Privação De Sono E Seus Impactos No Funcionamento Do Cérebro

Privação De Sono E Seus Impactos No Funcionamento Do Cérebro

Privação de sono: o que realmente acontece no seu cérebro

Estudos recentes indicam que, mesmo quando estamos acordados, nosso cérebro pode entrar em um estado semelhante ao sono para eliminar resíduos acumulados.

As dificuldades de concentração após uma noite mal dormida são resultado do esforço do cérebro para se limpar, um processo que naturalmente ocorre durante o sono profundo. Normalmente, durante a noite, um fluido cerebral responsável pela limpeza remove toxinas, detritos celulares e proteínas que se acumulam ao longo do dia. Essa purificação é essencial para evitar inflamações e garantir o funcionamento adequado do cérebro.

Quando o sono não é suficiente, o cérebro tenta compensar esse déficit enquanto estamos acordados, liberando ondas de fluido que coincidem com breves e intensas quedas de atenção, segundo uma pesquisa publicada na revista Nature Neuroscience.

“É um momento muito parecido com o sono”, explica Laura Lewis, professora associada no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e coautora do estudo. “A pessoa está acordada, mas sofre uma rápida perda da capacidade de focar no ambiente ao redor.”

A investigação demonstra que o cérebro opera em dois modos distintos: um voltado para a manutenção e outro para a vigília — e esses estados não acontecem simultaneamente, conforme a neurocientista Maiken Nedergaard, da Universidade de Rochester, que não participou do estudo.

Além dos benefícios óbvios para a saúde, como melhorar o metabolismo e reduzir riscos de doenças cardíacas, hipertensão, AVC e diabetes tipo 2, a quantidade adequada de sono é essencial para o cérebro realizar esse processo de limpeza.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) recomenda que adultos durmam no mínimo sete horas por noite, mas cerca de um terço da população adulta nos Estados Unidos não atinge esse padrão.

Embora algumas pessoas lidem melhor com a falta de sono, todos os participantes do estudo apresentaram as quedas de foco associadas a esses pulsos de fluido cerebral, alerta Lewis.

O impacto dessas falhas de atenção pode ser grave, aumentando o risco de acidentes, destaca a pesquisadora. “Isso mostra que o sono cumpre uma função crucial que o cérebro tenta realizar a qualquer custo enquanto estamos acordados.”

Na pesquisa, 26 adultos entre 19 e 40 anos, sem histórico de distúrbios do sono, foram observados. Eles passaram por avaliações em dois momentos: completamente descansados e após uma noite sem dormir. Durante as avaliações, foram submetidos a ressonância magnética funcional para monitorar o movimento do fluido cerebral, além de usarem uma touca que avaliava sua atividade cerebral enquanto realizavam testes de atenção.

Os resultados mostraram que, quando privados de sono, os participantes tiveram respostas mais lentas e desatenção a estímulos visuais e auditivos. Nestes momentos de falhas, verificou-se um aumento no fluxo do líquido cefalorraquidiano pelo cérebro e uma redução na frequência cardíaca e na respiração.

“Esses sinais indicam que algo está acontecendo não só no cérebro, mas em todo o corpo”, comenta Lewis, sugerindo a existência de um sistema integrado que alterna entre estados de alta e baixa atenção.

Os aumentos no fluxo do fluido durante a vigília não são idênticos aos observados durante o sono, pois são mais curtos e ocorrem em pulsos, e não como um fluxo constante. Outros estudos indicam que os resíduos presentes nesse fluido são eliminados pelo sangue que circula ao redor do cérebro, sendo depois processados pelos rins e fígado para serem retirados do organismo.

A privação do sono não afeta apenas a cognição, mas também está ligada a maiores riscos de lesões, obesidade, depressão e doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer.

Entender e monitorar os mecanismos de autorregulação e limpeza cerebral abre caminhos para novas técnicas de diagnóstico e tratamentos, afirma Nedergaard.

“Distúrbios do sono antecedem muitas doenças neurodegenerativas por décadas. Começamos a enxergar o sono como uma importante ferramenta para prevenir muitas enfermidades do envelhecimento.”

Texto traduzido adaptado por InvestNews.

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