e estratégias comerciais.
A entidade enfatiza ainda que a metodologia usada pelo IBGE para o cálculo do índice não é clara, destacando a ausência de informações sobre quais empresas e em que proporção são consideradas na pesquisa.
Apesar disso, a associação aponta que o impacto do subitem transporte por aplicativo no IPCA foi de apenas 0,13 ponto percentual em 2025, inferior a outros componentes como energia residencial (0,48 p.p.) e plano de saúde (0,26 p.p.).



