A Netflix tenta revolucionar a televisão ao vivo, mas enfrenta desafios significativos

Após enfrentar diversos contratempos públicos, a Netflix acredita ter finalmente descoberto a tecnologia necessária para realizar transmissões ao vivo de eventos. No entanto, os executivos da empresa reconhecem que esse desafio tem sido mais complexo do que inicialmente previsto.

Consolidada como uma potência no setor de entretenimento, especialmente após iniciativas recentes envolvendo a Warner Bros., a Netflix encara o último domínio onde a televisão tradicional ainda mantém vantagem: a transmissão de esportes e eventos em tempo real.

Tentar reinventar um formato com quase um século de existência para a era digital tem se mostrado uma tarefa difícil até mesmo para uma das companhias mais avançadas tecnologicamente do mercado.

Brandon Riegg, vice-presidente da Netflix responsável por séries de não ficção e esportes, revelou que, ao abraçar essa missão em 2016, não previa toda a complexidade envolvida. Segundo ele, logo ficou evidente o enorme investimento de recursos, conhecimento técnico e capacidade operacional exigidos.

Progresso e otimismo apesar das dificuldades

Desde março de 2023, a Netflix já realizou mais de 200 transmissões ao vivo, incluindo um programa semanal da World Wrestling Entertainment (WWE), cujo contrato foi firmado por US$ 5 bilhões. Embora a maior parte dos eventos tenha ocorrido sem problemas, alguns sofreram contratempos, como a luta de boxe entre Jake Paul e Mike Tyson em novembro de 2024, que enfrentou falhas técnicas durante a transmissão.

Elizabeth Stone, diretora de tecnologia da Netflix, afirmou que ainda há muito aprendizado pela frente. No mercado norte-americano, a Netflix e o YouTube lideram entre os serviços de streaming, capturando cerca de 20% do consumo total de TV, indicam dados da Nielsen. Os co-CEOs Ted Sarandos e Greg Peters têm ambições de conquistar os 80% restantes.

A empresa informa que aperfeiçoou seu sistema para transmissões ao vivo e acredita ter finalmente “decifrado o código”, preparando uma expansão internacional para eventos em 2026, além de introduzir novas funcionalidades, como votações ao vivo em reality shows.

Razões para investir em conteúdo ao vivo

O empenho da Netflix em transmissões ao vivo ganhou força em 2022, quando o crescimento de sua base de assinantes apresentou sinais de estagnação. Em busca de uma reorientação, a empresa passou a coibir o compartilhamento de senhas, lançou um plano com anúncios e ampliou seu catálogo para incluir eventos esportivos e ao vivo.

De acordo com Jawad Hussain, diretor-gerente da S&P Global Ratings, os esportes representam uma oportunidade para a Netflix acessar o mercado publicitário tradicional da TV, avaliado em US$ 70 bilhões. Apesar disso, a companhia mantém que seu foco principal é o crescimento de assinantes por meio do enriquecimento do portfólio.

Eventos transmitidos ao vivo possuem um impacto desproporcional na geração de engajamento e fidelização de assinantes, conforme destacou Sarandos em teleconferência de resultados no segundo trimestre de 2025.

Outros concorrentes relevantes, como Amazon e YouTube, também investem na transmissão de esportes e premiações ao vivo. Contudo, eles compartilham o desafio técnico de fornecer streams em tempo real para milhões de usuários via internet.

Hussain alerta que, apesar da expertise tecnológica da Netflix, transmissões de eventos com audiência massiva, como o Super Bowl, ainda são particularmente complexas para streaming.

Desafios técnicos das transmissões ao vivo pela internet

Ao contrário da televisão tradicional, por satélite ou cabo, que distribui o sinal via multicast — enviando uma única transmissão para todos os receptores dentro de uma rede fechada — a Netflix opera em uma infraestrutura diferente.

Na internet pública, ao iniciar um streaming, o dispositivo do usuário solicita o conteúdo de um equipamento local da Netflix em data centers próximos, que gera uma sessão exclusiva para aquele espectador, denominando esse processo unicast.

Com cerca de 18 mil aparelhos distribuídos em 175 países, a Netflix precisa gerir o encaminhamento do usuário para o hardware mais adequado, o que pode causar sobrecarga caso haja picos simultâneos de alta demanda.

Dessa forma, diferentemente da TV tradicional que utiliza uma rede confiável e controlada, a Netflix entrega sessões individualizadas para cada espectador através da internet aberta, enfrentando concorrência por largura de banda.

