Consolidação Multicustódia: Como A IA Revoluciona Assessoria Financeira

Consolidação Multicustódia: Como A IA Revoluciona Assessoria Financeira

Consolidação multicustódia: a inteligência artificial como solução para desafio histórico de assessores

A inteligência artificial (IA) tem transformado o mercado brasileiro de assessoria de investimentos, revelando um problema antigo: muitos profissionais ainda carecem de uma visão completa do patrimônio dos clientes, o que prejudica a qualidade das recomendações. Guilherme Assis, cofundador e CEO da Gorila, compara essa situação a um médico que toma decisões analisando apenas metade dos exames, ressaltando que tomar decisões sem visão consolidada é atuar com informações fragmentadas.

Historicamente, a consolidação multicustódia sempre foi um obstáculo dentro do setor, mas agora se tornou essencial para oferecer uma personalização mais avançada. A IA está mudando a dinâmica: os assessores deixam de depender de múltiplas telas e planilhas e passam a consultar as informações por meio de linguagem natural, reduzindo o tempo dedicado à busca de dados e ampliando o espaço para análises mais contextuais.

Normas regulatórias como Open Finance e as diretrizes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM 209) têm acelerado essa evolução, ampliando o acesso a dados que antes estavam dispersos. Conforme explica Assis, o mercado está migrando da era em que dados eram o foco para um novo estágio, a era do insight.

Desafios culturais e impacto das mudanças regulatórias

Apesar dos avanços tecnológicos, a fragmentação no atendimento ainda persiste, com muitos assessores recomendando investimentos baseando-se apenas na carteira que gerenciam diretamente. Isso gera duplicidade de ativos, riscos mal avaliados e visão tributária pouco integrada. Esse quadro é reflexo de uma cultura do mercado brasileiro que historicamente priorizou produtos em vez de focar no cliente como um todo.

Segundo Assis, essa fragmentação é um vício antigo e os investidores não aceitam mais relatórios que entregam informações incompletas. O hábito de lidar com PDFs, planilhas e mensagens pelo WhatsApp mantém muitos assessores presos a processos manuais e pouco escaláveis.

Todavia, legislações recentes, como as instruções da CVM 178 e 179, vêm incentivando a transição para modelos de remuneração baseados em honorários (fee-based) e aproximando o Brasil dos padrões internacionais. Nos Estados Unidos, por exemplo, consultorias estruturadas como RIAs (Registered Investment Advisors) já são pioneiras na adoção da inteligência artificial.

“Quando a remuneração está vinculada à qualidade do serviço, qualquer ferramenta que torne essa entrega melhor é incorporada rapidamente”, destaca o CEO da Gorila.

A importância da visão consolidada e o papel da inteligência artificial

O principal desafio para a evolução da assessoria financeira consiste na falta de uma visão integral do cliente. Sem essa consolidação, decisões cruciais como rebalanceamento de carteira, análise tributária e avaliação de risco ficam prejudicadas. Riscos ocultos, como concentração excessiva em determinados setores ou prazos de investimento desbalanceados (duration), acabam ficando invisíveis no cenário brasileiro.

Assis aponta que, com a consolidação, o diálogo entre assessor e cliente se eleva a outro nível, possibilitando explicações mais claras e fundamentadas. Ele enfatiza que a IA não substitui a relação humana, mas a fortalece, uma vez que ao automatizar tarefas operacionais como a consolidação e monitoramento dos investimentos, libera o profissional para se concentrar no atendimento.

Experiências internacionais, de empresas como BlackRock, Morgan Stanley e a israelense Personetics, confirmam essa tendência de uso da tecnologia para tornar os atendimentos mais estratégicos e menos repetitivos. “O assessor deixa de ser um coletor de dados e passa a ser um curador de decisões”, resume Guilherme Assis.

Maturidade da inteligência artificial e o futuro do assessor financeiro

A implementação completa da inteligência artificial enfrenta ainda obstáculos ligados a dados desorganizados, nível tecnológico ainda baixo e resistência em incorporar novas rotinas de trabalho. Uma pesquisa do Massachusetts Institute of Technology revela que 95% dos projetos-piloto de IA fracassam não por problemas técnicos, mas pela falta de integração com processos já existentes.

No futuro próximo, o perfil do assessor deverá ser menos transacional e mais estratégico. O conceito de “super-advisor” emerge, representado por um profissional apoiado em inteligência artificial, capaz de atender um maior número de clientes com mais profundidade, oferecendo análises contextualizadas, previsibilidade e personalização.

“Nada substitui a empatia e a habilidade de transformar dados em decisões relevantes para a vida das pessoas”, reforça Assis. “A IA potencializa essas qualidades, sem competir com elas.”

Os investidores também estão mais exigentes, esperando visão consolidada, análises detalhadas e explicações claras sobre seus investimentos. Após experiências com interfaces conversacionais, poucos aceitam retornar a relatórios estáticos e mensais.

Na base de clientes corporativos da Gorila, já são visíveis os benefícios dessa mudança: diálogos mais estratégicos, maior engajamento, menor ocorrência de erros na alocação e aumento da retenção de clientes. “Quando o investidor enxerga seu patrimônio de forma consolidada, dificilmente volta atrás”, conclui o executivo.

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