Retorno de IPCA+16%? Entenda a rentabilidade e os riscos dos títulos de empresas menores
Nos últimos anos, a emissão de títulos por empresas que anteriormente não contavam com acesso ao mercado de capitais tem aumentado significativamente, gerando tanto novas oportunidades quanto riscos maiores para os investidores. Alguns desses títulos chegam a oferecer remunerações de até IPCA+16% ao ano.
Imagine receber uma oferta para investir em um certificado de recebíveis do agronegócio (CRA) que remunera IPCA+16% ao ano, isento de Imposto de Renda. A proposta certamente chama atenção pela atratividade, mas é exatamente aí que reside o perigo. Títulos que apresentam retornos tão elevados normalmente escondem riscos consideráveis, pois a empresa emissora precisa compensar as vulnerabilidades e desafios enfrentados pelo seu negócio oferecendo taxas mais altas.
Na prática, isso significa que, em cenários complicados, essas companhias podem atrasar os pagamentos ou até mesmo deixá-los de pagar, sem contar com a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o que reforça a necessidade de cautela.
Esses títulos são conhecidos no mercado como high yield, ou seja, papéis que apresentam altos retornos acompanhados por riscos igualmente elevados. Atualmente, estão mais presentes nas plataformas de investimentos.
Entre eles estão os certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e do agronegócio (CRA), que mesmo isentos de IR têm sido negociados no mercado secundário com taxas superiores a IPCA+16% ao ano. Exemplos incluem CRAs com vencimento em 2030 da FS Florestal, e outro com prazo até 2029 da JF Citrus. Se considerarmos o IPCA de 2025, que ficou em 4,2%, essas taxas correspondem a aproximadamente 135% do CDI.
O mercado secundário refere-se à negociação de títulos já emitidos, onde o vendedor deseja transferir o papel para outro investidor antes do vencimento. Para viabilizar a venda, geralmente é necessária uma redução no preço do título — que se traduz em uma remuneração maior para o comprador. Assim, quanto maior o retorno prometido, maior costuma ser o desconto, o que reflete maior risco.
Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) apontam que existem ao menos 350 certificados sendo negociados com rendimentos que variam de 10% a 16% acima da inflação ao ano.
Nessa lista, aparecem desde grandes empresas enfrentando dificuldades financeira e operacional — como Braskem e Raízen — até várias companhias de menor porte, como GJA Industrial, Cereal, Nardini Agroindustrial, Usina Cerradão, BCBF Participações, Caramuru Alimentos, Vamos Locação, Olfar, Ultra Som Serviços Médicos, J Macêdo, Lar Cooperativa, São Salvador, Norsa, Neomille, Adubos Araguai e GDM Genética, entre outras.
O que essas empresas têm em comum é que muitas só acessaram o mercado de capitais recentemente, antes não tendo ou tendo pouco acesso a esse tipo de financiamento. Portanto, há uma tendência crescente de empresas menores procurando levantamentos via emissão de títulos de dívida, como debêntures, CRI, CRA e outros.
Essa transformação traz dois lados: em um ambiente econômico favorável, o investidor pode ganhar rendimentos superiores aos do Tesouro Direto; entretanto, se as condições se agravarem, empresas mais frágeis podem ter dificuldade para honrar pagamentos, elevando o risco de calotes.
Por exemplo, o ano de 2025 foi marcado por um aumento expressivo nas recuperações judiciais de pequenas empresas do setor agroindustrial. Informações recentes da Serasa Experian indicam que, em nove meses de 2025, foram registrados 1.582 pedidos de recuperação judicial por empresas do agronegócio — um avanço de 66,2% em relação ao mesmo período de 2024. A maior parte desses casos envolveu companhias de pequeno porte, refletindo dificuldades para produtores rurais e empresas na manutenção dos fluxos de caixa e cumprimento de seus compromissos financeiros, segundo avaliação de Marcelo Pimenta, chefe de agronegócio da Serasa Experian.
Esse ambiente desafiador levou a prejuízos para muitos fundos de investimento na cadeia do agronegócio (Fiagro). Entre 2024 e 2025, houve inadimplência em CRAs presentes nas carteiras de vários desses fundos, com emissores como Três Irmão, Castilhos, Mitre, Agrogalaxy e Usina Ester enfrentando problemas.
O pior desempenho dessas emissoras é um exemplo concreto do risco que deve ser considerado antes de optar por esse tipo de investimento.
“High yield” é recomendado para investidores profissionais
Cesar Mindof, diretor da Anbima, destaca que o crescimento da participação das pequenas e médias empresas no mercado de capitais revela um avanço na democratização do acesso ao financiamento. Ele ressalta que esse movimento está apenas começando, especialmente com organizações limitadas e de capital fechado passando a emitir títulos.
No entanto, ele alerta para o fato de que investidores pessoa física devem ter cautela diante de ofertas que pareçam excessivamente vantajosas, pois analisar os fundamentos das empresas e a robustez das garantias pode ser bastante complexo. Muitas debêntures, por exemplo, dispõem de estruturas securitizadas ou até mesmo ausência de garantias, o que dificulta a avaliação de riscos para o investidor não profissional.
Mindof reforça que esse tipo de investimento é mais adequado para gestores profissionais, que possuem equipes especializadas para avaliar e operar papéis de perfil high yield. É essa expertise que tem permitido o crescimento e a estruturação desses instrumentos no mercado.
O impacto da regulação no perfil de risco dos emissores
Amanda Martins Ribeiro, sócia e cofundadora da Canal Securitizadora, explica que as recentes mudanças regulatórias também contribuíram para o aumento do risco médio dos emissores. Entre 2024 e 2025, o Conselho Monetário Nacional (CMN) adotou medidas que restringiram as emissões de CRIs e CRAs por empresas sem relação direta com os setores imobiliário e agropecuário.
Até 2024, existia uma interpretação liberal sobre as garantias aceitas como lastro dos CRIs e CRAs, permitindo uma “festa” desses certificados no mercado. Grandes grupos que não tinham ligação com os setores incentivados vinham captando bilhões de reais por meio dessas estruturas, vezes até utilizando contratos de aluguel para emitir CRIs — conhecidos popularmente como “CRI de aluguel”.
Além disso, algumas empresas totalmente desconectadas do agronegócio, como Burger King e Magazine Luiza, chegaram a lançar certificados desse setor (CRAs). Isso gerou excessiva flexibilidade, que foi contida em meados de 2024, quando o CMN passou a restringir o tipo de lastro admissível, e posteriormente, em maio de 2025, proibiu completamente emissões por empresas sem vínculo direto com os setores imobiliário e agro.
Apesar dessas restrições, as captações continuam robustas, porém agora com a substituição dos emissores tradicionais por empresas menores, muitas delas que nunca haviam acessado o mercado de capitais.
Amanda ressalta que, mesmo com os riscos maiores, as emissões hoje contam com cuidados adicionais, estruturas mais sólidas e maior transparência. A maioria dos certificados garantidos contam com garantias reais, geralmente com três ou quatro lastros diferentes.



