Disputa entre ex-presidente e atual líder divide Malawi por cães de guarda

No Malawi, uma controvérsia envolvendo cães de segurança colocou em impasse o ex-presidente Lazarus Chakwera e seu sucessor, Peter Mutharika. Após perder as eleições no ano anterior, Chakwera determinou que os quatro cães que serviam de guarda no palácio presidencial de Lilongwe fossem transportados para sua residência particular, localizada a cerca de 10 quilômetros do palácio. Os cães de outro palácio, situado em Blantyre, permaneceram no local.

O presidente Mutharika, por sua vez, argumenta que esses animais são propriedade do Estado, considerados parte da equipe de segurança que acompanha o cargo presidencial. Pouco depois de assumir, enviou 80 policiais à casa de Chakwera para tentar recuperar os cães, mas o ex-presidente recusou a entrada, gerando uma disputa política e judicial.

Apoiadores de Chakwera, inclusive membros do Parlamento, correram para impedir a remoção dos cães e os advogados do ex-presidente acionaram o Judiciário. Mutharika, de 85 anos, advogado formado em Yale e professor universitário, adiou sua mudança ao palácio presidencial alegando que sua equipe de segurança ainda não estava completa.

Essa briga pelo controle dos cães exacerbou as tensões políticas entre os dois principais partidos do país e seus eleitores. Durante a campanha eleitoral, Chakwera focou na promessa de combate à corrupção, enquanto Mutharika se comprometeu a estimular o crescimento econômico. Analistas avaliam que Chakwera perdeu pois não conseguiu resolver os problemas econômicos nem controlar a inflação, além de não enfrentar adequadamente a corrupção durante seu mandato de cinco anos.

Apesar da derrota, os seguidores de Chakwera demonstraram desânimo e preocupação com a possibilidade do ex-presidente perder a posse dos cães de guarda. O pastor James Sekeya, um de seus apoiadores, divulgou vídeos em defesa dos cães e de Chakwera, alcançando milhares de visualizações em um país onde somente 8% da população usa redes sociais.

Os cães, avaliados em cerca de US$ 2.300, foram retirados do palácio entre 19 de setembro e 4 de outubro e passaram a vigiar a residência do ex-presidente durante o dia, ficando responsáveis pela proteção noturna da propriedade para impedir a entrada de visitantes indesejados, segundo vizinhos. Os apoiadores do ex-presidente ressaltam que a segurança estatal é um direito dele e que os cães oferecem proteção até contra riscos culturais, como a feitiçaria, ainda muito temida em Malawi.

Já os defensores de Mutharika acusam Chakwera de ter retirado os cães para fragilizar a segurança do novo governante. Em rádio local, um comentarista afirmou que a retirada dos animais colocou em risco a vida do presidente, que só mudou-se para o palácio em dezembro, dois meses após assumir o cargo.

Após tentativas frustradas de recuperar os cães em novembro, um tribunal local baniu temporariamente ações policiais para apreender os animais. A decisão considerou uma falha processual: havia divergências sobre a raça dos cães, pois a força policial solicitou quatro pastores alemães, quando na verdade se tratava de um pastor holandês e três malinois belgas.

Em resposta, a polícia obteve uma nova ordem judicial corretiva especificando as raças, mas depois o mandado foi suspenso para aguardar uma audiência completa sobre o caso. Até o momento, não há uma decisão definitiva.

Essa confusão também interferiu em uma acusação contra Godfrey Jalale, ex-oficial militar e ex-vice-chefe de gabinete de Chakwera, preso sob suspeita de roubo dos cães. Segundo a polícia, Jalale teria utilizado um veículo oficial, equipado para transporte de cães, para levar os animais para o ex-presidente. Ele nega as acusações e seu advogado não comentou o caso.

Nos últimos dias, policiais armados e com equipamentos de visão noturna têm circulado pela área onde Chakwera mora, tentando obter provas para recuperar os cães, mas as tentativas não tiveram sucesso. Um novo mandado judicial exige que os policiais visualizem os animais antes de realizar buscas e apreensões, mas até agora os cães permanecem fora de alcance e bem protegidos.

Essa disputa singular simboliza as divisões políticas e sociais ainda presentes no Malawi, envolvendo até mesmo a propriedade e controle de cães de guarda que, mais que meros animais, representam poder e segurança para os envolvidos.

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