Do apogeu da crise energética ao setor petrolífero: Ebrasil assume controle estratégico na Brava Energia

Fundado em 2001 pelo empresário pernambucano José Cantarelli durante a crise do apagão no Brasil, o grupo Ebrasil, especializado em geração de energia, afirma-se como o acionista estratégico mais relevante da Brava Energia, atualmente a segunda maior petroleira independente do país, atrás apenas da Prio.

Recentemente, a substituição do CEO da Brava Energia e a aquisição bilionária dos ativos da Petronas na Bacia de Campos, anunciada em 16 de janeiro, evidenciam que o grupo de Cantarelli está impondo sua direção estratégica dentro da petroleira.

A Ebrasil, detentora de usinas termelétricas no Nordeste brasileiro, possui atualmente 6,9% das ações da Brava e é o único acionista com atividade direta no setor de energia. Isso difere dos demais investidores, que são sobretudo financeiros ou focados em infraestrutura, como a gestora JiveMauá, a família Queiroz Galvão e o Bradesco, que é o maior acionista individual com 12%.

A nomeação de Richard Kovacs, executivo próximo à Ebrasil, para o cargo de CEO da Brava substituindo Décio Oddone, ex-diretor da ANP, simboliza o avanço do grupo na gestão da companhia. Este movimento segue uma série de ações que remontam à reformulação da governança da empresa nos últimos meses, incluindo a remoção da cláusula de proteção conhecida como poison pill e a formação de um bloco acionário estratégico.

Com as mudanças anunciadas em 12 de janeiro e que entram em vigor em fevereiro, Kovacs abrirá mão da presidência do conselho de administração, deixando essa função para Alexandre Cruz, CEO da JiveMauá, que passará a atuar como chairman da Brava.

Oportunidade de entrada e consolidação

O relacionamento da Ebrasil com a Brava iniciou-se em 2024, por meio do fundo Yellowstone, criado pelo grupo para investir em companhias listadas. Esse fundo, capitalizado após a venda da participação do grupo na Celse, complexa termelétrica vendida à Eneva por R$ 6,7 bilhões em 2022, buscava diversificar seus ativos no mercado de capitais.

Inicialmente, a estratégia do fundo parecia típica de um investidor focado em identificar empresas subvalorizadas com potencial de crescimento, adquirindo posições em empresas como Cosan, Eneva, Sabesp e Sanepar. Entretanto, a Brava rapidamente se tornou o investimento principal da carteira.

Formada a partir da fusão da Enauta com 3R Petroleum em agosto de 2024, a Brava atua com uma estrutura societária pulverizada, o que facilitou a entrada de um acionista estratégico como a Ebrasil.

A iniciativa de investir chegou por meio de Kovacs, presente na Ebrasil desde 2016 e considerado um executivo de confiança de Cantarelli. No primeiro mês do fundo, em novembro de 2024, foram investidos R$ 37 milhões na compra de 1,86 milhão de ações da Brava, que correspondiam a 0,20% do capital social.

Em 2025, o aporte cresceu substancialmente: R$ 352 milhões em maio e R$ 481,5 milhões em setembro, totalizando quase 27 milhões de ações, o que hoje confere 6,9% do capital e posiciona o Yellowstone como o terceiro maior acionista individual, junto à Jive.

Atualmente, dados da CVM indicam que 70% dos recursos do fundo Yellowstone estão investidos na petroleira.

Modificações na governança

Com o incremento da participação acionária, a Ebrasil adotou uma postura mais ativa na governança da Brava. Em maio de 2025, o fundo Yellowstone formalizou um pedido para convocação de assembleia visando eliminar a cláusula de _poison pill_ que impunha a obrigatoriedade de uma oferta pública de aquisição (OPA) caso o acionista ultrapassasse 25% das ações, com prêmio de 25% acima do valor de mercado.

Na ocasião, o fundo possuía pouco mais de 5% da Brava. Em julho, a assembleia aprovou essa mudança, abrindo caminho para a Ebrasil ampliar sua presença.

