A nova fronteira da disputa entre JBS e MBRF: o consumidor muçulmano
A rivalidade histórica entre as famílias Batista e Molina no setor frigorífico encontrou um terreno promissor no mercado halal do Oriente Médio. JBS e MBRF, proprietária da Sadia, intensificam seus esforços para conquistar essa fatia estratégica da indústria global de carnes.
Embora ambas as empresas já exportem para a região há décadas, o que mudou é a relevância econômica do Oriente Médio no cenário mundial de proteínas. Com o crescimento acelerado da população muçulmana — que avança a um ritmo duas vezes maior que a média global —, a procura por alimentos halal, produzidos em conformidade com os preceitos islâmicos, está projetada para aumentar substancialmente.
O mercado halal movimenta atualmente mais de US$ 2 trilhões ao ano, tendo a proteína animal como principal segmento. Segundo estimativas da Nielsen, o consumo de carnes halal deve superar US$ 1,5 trilhão até 2027. Atualmente, mais de 1,9 bilhão de pessoas seguem as normas alimentares do Islã.
Dois movimentos recentes ilustram o papel crescente da região nas estratégias brasileiras: enquanto a MBRF planeja a abertura de capital da Sadia Halal em 2027, sua unidade focada no mercado regional, a JBS investe aproximadamente R$ 500 milhões em novas fábricas e na expansão da marca Seara na Arábia Saudita e países vizinhos, com previsão de dobrar sua produção de frango no país até o fim do ano.
De acordo com um relatório do Bank of America, o mercado que inclui Oriente Médio e Norte da África (MENA) importa cerca de 127 mil toneladas mensais de carne de frango, volume similar ao de toda a Ásia, excluindo o próprio Oriente Médio. Esse cenário explica o interesse crescente dos principais produtores globais em proteína pela região.
A disputa concentra-se essencialmente no frango e alimentos processados, segmento dominante no consumo diário e comércio halal, embora a carne bovina também faça parte da dieta local.
A importância da Arábia Saudita
Dentro desse contexto, a Arábia Saudita emerge como o mercado mais importante para as duas empresas, impulsionada por fatores demográficos, elevado consumo per capita e uma política governamental focada na segurança alimentar.
Em um evento recente, o vice-ministro da Agricultura saudita, Suleiman Al-Khatib, destacou que o consumo de frango no país está entre os mais elevados do mundo, variando entre 45 e 50 quilos por habitante anualmente, e que o investimento estrangeiro é “fundamental para assegurar o abastecimento futuro e fortalecer a segurança alimentar nacional”.
Documentos oficiais locais reforçam essa estratégia, classificando o setor alimentício como prioridade nacional e projetando a atração de US$ 20 bilhões em investimentos até 2035, com o mercado interno já superando US$ 50 bilhões por ano.
Apesar disso, JBS e MBRF seguem caminhos diferentes para ampliar seus negócios no país: a JBS, que atuava principalmente no segmento B2B, aposta em ampliar a marca Seara e seu relacionamento direto com o consumidor local; já a MBRF investe na tradição e vínculo de mais de 50 anos da Sadia com o público árabe.
A estratégia da JBS no mercado árabe
Desde 2021, a JBS, liderada por Joesley e Wesley Batista, adotou uma postura mais agressiva para o mercado do Oriente Médio, anunciando um investimento de US$ 85 milhões (R$ 440 milhões) na região. A compra de uma fábrica em Dammam deu início a essa fase e, três anos depois, a empresa anunciou a construção de uma planta em Jeddah, marcando seu primeiro projeto greenfield no Oriente Médio.
Anteriormente focada no fornecimento para o food service, como restaurantes e distribuidores, a JBS passou a direcionar seus esforços ao consumidor final, ampliando a divulgação da marca Seara, ajustando o portfólio para o paladar local, e investindo em marketing e patrocínios culturais – inclusive na versão árabe do programa The Voice.
Inaugurada em 2025, a fábrica de Jeddah já opera perto da sua capacidade total e possui projeto para expansão que dobra seu tamanho, com o objetivo de abastecer não apenas a Arábia Saudita, mas países vizinhos do Golfo, como Emirados Árabes, Omã e Kuwait.
No final de janeiro de 2026, a JBS confirmou que irá ampliar sua produção em Jeddah em função da forte demanda, e fontes ligadas à companhia indicam que novos aportes no Oriente Médio estão sendo considerados a médio prazo.
Os resultados atuais ainda refletem a fase inicial da JBS na região: entre janeiro e setembro de 2025, a receita obtida nos chamados mercados “menores” — que incluem Oriente Médio e África — foi de US$ 361 milhões, cerca de 0,6% dos US$ 63,1 bilhões faturados globalmente no período, demonstrando que a empresa ainda constrói sua presença nesse mercado estratégico.
A força da tradição da Sadia
Por sua vez, a MBRF possui uma trajetória consolidada no Oriente Médio, com a Sadia inserida na rotina dos consumidores desde a década de 1970. A marca está tão enraizada que muitos consumidores locais chegaram a confundi-la com empresa saudita, devido à semelhança do nome com “Saud”, da família real.
Essa história explica o crescimento robusto da operação halal da MBRF, que se tornou sua principal aposta internacional. Em 2025, a companhia organizou a Sadia Halal — uma empresa formada pela unificação das fábricas e centros de distribuição da MBRF na Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait, Omã e Qatar, avaliada em cerca de US$ 2 bilhões, com intenção de abrir capital na bolsa de Riade em 2027.
A Sadia Halal será uma joint venture entre a MBRF e a Halal Products Development Company (HPDC), ligada ao fundo soberano saudita Public Investment Fund (PIF), que poderá aumentar sua participação para até 40%. A liderança do negócio está nas mãos de Marquinhos Molina, filho de Marcos Molina, que é chairman da Sadia Halal e CEO da MBRF Arabia.
A participação do PIF torna a operação um ativo estratégico para o governo saudita, que busca diminuir a dependência de importações e fortalecer a produção local, no contexto do programa Visão 2030 para diversificação econômica além do petróleo.
Conforme Fahad AlNuhait, CEO da HPDC, o avanço é completamente alinhado aos objetivos de diversificação da Visão 2030, acelerando a transformação da região em um polo global de produtos halal.
Enquanto isso, o Oriente Médio é uma fonte relevante para a MBRF: as operações que originarão a Sadia Halal geraram receita líquida de US$ 2,1 bilhões nos últimos 12 meses, equivalente a 7,3% da receita consolidada da MBRF até o terceiro trimestre de 2025.



