O Fim Da Monocultura Pop E Sua Influência Na Identidade Americana

O Fim Da Monocultura Pop E Sua Influência Na Identidade Americana

O que o fim da ‘monocultura pop’ representa para a identidade dos Estados Unidos

Ao longo do século 20, a cultura pop funcionou como um elemento fundamental para a coesão dos Estados Unidos. Mas, diante da fragmentação atual, qual é o impacto disso para a identidade do país?

A cultura pop americana, representada por filmes, músicas e programas de TV, é um fenômeno poderoso, que não só movimenta trilhões de dólares, mas também molda a percepção global dos Estados Unidos. Durante grande parte do século passado, essa cultura compartilhada foi essencial para unir uma nação diversificada e extensa, composta majoritariamente por imigrantes com realidades muito distintas.

Antes da popularização dos meios de comunicação de massa, as experiências dos americanos variavam demais para que houvesse um senso comum cultural significativo. Entretanto, com a chegada do cinema, rádio, TV e discos, tornou-se possível que pessoas em diferentes cantos do país compartilhassem os mesmos conteúdos. Assim, apesar das rotinas diárias distintas, à noite e nos fins de semana a população se conectava por meio desse universo cultural produzido majoritariamente para eles mesmos.

Nasceu, então, a monocultura — um termo que simboliza a predominância de um entretenimento americano unificador durante o século 20. Para se ter uma ideia, o filme “E o Vento Levou”, lançado em 1939, vendeu cerca de 200 milhões de ingressos em um país de 130 milhões de habitantes. Programas de rádio como “Amos ’n’ Andy” eram tão populares que a programação dos cinemas era adaptada para que os espectadores não perdessem os episódios. Em 1983, o final da série “MASH” foi acompanhado por mais de 100 milhões de pessoas.

Essa cultura comum possibilitava que qualquer americano, seja ele um vizinho, colega ou desconhecido, tivesse referências culturais compartilhadas para discutir. Assim, mesmo diante das tensões políticas, raciais e regionais, a cultura pop agia como um elemento integrador.

Contudo, essa monocultura está se dissolvendo rapidamente. Atualmente, exceto por grandes eventos esportivos, o público se fragmenta em torno de conteúdos diversificados e personalizados por algoritmos, que dividem os consumidores em grupos muito específicos. O que é viral no YouTube ou TikTok geralmente não alcança mais do que 5% da população, e as séries de streaming mais populares têm audiências tão restritas que praticamente não existiriam na televisão dos anos 1990.

O cinema, que durante décadas foi o principal vetor cultural unificador, também perdeu força. Em 2025, apenas três filmes americanos ultrapassaram US$ 1 bilhão em bilheteria, contra nove em 2019. Isso se deve em grande parte à preferência das pessoas em consumir conteúdo em casa, pois as opções são praticamente infinitas.

Donna Langley, presidente da NBCUniversal Entertainment, explica que, antigamente, eram produzidos filmes que agradavam a um grande público, que eram uma forma divertida de passar o tempo. Atualmente, oferecer essa experiência ampla tornou-se um desafio para os estúdios, já que as pessoas exigem cada vez mais valor em seus investimentos de entretenimento.

As consequências para a indústria do entretenimento, que já enfrenta grandes transformações, são evidentes. Porém, os efeitos culturais são ainda mais profundos: ao invés de unir, a cultura pop passa a ser mais um fator de divisão social.

Enquanto adultos da geração anterior compartilham referências de filmes e músicas como “Jurassic Park” ou “Smells Like Teen Spirit”, os jovens de hoje têm gostos muito diversos, mesmo quando estão juntos. Assim, crescer nos anos 2020 provavelmente terá uma experiência cultural bastante diferente da dos anos anteriores.

O cinema e a evolução da monocultura americana

A ascensão da monocultura cultural norte-americana é resultado da combinação entre fatores geopolíticos, econômicos e tecnológicos. Até o início do século 20, os Estados Unidos ainda eram uma nação com baixa renda média, território vasto e disperso, sem instrumentos tecnológicos eficientes para difundir um conteúdo cultural massivo.

Meios de comunicação impressos existiam, mas tinham alcance limitado e regional, pois dependiam de produção e distribuição físicas. Para assistir a uma apresentação ao vivo, era necessário estar presente no local do evento.

