Que tipo de liderança o novo ano requer das empresas e empreendedoras?

Iniciando 2026, vivemos um cenário cheio de incertezas econômicas, rápidas transformações tecnológicas e mudanças sociais e culturais. Nesse contexto, os estilos de liderança que foram eficazes no passado já não são mais suficientes. O momento exige líderes que possam construir o futuro constantemente, balanceando avanço tecnológico, propósito e impacto humano.

O panorama econômico global segue marcado por alta volatilidade, com tensões geopolíticas, mudanças no comércio internacional e adaptações nas políticas econômicas que continuam a afetar decisões de investimento e a operação das empresas. No Brasil, a conjuntura econômica enfrenta juros altos, reformas tributárias em curso e um clima político acirrado, o que torna a tomada de decisões estratégicas ainda mais desafiadora.

Nesse cenário complexo, líderes e empreendedores precisam abandonar planos rígidos e roteiros fixos, desenvolvendo a capacidade de lidar rapidamente com incertezas e testar hipóteses. Estudos indicam que 95% dos executivos acreditam que a agilidade na tomada de decisões em ambientes instáveis será um diferencial decisivo ao longo deste ano.

Além disso, liderar focando apenas em eficiência operacional não garante resultados expressivos. Pesquisas internacionais apontam que habilidades humanas — como inteligência emocional, empatia e comunicação transparente — permanecem essenciais para gerenciar equipes que atuam com autonomia.

O conceito de “inteligência relacional” representa esse avanço, indo além do quociente emocional clássico. Essa habilidade é crucial para líderes que precisam manter coesão e produtividade em equipes híbridas e distribuídas. Isso envolve realmente escutar diversas perspectivas, construir confiança dentro dos times apesar da ambiguidade e evidenciar valores e propósito alinhados às práticas ESG (ambientais, sociais e de governança). Estes aspectos são hoje determinantes tanto para atrair talentos como para captar investimentos. Gerações já consolidadas no mercado, como os millennials e a Geração Z, buscam significado, impacto real e comunicação aberta com suas lideranças, o que tem sido incorporado pelas empresas mais inovadoras.

Outro ponto fundamental é que a liderança eficaz em 2026 exige entendimento profundo da tecnologia, especialmente da Inteligência Artificial (IA), sem desconsiderar o crescente valor do fator humano. A implementação da IA não se resume a automatizar funções, mas inclui o uso inteligente de dados para orientar decisões estratégicas, prever cenários e potencializar o capital humano. Líderes que integram estratégia e tecnologia com equilíbrio estarão à frente.

É igualmente essencial que os líderes cultivem a antifragilidade, isto é, a capacidade de aprender, desaprender e reaprender constantemente. Estamos em uma época em que a velocidade do aprendizado deixou de ser um benefício para se tornar uma necessidade vital. O antigo conceito de que líderes devem se reinventar a cada cinco anos já está ultrapassado; hoje, a evolução contínua é regra. Empresas e líderes verdadeiros promovem culturas de aprendizado contínuo, identificam lacunas de competência e investem em upskilling e reskilling, incentivam erros como oportunidades de aprendizado e formam equipes resilientes e motivadas para adquirir conhecimento. Essa adaptabilidade está diretamente ligada ao sucesso organizacional em cenários econômicos acelerados e incertos.

Por fim, é vital destacar que liderança e organizações precisam ir além do foco exclusivo em lucro, assumindo o compromisso de fazer bem para gerar valor econômico sustentável. As empresas alinhadas com estratégias de ESG conseguem atrair mais talentos, obter condições melhores de financiamento e fidelizar clientes com maior eficiência.

No Brasil, essa tendência é ainda mais evidente, pois há uma consciência crescente de que o impacto social é intrinsecamente ligado ao crescimento econômico, funcionando não como um complemento, mas como um diferencial competitivo.

Para as empreendedoras, a relevância desse modelo é ainda maior. A liderança feminina no país tem demonstrado influência positiva sobre indicadores de inovação e desempenho organizacional quando sustentada por propósito claro e valores sólidos. Elas ocupam uma posição privilegiada para impulsionar esse tipo de liderança, pois costumam fomentar redes horizontais de influência e engajamento, fundamentais para enfrentar desafios sociais e econômicos de maneira integrada.

O atual ciclo econômico exige claramente lideranças que equilibrem estratégia, dimensão humana e tecnologia. O sucesso dos negócios não será mais avaliado somente pela capacidade de gerar lucro, mas também por sua aptidão para causar impactos culturais, sociais e econômicos positivos.

Empresas e empreendedores que incorporarem essa visão estarão mais preparados para liderar seus setores, antecipar tendências e transformar a incerteza em oportunidade.

Ana Fontes é empreendedora, pesquisadora de gênero e especialista em empreendedorismo feminino. É fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME).

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