O colapso de um banco que mergulhou o Irã em uma crise profunda
O Banco Ayandeh, ligado a aliados do regime iraniano, sucumbiu após acumular quase 5 bilhões de dólares em prejuízos decorrentes de empréstimos inadimplentes, intensificando uma crise financeira que já vinha se arrastando há anos.
Ao final do ano passado, o banco faliu e foi incorporado pelo governo a uma instituição estatal, que em seguida imprimiu grandes volumes de moeda para cobrir o rombo financeiro. Essa estratégia apenas adiou a resolução do problema e serviu para evidenciar uma deterioração econômica que acabou provocando os protestos mais expressivos contra o regime nos últimos 50 anos.
O colapso do Ayandeh expôs a fragilidade do sistema bancário iraniano, pressionado por sanções, riscos elevados de crédito e uma dependência crescente da emissão inflacionária de dinheiro. Cinco outros bancos igualmente vulneráveis enfrentam situações semelhantes.
O momento em que essa crise estourou foi agravado por diversos fatores. O governo já sofria consequências após um conflito de 12 dias com Israel e os Estados Unidos em junho, que mostrou sua incapacidade de proteger a população local. Também rejeitou negociar o programa nuclear do país, bloqueando a possibilidade de alívio das sanções internacionais. No fim do ano, ameaças militares dos EUA e Israel, caso o Irã reforçasse seu arsenal de mísseis balísticos ou desenvolvesse armas nucleares, aumentaram ainda mais a tensão.
A moeda nacional, o rial, sofreu uma desvalorização acelerada que as autoridades pouco puderam conter. Restrições americanas cortaram o acesso do Irã a dólares, principalmente provenientes do Iraque, reduziram drasticamente as receitas petrolíferas em moedas fortes e congelaram suas reservas externas, devido ao endurecimento dos embargos.
Após anos buscando alternativas pouco transparentes para manter em funcionamento sua economia, o país se viu encurralado, incapaz de adotar medidas eficazes para conter a crise ou atender uma população cada vez mais insatisfeita. O descontentamento se manifestou até entre comerciantes, que normalmente se abstêm de participar em manifestações amplas, e que foram às ruas de Teerã para pedir socorro.
Adnan Mazarei, ex-vice-diretor do Departamento do Oriente Médio e Ásia Central do Fundo Monetário Internacional, comentou que o banco era um exemplo claro de sistema bancário explorado para beneficiar grupos privilegiados. O colapso representou um agravamento da perda de legitimidade do regime, especialmente depois de ataques israelenses recentes.
Origem e conexões políticas do Banco Ayandeh
O Ayandeh foi criado em 2013 por Ali Ansari, um empresário iraniano influente que uniu dois bancos estatais a uma instituição que ele já controlava para formar a nova entidade. Sua família está entre as mais ricas do país, e ele possui uma luxuosa mansão no norte de Londres.
Politicamente, Ansari é associado ao ex-presidente conservador Mahmoud Ahmadinejad. Em 2025, o Reino Unido sancionou Ansari, classificando-o como “banqueiro e empresário corrupto” que teria suprido recursos para o poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, grupo paramilitar e empresa de elite do Irã.
Na ocasião da falência, Ansari atribuiu o colapso a fatores externos e a decisões políticas que estavam fora do controle administrativo do banco.
Modelo financeiro e causas da falência
O Ayandeh atraía milhões de depositantes oferecendo as maiores taxas de juros do mercado iraniano. Para manter essa prática, recorria a grandes empréstimos do banco central, que financiava suas operações imprimindo dinheiro, uma fonte importante para sustentar a instituição.
Como outros bancos do país, o Ayandeh acumulava elevados volumes de empréstimos inadimplentes, condenando sua saúde financeira. Entre seus investimentos mais notórios estava o Iran Mall, aberto em 2018, um shopping center colosal e extravagante que parecia destoar da situação econômica estagnada do país. Com uma área superior ao dobro do Pentágono, o complexo conta com cinema IMAX, biblioteca, piscinas, áreas esportivas, jardins internos, exposição de automóveis e um salão de espelhos inspirado na arquitetura persa do século XVI.
Autoridades e economistas iranianos apontam que o banco operava um sistema de autoempréstimos, financiando predominantemente projetos vinculados a si mesmo. Relatórios indicam que mais de 90% dos recursos do Ayandeh estavam concentrados em empreendimentos sob seu próprio controle.
Por anos, políticos conservadores e reformistas criticaram o banco, advogando por sua liquidação e alertando que o apoio do banco central podia gerar aumento da inflação, devido à emissão monetária necessária para mantê-lo.
A pressão aumentou no final de 2025, quando o chefe do judiciário iraniano exigiu oficialmente que o banco central agisse, ameaçando medidas jurídicas caso não houvesse intervenção. O banco central anunciou então o encerramento do banco e sua fusão forçada com o Bank Melli, maior banco estatal do país.
Além do Ayandeh, pelo menos outros cinco bancos enfrentam situação semelhante, incluindo o Bank Sepah, estatal e anteriormente responsável por absorver instituições em dificuldades.
Símbolo da corrupção e da fragilidade econômica
O diretor responsável pela supervisão bancária no banco central qualificou o Ayandeh como um “esquema Ponzi”. Para grande parte dos cidadãos iranianos, ele representava o exemplo mais claro de um sistema financeiro em que poucos privilegiados desviavam recursos enquanto a população sofria.
Esfandyar Batmanghelidj, diretor executivo da Fundação Bourse & Bazaar, destacou que casos como o Ayandeh alimentam a percepção popular de que o sistema é manipulado em benefício de uma elite restrita.
A crise vivido pelo banco reflete um problema mais amplo que se intensificou após a reimposição das sanções americanas em 2018. Com fluxo escasso de recursos, as instituições financeiras do Irã passaram a depender de empréstimos emergenciais do banco central, que cobrava altos juros e não exigia garantias. O capital era então aplicado de forma arriscada, frequentemente destinado a elites para especulação e expansões imobiliárias.
Esse modelo criou um ciclo vicioso de emissão monetária inflacionária que enfraqueceu a moeda nacional e destabilizou o sistema financeiro, conforme avisos de especialistas e autoridades.
O Irã enfrenta este cenário durante uma sucessão de desafios: sanções severas, perda de apoio de aliados regionais como Hezbollah e o regime Assad sírio, além de tensões diretas com Israel e Estados Unidos.
Em 2019, o governo iraniano já controlava cerca de 70% do sistema bancário, o que reforça a centralização da estrutura em mãos estatais em momento de fragilidade.
O colapso do Ayandeh serviu como um alerta sobre a vulnerabilidade do setor bancário, indicando que qualquer nova crise fatal seria arcada pelo tesouro público.
Impactos recentes e agravantes da crise
A crise econômica do Irã, responsável por gerar essa sequência de instabilidades financeiras, anos em formação, se intensificou de forma acelerada nos últimos meses. Em 2025, a moeda nacional desvalorizou-se 84% frente ao dólar, enquanto os preços dos alimentos aumentaram 72% ao ano, quase o dobro da média recente.
O país ainda enfrenta severas dificuldades em energia e água, a ponto do presidente Masoud Pezeshkian sugerir a mudança da capital de Teerã para uma cidade costeira no Oceano Índico, em busca de melhores condições.
Esses fatores econômicos e sociais compõem um quadro de profunda instabilidade no Irã, derivado de problemas internos e pressões externas decorrentes do tumulto financeiro simbolizado pelo colapso do Banco Ayandeh.
Tradução do inglês por InvestNews