O cinema revolucionou esse cenário. Uma única história filmada poderia ser reproduzida inúmeras vezes, atingindo multidões em todo o país. Embora a Europa tenha sido pioneira em cinema, foram os EUA que desenvolveram o modelo comercial de Hollywood, que hoje domina o setor.

As duas guerras mundiais prejudicaram profundamente a indústria cinematográfica europeia, enquanto a americana prosperava com o crescimento da população e aumento da riqueza.

Enquanto países europeus investiam em cotas e subsídios para proteger sua produção cultural, nos EUA o maior foco estava em atender a uma população crescente, ávida por entretenimento. Nesse contexto, o capitalismo puro moldou a cultura popular.

Até meados do século 20, grandes estúdios controlavam não só a produção, mas também a exibição dos filmes, possuindo cinemas próprios. As poucas empresas dominantes apostavam em produções grandiosas que agradassem o maior público possível, apostando em espetáculos visuais e histórias de fácil entendimento, que não exigiam conhecimento prévio de contextos culturais complexos.

No rádio, enquanto na Europa prevaleciam emissoras estatais, nos EUA emissoras comerciais se dedicavam ao entretenimento, música e notícias com o objetivo de alcançar o maior número possível de ouvintes para anunciantes.

Esse modelo foi levado adiante na televisão, com redes nacionais dominando a programação local. De 1940 a 1990, três grandes redes de TV, sete estúdios de cinema e algumas gravadoras definiram o que a maioria dos americanos consumia em termos culturais, impondo um conteúdo homogêneo e massificado.

Essa concentração, apesar de criar momentos culturais compartilhados, também apresentava falhas evidentes: um grupo restrito, predominantemente homens brancos, decidia o que se tornaria cultura pop, dificultando a inclusão de vozes e conteúdos de minorias étnicas e culturais.

O período entre os anos 1980 e 2000 foi o apogeu da monocultura, caracterizado pela ascensão dos “blockbusters” de Hollywood, que alcançavam bilheterias recordes com produções em larga escala lançadas simultaneamente em inúmeras salas. Os públicos se reuniam para acompanhar fenômenos em séries e filmes, criando referências coletivas.

A internet e o fim do controle tradicional da cultura

Com o surgimento de plataformas digitais como Napster e YouTube, e posteriormente com as redes sociais, a indústria de entretenimento enfrentou uma nova realidade: a perda do monopólio sobre a distribuição de conteúdo. Se antes o público consumia essencialmente o que era oferecido pelas grandes gravadoras e estúdios, hoje qualquer pessoa pode produzir e compartilhar suas criações diretamente ao público.

A monocultura dependia da limitação de opções e da centralização da oferta. Agora, com acesso a múltiplas plataformas e tecnologias que democratizam o processo criativo – desde câmeras de celular até ferramentas de inteligência artificial -, o conteúdo se multiplica e se fragmenta.

Ainda existem grandes sucessos como Taylor Swift na música ou “Stranger Things” no streaming, que conseguem reunir audiências massivas, embora menores do que as de décadas anteriores. No entanto, o surgimento de nichos específicos transformou o consumo cultural, com conteúdos alternativos, como animes, ganhando espaço e desenvolvendo fãs muito dedicados.

Construir uma audiência ampla se tornou muito mais complexo. A velha lógica de garantir o melhor horário ou espaço nas prateleiras não funciona mais em um ambiente onde o público busca narrativas e experiências personalizadas, que soem autênticas e conectem-se verdadeiramente.

Essa diversificação e individualização da cultura pop, embora democratize o acesso e representatividade, também diminui as ocasiões de conexão coletiva. Hoje, durante conversas, é comum que os interlocutores tenham referências culturais completamente diferentes, o que reduz a sensação de pertencimento a um grupo cultural comum.

Assim, o fim da monocultura significa, em suma, que as experiências culturais deixam de ser um elo unificador da sociedade americana, refletindo uma tendência maior do século 21 em que os indivíduos se fecham em bolhas distintas, reforçadas por suas preferências e consumo digital.

Ben Fritz, repórter do The Wall Street Journal especializado na indústria do entretenimento, ressalta que o término desse modelo cultural exige que se encontre um novo equilíbrio entre diversidade e construção de identidades coletivas.

Fonte

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