Petrobras enfrenta pressão com queda do preço do petróleo e tensões globais que ameaçam dividendos
Os atritos geopolíticos envolvendo grandes países produtores de petróleo geralmente impulsionam a alta dos preços do barril, o que costuma valorizar as ações de companhias petrolíferas, como a Petrobras (PETR3; PETR4). Contudo, apesar das tensões com Venezuela e Irã, a recente elevação dos estoques globais tem exercido uma força contrária, fazendo os preços do petróleo caírem.
Este cenário pode trazer desafios para os investidores da estatal brasileira, que nos últimos anos desfrutaram de bons dividendos. A oferta mundial, influenciada pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), tem se alinhado com o consumo, apesar do desequilíbrio ocorrido durante a pandemia, que levou o barril a ultrapassar US$ 120 em 2022, fomentando a distribuição de lucros da Petrobras.
As projeções da Administração de Informação de Energia (EIA) dos EUA indicam que, em quatro anos, o preço do petróleo poderá sofrer uma queda superior a 50%. Após cair para uma média de US$ 69 por barril no ano anterior, a previsão é que atinja US$ 56 em 2026 e US$ 54 em 2027.
Esta perspectiva levanta dúvidas sobre a manutenção da posição da Petrobras como ação preferida entre investidores pessoa física, título conquistado em 2025. A empresa poderá enfrentar pressão na geração de caixa, conforme destaca Ruy Hungria, da Empiricus, que alerta que, se o barril recuar para valores abaixo de US$ 50, os dividendos poderão ser interrompidos. Ele ressalta, porém, que a Petrobras tem uma boa posição no setor e que outras empresas podem ser ainda mais impactadas neste ambiente. A confirmação desta tendência dependerá da diminuição das tensões internacionais e de fatores que possam aumentar a oferta mundial.
Analistas já começam a reavaliar as perspectivas para as ações da estatal. A UBS BB reduziu o preço-alvo de R$ 42 para R$ 40, mantendo recomendação de compra. Com as ações atualmente cotadas em torno de R$ 32, isso aponta para um potencial de valorização de aproximadamente 25%. O banco destaca a solidez da produção e a expectativa de que o preço do barril não deve cair drasticamente, projetando um retorno em dividendos entre 10% e 11% para 2026, posicionando a Petrobras entre as petroleiras com maior retorno ao investidor globalmente. Contudo, as principais incertezas ficam na variação do preço do petróleo no primeiro semestre e nas eleições no segundo.
Volatilidade permanece como fator importante
As incertezas geopolíticas que têm provocado oscilações no preço do petróleo recentemente são um dos principais elementos que podem contrariar a tendência de queda dos preços a longo prazo.
Embora o Irã não possua reservas tão volumosas quanto a Venezuela, é a terceira maior potência petrolífera mundial e está localizado estrategicamente próximo de grandes consumidores como China e Índia, conforme explica João Victor Marques, pesquisador da FGV Energia. O país produz cerca de 3 bilhões de barris por dia, mesmo sob sanções.
A possibilidade de um conflito militar entre Irã e Estados Unidos representa risco significativo, podendo impactar fortemente os preços. Os maiores perigos envolvem a destruição de infraestrutura essencial ao abastecimento global, interrupção do trânsito de petróleo por países árabes dependentes do Estreito de Hormuz e o envolvimento de potências como China e Índia, que dependem do petróleo iraniano.
Devido a isso, o preço do barril subiu para US$ 66 na última semana, a maior cotação desde novembro, refletindo temores de conflito no Oriente Médio. Entretanto, a expectativa é de que, se não houver nova escalada, os preços voltem a cair, uma vez que o impacto inicial tende a ser psicológico e se ajusta conforme as condições reais de oferta e demanda.
No caso da Venezuela, a intervenção americana pode ter efeito predominantemente para baixo nos preços. Embora haja previsão de possível redução temporária na produção até definir quem assumirá o comando da indústria petrolífera venezuelana, se confirmada a entrada de empresas americanas, como alegado por Donald Trump, a eficiência produtiva poderá ser restaurada, elevando a oferta global e pressionando os preços para baixo.
Carlos Pascual, da S&P Global, afirma que aumentar a produção da Venezuela de 900 mil para cerca de 1,5 milhão de barris por dia seria viável em cerca de 18 meses, usando a infraestrutura existente. No entanto, ultrapassar esse volume exigiria investimentos significativos e dependeria de diversos fatores políticos e econômicos.
O JP Morgan Global Research projeta que a produção poderá alcançar entre 1,3 e 1,4 milhão de barris diários dentro de dois anos após uma mudança política, especialmente com o retorno das principais petrolíferas ao país. Com investimentos e reformas, a produção poderia crescer para 2,5 milhões de barris por dia ao longo da próxima década, o que representa uma das maiores ameaças de aumento na oferta global de petróleo para os próximos anos.
Para a Petrobras, essa situação representa um duplo desafio: a pressão para queda dos preços do petróleo e o fortalecimento de concorrentes americanos, como Chevron, que podem ganhar maior preferência dos investidores internacionais.
Com Donald Trump como figura central neste cenário, a volatilidade deve continuar e não faltarão emoções nos próximos capítulos.


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