Queda do Bitcoin revela riscos para investidores de varejo após estímulo com Trump
O valor do bitcoin sofreu uma queda significativa, chegando a recuar até 50% desde seu ápice, o que coloca em dúvida a perspectiva promovida pela administração Trump de transformar os Estados Unidos em um “paraíso cripto”.
Apesar do apoio governamental e do avanço na aprovação de fundos negociados em bolsa (ETFs) ligados a criptomoedas, o cenário atual mostra que o respaldo institucional não evitou perdas expressivas para investidores comuns.
Desde que Donald Trump reassumiu a presidência, o bitcoin despencou de seu ponto mais alto e atualmente é cotado próximo a US$ 63.000, tendo se recuperado ligeiramente para cerca de US$ 69.000. Outras criptomoedas apresentaram desempenho ainda pior, com um índice que acompanha 50 tokens menores caindo 67% desde outubro, resultando em uma perda total de valor estimada em pelo menos US$ 700 bilhões na última semana.
A promessa da administração Trump de posicionar os EUA como líder mundial no setor cripto estimulou reguladores a liberarem uma série de ETFs, facilitando o acesso do público a esses ativos digitais. Gestores de fundos rapidamente lançaram produtos associados a moedas mais consolidadas e também a ativos mais arriscados, em formatos que abrangem estratégias variadas e apostas temáticas.
Porém, para os investidores de varejo, essa formalização e institucionalização do mercado de criptomoedas não tem se traduzido em segurança, tendo causado mais prejuízos do que proteção até o momento.
Nate Geraci, presidente da NovaDius Wealth Management, ressalta que o apoio governamental não elimina a alta volatilidade dessas categorias de ativos, e que aqueles que esperavam estabilidade por causa disso estão se confrontando com a dura realidade do mercado.
De acordo com dados da Glassnode, os investidores americanos que adquiriram ETFs de bitcoin à vista possuem custo médio de compra em torno de US$ 84.100, valor bem acima do preço atual de negociação, o que indica que muitos estão no vermelho. Além da perda financeira, o impacto psicológico é significativo, especialmente para quem entrou recentemente na classe acionária, confiando na regulação e na aprovação governamental como garantia.
A euforia inicial, alimentada pela adesão de Trump às criptomoedas e pelo estímulo regulatório, foi sendo substituída por um cenário de baixa liquidez e desistência de recursos, com fluxos de entrada praticamente interrompidos. Em apenas uma quarta-feira, houve retiradas de mais de US$ 740 milhões em 140 ETFs temáticos, totalizando quase US$ 4 bilhões retirados no trimestre recente.
Esse movimento não afetou apenas produtos ligados ao bitcoin, mas também ativos associados a outras criptomoedas como Ether, XRP e Solana, além de cestas diversificadas de moedas, que sofreram perdas relevantes.
Até investidores mais experientes se surpreenderam com a velocidade e a profundidade da queda. Bruno Ver, investidor antigo que possui tokens ligados à World Liberty Financial — uma empresa associada a Trump — reconheceu que não esperava um ciclo de baixa tão cedo, acreditando que o mercado estaria amadurecendo. Ele destacou a frustração dos novatos, especialmente daqueles que compraram bitcoin por preços muito altos, como US$ 120 mil, e que agora sofrem com a queda acentuada.
Embora defensores dos ETFs de criptomoedas argumentem que perdas e volatilidade fazem parte do jogo e que o bitcoin já superou diversas quedas históricas para voltar fortalecido, a percepção maior é que esses fundos servem para oferecer acesso regulado e transparente a um mercado altamente instável. Eles ressaltam que não se pode esperar que um fundo impeça perdas significativas, assim como acontece com ações em outros setores voláteis.
No entanto, a situação atual demonstra limites claros na narrativa otimista. A Strategy, empresa que controla uma grande carteira corporativa em ativos digitais, declarou um prejuízo líquido de US$ 12,4 bilhões no último trimestre, fruto da desvalorização de suas posições.
Além disso, empresas ligadas à família Trump também enfrentam dificuldades; a American Bitcoin Corp., cofundada por Eric Trump, viu suas ações despencarem, e tokens da World Liberty Financial perderam mais de 25% do valor em uma semana.
Para iniciantes que interpretaram a validação presidencial como garantia de preços mínimos, a lição evidente é que o respaldo do governo não significa imunidade contra as flutuações do mercado. À medida que o entusiasmo inicial diminui e as estratégias alavancadas são desfeitas, observa-se uma severa reavaliação de preços seguida de um aprendizado sobre os reais limites da especulação.
Peter Atwater, fundador da Financial Insyghts, ressalta que autoridades políticas e reguladoras tendem a implementar políticas de laissez-faire em momentos de grande confiança, que frequentemente antecedem crises, exemplificando com a revogação da Glass-Steagall e a fusão entre bancos comerciais e de investimentos antes da bolha pontocom, além da crise financeira global. Ele indica que o atual declínio das criptomoedas em Washington não surpreende à luz dessa história.
— Com colaboração de Lu Wang e Denitsa Tsekova.



