Fed adota postura cautelosa e mercado questiona possível corte de juros em junho
A ata da reunião de janeiro do Federal Reserve reforçou o tom prudente da autoridade monetária dos EUA, destacando que a inflação permanece acima da meta estipulada, e que a trajetória para a redução dos preços pode ser mais lenta e irregular do que o previsto inicialmente.
Esse posicionamento demonstra que o comitê prefere aguardar evidências mais sólidas antes de implementar alterações na taxa de juros. Apesar da decisão de manter a faixa entre 3,5% e 3,75%, a comunicação deixou claro que a política monetária não está definida antecipadamente, ressaltando que, caso a inflação piore, ajustes para cima nas taxas podem ser necessários.
Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, observa que a ata reflete a atual incerteza, muito influenciada pelos impactos das tarifas comerciais impostas pelo governo Trump, que afetam os preços. Segundo ele, o Banco Central americano tem adotado uma postura mais conservadora diante desse cenário delicado.
Shahini explica que o Fed analisa o equilíbrio entre fatores deflacionários e inflacionários, apontando que a conjuntura é um pouco desfavorável para desacelerar a inflação, razão pela qual as decisões permanecem condicionadas aos dados econômicos.
Inflação continua como principal desafio para o Fed
A ata enfatiza que, embora tenha ocorrido alguma desinflação desde os níveis mais elevados em 2022, os preços seguem acima dos 2%, meta inflacionária do Fed. O risco de mantermos uma inflação persistentemente alta ainda é significativo.
O relatório também destaca que o aumento recente nos preços teve impacto do setor de bens, influenciado pelas tarifas, enquanto o segmento de serviços, especialmente o de habitação, tem mostrado desaceleração mais lenta.
O especialista da Nomad ressalta o dilema do Fed em equilibrar seu mandato duplo, que envolve controlar a inflação e manter o pleno emprego. Embora a inflação permaneça elevada, o mercado de trabalho mostra sinais de enfraquecimento, ainda que a taxa de desemprego continue baixa, próxima a 4,4%. Nessa situação, cortar juros poderia estimular a economia, mas isso conflita com a necessidade de controlar os preços.
Shahini comenta que 2025 foi o quarto ano consecutivo em que o Fed não alcançou a meta de inflação, momento que tradicionalmente exige taxas de juros mais altas para moderar a atividade econômica, um contraponto ao objetivo de pleno emprego.
Impactos das tarifas e riscos inflacionários
O documento reconhece ainda os desafios econômicos e políticos que dificultam o processo de redução da inflação. As políticas do governo Trump, vistas como choques, complicam as projeções do Fed, afetando tanto a oferta quanto a demanda agregada.
As tarifas elevam os custos de bens, o que se traduz em preços mais altos para os consumidores. Por outro lado, estímulos fiscais aumentam a demanda, impulsionando o consumo. Ademais, as restrições migratórias têm limitado a oferta de trabalho em uma economia ainda aquecida, pressionando salários e custos de produção.
Diante desse cenário, o risco de nova aceleração ou repique inflacionário permanece presente no radar do Fed.
Perspectivas para os próximos meses
O mercado começa a antecipar o início da flexibilização monetária, embora não espere mudanças para a reunião de março. Segundo a ferramenta FedWatch do CME Group, há 94,1% de chances de manutenção da taxa atual e apenas 5,9% de possibilidade de corte.
No entanto, Shahini destaca que os investidores já precificam um corte total de 50 pontos-base ao longo do ano, dividido em duas reduções de 25 pontos-base, com o primeiro movimento previsto para junho.
A escolha de junho para o começo do afrouxamento é consistente com a provável posse de Kevin Warsh como presidente do Fed, indicado por Trump, prevista para maio de 2026. Espera-se, assim, que pelo menos um corte ocorra na primeira reunião sob sua liderança.
Embora não seja possível afirmar se Warsh seguirá as orientações do ex-presidente, Shahini observa que ele tem perfil historicamente focado no combate rigoroso à inflação e tende a manter uma postura cautelosa antes de flexibilizar a política monetária.
Na análise do especialista, a chegada de um presidente com esse perfil pode prolongar a fase de juros altos, especialmente diante da persistência da inflação. Qualquer alteração significativa, porém, dependerá do contexto macroeconômico vigente na ocasião, uma vez que o Fed atua em conjunto e condiciona suas decisões aos indicadores econômicos.
Shahini alerta que movimentos inesperados e sem respaldo nos dados podem provocar instabilidade no mercado, reforçando a necessidade de decisões fundamentadas.



