Conselhos e ESG: Equilibrando Prioridades e Visão Estratégica

Conselhos e ESG: Equilibrando Prioridades e Visão Estratégica

Conselhos e ESG em 2026: entre as demandas imediatas e a estratégia de longo prazo

A capacidade de equilibrar as necessidades de curto e longo prazos será o diferencial para as empresas enfrentarem os desafios futuros.

Por Sonia Consiglio — São Paulo, 24/02/2026

O questionamento “Como será o amanhã?”, tema de um samba-enredo da União da Ilha do Governador em 1978 e eternizado pela cantora Simone em 1983, é também o que embala o início de cada ano. Nesse período, muitas pesquisas e análises são feitas para tentar prever os rumos que nos aguardam.

Quando o foco recai sobre o papel dos Conselhos de Administração na sustentabilidade para 2026, surgem alguns pontos interessantes a serem considerados. Em primeiro plano, o estudo “Prioridades dos conselhos de administração para 2026 no Brasil”, realizado pelo EY Center for Board Matters, traz uma visão que pode parecer um tanto desalentadora.

Dos 100 conselheiros consultados em todo o país, o tema “Mudanças Climáticas e Gestão Ambiental” aparece como a menor prioridade. O ranking das prioridades traz no topo: 1. Condições Econômicas, 2. Inovação e Tecnologias Emergentes e 3. Alocação de Capital. Além disso, nas questões sobre o tempo dedicado nas reuniões e os recursos disponíveis, o tema ambiental também foi o mais citado como insuficiente.

Essa realidade revela que, diante dos grandes conflitos geopolíticos e desafios do multilateralismo que ainda vivemos, as questões centrais aos negócios se sobressaem nas preocupações. Contudo, o fato de os conselheiros reconhecerem que dedicam pouco tempo e dispõem de limitações de informações para debater o meio ambiente demonstra que entendem sua importância, ainda que seja considerada uma pauta menos urgente.

O “Relatório de Riscos Globais 2026”, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, confirma essa tendência. Em relação ao curto prazo (próximos dois anos), os riscos ambientais perderam posições no ranking, com “Eventos Climáticos Extremos” caindo do segundo para quarto lugar e “Poluição” do sexto para nono. “Mudança Crítica nos Sistemas Terrestres” e “Perda de Biodiversidade e Colapso de Ecossistemas” também tiveram quedas significativas. Em contraponto, pela primeira vez, o “Conflito Geoeconômico” alcançou a liderança entre os riscos globais, subindo oito posições em relação ao ano anterior.

No entanto, ao analisar o panorama a dez anos, três das cinco principais ameaças são ambientais: “Eventos Climáticos Extremos”, “Perda de Biodiversidade e Colapso de Ecossistemas” e “Mudança Crítica nos Sistemas Terrestres”. Para profissionais com longa trajetória em sustentabilidade, essa oscilação nas prioridades entre curto e longo prazo é conhecida, ainda que preocupante.

Tenho a convicção de que, quando uma liderança compreende a importância dos elementos que compõem o ESG, ela busca inseri-los na agenda, o que exige preparo e conhecimento, ou seja, “letramento”. O levantamento “Perspectivas dos conselheiros e executivos – ambiente de negócios e governança corporativa” de 2026, realizado pelo IBGC com 190 profissionais, evidencia essa situação. Os temas que menos deverão ser discutidos neste ano são “Planos de Adaptação às Mudanças Climáticas” (20,2%), “Planos de Mitigação das Emissões de Gases de Efeito Estufa” (17,8%) e “Diversidade, Equidade e Inclusão” (16,9%).

Complementarmente, na avaliação sobre a preparação dos conselhos para debater assuntos além dos temas principais em 2026, as áreas de “Impactos das mudanças climáticas” (41,1% “despreparados” ou “muito despreparados”), “Avanço da inteligência artificial” (34,9%) e “Divulgação de riscos e oportunidades de sustentabilidade” (32,3%) foram as que mais revelaram falta de preparo.

Sendo Conselheira de Administração nos últimos sete anos, reconheço que as pautas precisam refletir as maiores variáveis que impactam o negócio. Porém, sei também que iniciativas efetivas de letramento ajudam a ampliar as discussões, trazendo temas anteriormente periféricos à tona. Esse movimento deve ser fortalecido em 2026.

Embora pesquisas possuam limitações relacionadas à amostra e momento da coleta, elas são indicativos relevantes. Por isso, chamou minha atenção a inserção da sustentabilidade no relatório “Conselho de Administração: prioridades para a agenda de 2026”, promovido pelo KPMG Board Leadership Center e ACI Institute Brasil, resultado de diálogos com líderes empresariais globais.

Dentre sete prioridades, destaca-se a recomendação de que os conselhos mantenham as discussões de sustentabilidade que possam representar riscos ou influenciar significativamente a estratégia corporativa, acompanhando a preparação da empresa para atender exigências regulatórias e expectativas dos acionistas. O relatório sugere ainda questionamentos para reuniões de conselho, como:

  • Quais aspectos da sustentabilidade são considerados materiais ou de relevância estratégica para a empresa?
  • De que maneira a organização incorpora a sustentabilidade às operações, promovendo resultados duradouros?
  • Existe um compromisso claro da gestão e da empresa com essas questões?
  • Como a empresa comunica interna e externamente a importância estratégica das temáticas sustentáveis?

Analisando diversos estudos, percebo que temas não emergentes nem sempre são ignorados. Para ilustrar, o estudo “Panorama 2026”, realizado pela Amcham e Humanizadas com 629 executivos, mostra que “Sustentabilidade” não figura entre os dez assuntos prioritários para este ano, apesar de ter aparecido nos anos anteriores. Porém, a categoria “Ambiente & Clima” permanece como uma das seis forças que moldam o cenário de negócios e direcionam prioridades estratégicas.

Assim, há o legítimo “aqui e agora”, mas também a visão de longo prazo. Empresas que conseguirem harmonizar essas duas visões, atribuindo a cada uma a devida importância, estarão preparadas para os desafios e histórias que virão nos anos seguintes.

Sonia Consiglio é SDG Pioneer pelo Pacto Global da ONU e especialista em Sustentabilidade.

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