A partir daí, iniciou-se uma reestruturação clara da governança, com a criação de um acordo entre acionistas que envolveu o fundo da Ebrasil, a Jive e a família Queiroz Galvão, permitindo a esses grupos exercer influência decisiva sobre as estratégias da petroleira. Nesse processo, Kovacs assumiu a presidência do conselho e, recentemente, a posição de CEO.

Nova direção estratégica

Na nova gestão, a Brava está orientando seus esforços para uma alocação de capital mais objetiva. Internamente, a empresa avalia se desfazer de ativos que não sejam prioritários, como a operação de gás natural, ao mesmo tempo que examina oportunidades de aquisições que tragam retorno financeiro mais imediato.

Nesse contexto, a compra anunciada em 10 de janeiro de uma participação de 50% nos campos de Tartaruga Verde e no Módulo III do campo de Espadarte, ambos na Bacia de Campos, destaca-se. O negócio aguarda aprovação do CADE e da ANP, e representa parte do portfólio da Petronas, parceira da Petrobras nesses ativos.

Segundo a Bloomberg, outras empresas como Prio e BW Energy demonstraram interesse antes da conclusão da transação. A Petrobras detém os outros 50% dos campos e pode exercer seu direito de preferência para cobrir a oferta da Brava.

Os campos contêm 14 poços ativos, sendo 11 em Tartaruga Verde e 3 em Espadarte. Em 2025, a produção combinada alcançou uma média de 55,6 mil barris de óleo equivalente por dia (boed), consistindo predominantemente em petróleo, com uma parcela menor de gás natural que é escoada para Macaé através do gasoduto de Enchova.

Atualmente, a Brava produz cerca de 92 mil boed, ficando atrás apenas da Prio, que registra 155 mil boed, e à frente da PetroReconcavo, com 27 mil boed. A aquisição acrescentará volumes comparáveis à produção da PetroReconcavo, elevando a produção da Brava para quase 120 mil boed.

Além do aumento em volume, a compra traz melhorias qualitativas, já que o petróleo produzido nesses campos tem grau API médio, mais valorizado internacionalmente, ao contrário do óleo pesado que domina a produção atual da Brava e que apresenta menor valor na praça global.

Redução da alavancagem financeira

Apesar do investimento de US$ 450 milhões na aquisição da participação da Petronas, a Brava acredita que o negócio fortalecerá seu fluxo de caixa e facilitará a redução de sua alavancagem.

Fontes associadas à petroleira indicam que a intenção é justamente que o ativo adquirido, que já está gerando receita, contribua para a desalavancagem no momento do fechamento da operação.

Em 2025, o objetivo central da companhia é diminuir o endividamento. No terceiro trimestre do ano, a Brava reportou dívida líquida de US$ 1,7 bilhão (aproximadamente R$ 7,4 bilhões), com uma alavancagem de 2,3 vezes em relação ao EBITDA. A meta é reduzir essa relação para cerca de 1,5 vez ainda neste ano.

Para isso, a empresa realizou em outubro uma reorganização interna que simplificou a estrutura executiva e eliminou cargos redundantes, especialmente em níveis gerenciais, como parte das ações de integração entre 3R Petroleum e Enauta.

Perspectiva estratégica diferenciada

Fontes próximas à Brava afirmam que a influência da Ebrasil vai além da governança, impactando também a visão de negócios.

Fundado em um período de crise energética nacional, o grupo de José Cantarelli tem atuação consolidada em setores que demandam elevada capitalização e sofrem forte regulação, detendo três usinas termelétricas no Nordeste: Epasa (Paraíba) com 342 MW, Epesa (Pernambuco) com 356 MW, além de participação minoritária na TermoCabo (Pernambuco) com 48 MW.

A atuação da Ebrasil inclui ainda investimentos em rodovias e saneamento, além de participação indireta na Ocyan, empresa responsável pela operação do navio-sonda Papa-Terra, um dos principais ativos da Brava no mercado offshore.

Embora a Ebrasil negue a intenção de integrar operacionalmente suas usinas termelétricas com a Brava, como por meio de contratos de fornecimento de gás, especialistas do setor destacam que a presença de um acionista com esse perfil já altera significativamente o horizonte estratégico da petroleira.

Procuradas, as duas empresas não forneceram comentários.

Fonte

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