Essa arquitetura funciona para vídeos sob demanda, especialmente porque a Netflix armazena conteúdo popular nos servidores locais para facilitar o acesso. Porém, para o conteúdo ao vivo, os picos não podem ser previstos, exigindo capacidade de resposta instantânea e maior flexibilidade.

Segundo Robert Ambrose, CEO da consultoria Caretta Research, todas as plataformas de streaming enfrentam dificuldades para lidar com o volume e imprevisibilidade do tráfego em eventos ao vivo, situação na qual há pouca margem para correções imediatas.

Testes práticos e aprendizados com eventos ao vivo

A Netflix iniciou suas transmissões ao vivo com o especial de comédia “Chris Rock: Selective Outrage”, em março de 2023, que ocorreu sem intercorrências. Mas, após isso, foi possível identificar chances de otimização para picos maiores de audiência.

Em abril de 2023, a tentativa de transmitir ao vivo o episódio de reencontro da 4ª temporada do reality “Love Is Blind” sofreu um atraso devido a um erro no código, tornando inviável a transmissão ao vivo, que só foi disponibilizada on demand no dia seguinte.

Simulando falhas para aumentar a resiliência

A Netflix é reconhecida pelo uso do “Simian Army”, um conjunto de agentes digitais que provocam falhas nos sistemas com o intuito de testar sua robustez. Um desses agentes, o Chaos Monkey, tem função de induzir erros para identificar vulnerabilidades.

No entanto, devido ao alto risco associado a eventos ao vivo, a empresa evitava utilizar esses testes nos momentos de transmissão, dado que a perda de minutos ao vivo causa impacto muito maior do que em vídeos sob demanda.

Para contornar isso, a Netflix criou o “Baby Gorilla Cam”, uma transmissão ao vivo dos gorilas de um zoológico em Cleveland, que serviu como laboratório para testar códigos e estratégias de redirecionamento para streams alternativos em caso de falha no principal.

Elizabeth Stone reconhece, entretanto, que há limitações em simulações de pequena escala frente à pressão e complexidade real de eventos de grande audiência.

O episódio da luta entre Jake Paul e Mike Tyson

A grande luta realizada em 15 de novembro de 2024 reuniu 65 milhões de espectadores simultâneos, ultrapassando as estimativas iniciais da Netflix. Apesar dos problemas na transmissão, Stone destacou que a maioria acompanhou o evento ao vivo, o que foi motivo de orgulho para a equipe.

No entanto, o problema gerou repercussão negativa e preocupações por parte da NFL, que havia dado autorização para a Netflix transmitir dois jogos no Natal daquele ano. Para resolver, a empresa desenvolveu um algoritmo mais flexível para otimizar a escolha dos dispositivos para entrega do stream e aprimorou o desempenho do hardware dedicado.

Brandon Riegg relatou ter comunicado pessoalmente aos executivos da NFL, para tranquilizá-los diante das especulações da imprensa e da internet, assegurando que futuros eventos ocorreriam sem problemas.

Avanços e perspectivas para o futuro

O Natal de 2025 marcou um avanço, com as transmissões dos jogos da NFL ocorrendo sem interrupções graves, apesar de queixas pontuais relacionadas a carregamento e resolução. A Netflix confirmou que os sistemas funcionaram dentro da normalidade.

Especialista Andy Beach, da Alchemy Creations, avalia que a empresa está evoluindo para promover eventos ao vivo grandiosos e repetíveis de forma confiável.

Eventos recentes mostram grande audiência: globalmente, 33 milhões assistiram à luta de Jake Paul contra Anthony Joshua; nos Estados Unidos, os jogos Lions x Vikings, e Cowboys x Commanders atraíram respectivamente 27,5 milhões e 19,9 milhões de espectadores.

Para reforçar suas operações ao vivo, a Netflix mantém um centro dedicado de controle em sua sede na Califórnia, com planos de abrir dois novos centros em 2026, no Reino Unido e na Ásia. A empresa planeja ampliar sua atuação internacionalmente, iniciando transmissões como a escalada de um arranha-céu em Taipé pelo alpinista Alex Honnold.

Riegg enfatiza que, em um cenário de tantas opções de entretenimento disponíveis, é necessário oferecer conteúdos que realmente se destaquem para prender a atenção do público.

Isabelle Bousquette, do CIO Journal do WSJ Leadership Institute. Contato: isabelle.bousquette@wsj.com

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