Impactos de uma diminuição mais ampla da dependência do dólar americano
O dólar dos Estados Unidos, bem como os ativos financeiros denominados nessa moeda, consolidaram-se como os principais destinos para grande parte dos patrimônios acumulados ao redor do mundo durante as últimas décadas. Investimentos provenientes de economias privadas, fundos empresariais, organismos multilaterais e governos foram direcionados de forma consistente para títulos do Tesouro norte-americano, instituições financeiras, ações de companhias americanas e até imóveis situados nos EUA.
Essa concentração tem fundamento na importância da economia norte-americana, que mesmo com o avanço de outras nações, como a China e países emergentes, ainda representa aproximadamente 27% do PIB global. Além dos indicadores econômicos, a solidez institucional dos EUA, com suas regras estáveis e sistemas de freios e contrapesos democráticos, esteve na base da percepção mundial da moeda americana como um “porto seguro” para investimentos.
Outro fator decisivo tem sido o sistema educacional americano, principalmente o universitário e de pós-graduação, que fomenta pesquisas avançadas e inovação empresarial. Esse ambiente incentiva o risco calculado, aceitando experimentações empresariais mesmo que não sejam bem-sucedidas, o que atrai investimentos públicos e privados em ciclos econômicos recentes.
Essa dinâmica se reflete, por exemplo, na presença de cerca de 1,1 milhão de estudantes estrangeiros matriculados em cursos nos EUA em 2024, com participação internacional significativa em pós-graduações e no corpo docente de instituições renomadas. A migração qualificada também impacta o ambiente empresarial, já que 25% dos sócios de startups unicórnios americanas são estrangeiros, fortalecendo o ecossistema de inovação.
Complementam esse ciclo virtuoso os fluxos migratórios variados, que oferecem desde mão-de-obra altamente qualificada para áreas científicas nas universidades e empresas, até trabalhadores básicos em setores com escassez de profissionais, ajudando a conter pressões inflacionárias e salariais. Igualmente, o sistema financeiro dos EUA é sofisticado, com alta liquidez nos mercados secundários, regras claras de precificação e capacidade para captar vultosos recursos globais, tanto de entes governamentais quanto privados, sustentando o financiamento público e empresarial.
Atualmente, o volume de ativos denominados em dólar americano é expressivo: cerca de 7,5 trilhões de dólares em reservas internacionais estão aplicados em ativos americanos, sobretudo títulos do Tesouro, correspondendo a 57% dessas reservas globalmente. Somando investimentos privados, o total em títulos públicos americanos atinge aproximadamente 9 trilhões de dólares, equivalente a um terço da dívida do governo americano. Investidores estrangeiros também mantêm cerca de 1 trilhão de dólares em dívidas bancárias americanas, representando metade do volume disponível nesse setor.
Além da alocação em reservas e dívidas, aproximadamente 60% do total de operações comerciais, transações cambiais, depósitos e empréstimos privados no mundo são contratados em dólares, o que amplia o impacto de qualquer mudança na confiança dessa moeda.
Contudo, esse cenário consolidado nos últimos 50 anos vive um momento de incerteza, com sinais que provocam ruídos no sistema, como questionamentos recentes de organismos multilaterais, medidas isolacionistas na política migratória, ações comerciais inconsistentes com várias nações, intervenções militares unilaterais e uma elevação constante da dívida pública dos Estados Unidos. Paralelamente, a credibilidade das instituições americanas, como o Federal Reserve e a Suprema Corte, tem sido questionada.
Diante desse contexto, investidores institucionais e privados tendem a intensificar a diversificação de suas carteiras, reduzindo a concentração em ativos denominados em dólar para minimizar riscos associados a eventuais desvalorizações ou crises repentinas. Essa diversificação dificilmente ocorrerá substituindo o dólar por uma única moeda alternativa, mas sim por meio de uma carteira composta por diversas moedas e ativos, de modo a equilibrar riscos.
Entre as moedas com maior potencial para essa diversificação estão o euro, a libra esterlina, o iene, o yuan e o franco suíço, por possuírem estabilidade regulatória, mercados profundos e economias relevantes. Além dessas opções fiduciárias, o interesse também se volta para ativos fora do sistema tradicional, como ouro, metais preciosos, stablecoins e ativos reais, incluindo imóveis e ações de empresas ambientes regulatórios estáveis e que entreguem dividendos previsíveis a médio prazo.
Essas mudanças podem influenciar preços relativos no mercado global, resultando em uma gradual desvalorização do dólar americano e dos títulos públicos de países que mantêm políticas de expansão contínua de suas dívidas. Ao mesmo tempo, haverá valorização de alternativas consideradas não convencionais, como metais preciosos e ativos reais em setores regulados.
Esses movimentos representam uma reconfiguração importante nas finanças globais e demandam atenção por parte de investidores para estarem preparados para eventuais ajustes decorrentes dessa nova realidade.
Estevão Scripilliti é diretor da Bradesco Vida e Previdência.



