Rede plus-size Kauê encerra atividades após quase 40 anos
A Kauê Plus Size, marca tradicional especializada em moda para tamanhos grandes, anunciou o fechamento completo de suas lojas físicas e o fim do comércio eletrônico, marcando o encerramento de sua trajetória iniciada nos anos 1980. Com sede em São Paulo, a rede já chegou a contar com 16 unidades, incluindo filiais em outras regiões do estado, mas vem reduzindo suas operações desde o período pós-pandêmico. Atualmente, restam oito lojas físicas e a loja digital, que também será desativada, conforme informado pela sócia-fundadora Márcia Chican.
De acordo com Márcia, a decisão de fechar a empresa foi motivada pelas dificuldades crescentes do mercado, optando por sair de maneira organizada, sem pendências financeiras ou judiciais. A Kauê Plus Size se destacou por oferecer roupas femininas e masculinas do tamanho 50 até o 80, com modelagens projetadas para atender as necessidades específicas desse público.
No auge, a rede tinha presença em diversas cidades da Grande São Paulo e litoral, mas encerrou suas primeiras unidades fora da capital logo após a pandemia, dando início a um ciclo de retração que culmina no fechamento das operações restantes.
Reação dos clientes
O anúncio do fechamento repercutiu entre os consumidores fiéis à marca, muitos dos quais demonstraram tristeza. A sócia-fundadora relata que alguns clientes retornavam à loja com peças adquiridas há mais de dez anos, demonstrando a conexão e lealdade cultivadas ao longo do tempo.
Influência das mudanças no mercado de saúde e moda
O desfecho da Kauê Plus Size acompanha um período de grandes transformações nos setores de saúde e vestuário, especialmente impactados pelo aumento do uso de tratamentos para perda de peso, como cirurgias bariátricas e medicamentos injetáveis à base de GLP-1, entre eles o Ozempic e Mounjaro. Essas “canetas emagrecedoras” vêm ganhando popularidade entre brasileiros com sobrepeso e obesidade.
Márcia Chican destacou que a rede já sentia o impacto dessa mudança há alguns anos, primeiramente pela queda de clientes após a popularização das cirurgias bariátricas, e mais recentemente com o avanço dos medicamentos injetáveis. Ela explica que muitos consumidores passaram a adquirir tamanhos menores com o uso desses tratamentos, migram assim para peças encontradas com maior facilidade no varejo convencional, que oferece mais opções para tamanhos como o 52.
Embora Márcia não considere as “canetas emagrecedoras” o único motivo para o encerramento das operações, reconhece que essa tendência contribuiu significativamente para a retração do mercado segmentado para tamanhos muito grandes.
Panorama do mercado de medicamentos para emagrecimento
O mercado brasileiro desses medicamentos, incluindo Ozempic, Wegovy e Mounjaro, pode ter alcançado um valor estimado entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões em 2025, conforme projeções da XP Investimentos. Em escala global, a consultoria PWC prevê que o setor deve movimentar até US$ 150 bilhões até 2030.
Além disso, o Brasil registrou um crescimento aproximado de 82% nas importações desses remédios em 2025. A espera por genéricos se intensifica com a iminente quebra da patente da semaglutida, cujo lançamento está sendo preparado por empresas como EMS, Cimed, Biomm e Hypera para o ano de 2026, o que poderá baratear os custos para os consumidores.
Mudanças no varejo plus size
Paralelamente à redução na demanda por tamanhos muito grandes, o mercado enfrenta forte competição nas demais categorias, especialmente com a entrada de grandes plataformas globais e marketplaces, como Shein, Shopee e Mercado Livre. Segundo Márcia, a concorrência se torna desafiadora não apenas pela existência dessas empresas, mas pela combinação de preços baixos e falta de transparência quanto a modelagem e qualidade das peças.
Ela ressalta que atualmente muitas marcas anunciam produtos “plus size”, mas poucos realmente oferecem roupas pensadas para tamanhos maiores com qualidade e ajuste adequados. Além disso, destacar vendas de peças em tamanhos grandes por valores muito reduzidos, como R$ 50, dificulta a competição para marcas que investem em modelagem e durabilidade, encarecendo a produção.
Contexto global
Essa pressão é observada também internacionalmente. Nos Estados Unidos, a varejista Destination XL, especializada em moda masculina para homens de porte maior, registrou queda nas vendas e precisou se fundir com a FullBeauty para ganhar escala. A Torrid, que atende o público jovem plus size, planeja fechar até 30% das suas lojas físicas em 2025, refletindo a crescente migração do consumo para o ambiente digital.
A linha plus size da Forever 21, que encerrou as operações no Brasil, desativou recentemente seu perfil de Instagram dedicado e realocou parte da oferta para o digital, enquanto a empresa enfrenta processos de falência no mercado americano.
Este cenário indica que o futuro do varejo plus size deve passar pela redução gradual de lojas físicas especializadas, aumento das compras em plataformas globais e uma disputa acirrada por preços, nem sempre respeitando o ajuste e a qualidade das peças. Para Márcia, os custos altos de produção, especialmente ligados ao desenvolvimento dos moldes, tornam o segmento cada vez mais desafiador financeiramente.



