Bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz terá impacto além do petróleo; entenda o cenário para granéis sólidos
O aumento das tensões no Oriente Médio pode interromper quase 30 milhões de toneladas mensais de comércio de cargas secas, correspondendo a mais de 7% da demanda global desse tipo de transporte, de acordo com a consultoria Drewry especializada em cadeias de suprimentos.
A Drewry destaca que o Oriente Médio é um polo relevante para o comércio de cargas secas a granel, pois a região importa anualmente mais de 150 milhões de toneladas desses produtos, incluindo grãos, minério de ferro, carvão, açúcar, arroz, aço, cimento e clínquer, que é uma matéria-prima essencial para a produção do cimento.
Por outro lado, o Oriente Médio também exporta aproximadamente o mesmo volume, cerca de 150 milhões de toneladas, com fertilizantes, gesso, calcário e outros pequenos graneis entre os principais itens.
Além disso, o comércio regional de cargas secas a granel ultrapassa os 50 milhões de toneladas por ano, com uma grande parte constituída por agregados, areia e produtos siderúrgicos.
No total, estima-se que quase 30 milhões de toneladas de cargas secas a granel, tanto em comércio internacional quanto intrarregional, possam ser afetadas por uma possível interrupção prolongada do tráfego marítimo na região.
Rotas e volume de transporte
O comércio internacional ligado ao Oriente Médio exige uma extensão média de cerca de 6.000 milhas náuticas, com cargas direcionadas majoritariamente a países como Índia, China, Estados Unidos, Europa, Canadá e Brasil. Já as importações para a região vêm principalmente da Rússia, Índia, China, Turquia e EUA.
A Drewry também ressalta que aproximadamente 7.000 passagens de navios cargueiros secos pelo Estreito de Ormuz ocorrem anualmente, o que equivale a cerca de 20 atravessias diárias nesse ponto estratégico.
Diante disso, qualquer bloqueio ou interrupção prolongada no Estreito teria consequências imediatas no uso da frota regional, na economia das viagens marítimas e nos fluxos comerciais, mesmo com tentativas de desviar ou postergar volumes de cargas.
Impactos nas operações regionais
O comércio de cargas secas entre e dentro da região do Oriente Médio enfrentaria sérias dificuldades, já que armadores e afretadores tenderiam a evitar rotas com riscos elevados de segurança. Isso resultaria em atrasos ou cancelamentos frequentes das operações nos portos, levando a uma paralisação rápida ou a uma redução significativa no transporte de carga seca a granel.
Desvios e aumento do tempo de viagem
Mesmo com os conflitos recentes no Mar Vermelho no ano passado, mais de 2.000 embarcações secas continuaram a utilizar mensalmente o Canal de Suez, embora em volumes inferiores aos níveis anteriores à crise. Com a escalada das ameaças, espera-se que as embarcações evitem essa rota, optando por contornar o Cabo da Boa Esperança.
Esses desvios prolongam consideravelmente o percurso e o tempo de navegação, aumentando a demanda por tonelada-milha e consumindo mais capacidade de embarcações. Isso poderá dar suporte temporário à demanda por transporte de cargas secas a granel.
Possível aumento na demanda por carvão
Um conflito estendido na região provavelmente limitaria a oferta de petróleo bruto e gás natural liquefeito (GNL), elevando os preços desses combustíveis. Assim, países com economias intensivas em energia, principalmente na Ásia e em partes da Europa, poderiam aumentar sua dependência do carvão para geração elétrica.
Segundo o estudo da Drewry, se as exportações do Oriente Médio permanecerem restringidas por mais de um mês, a demanda por carvão poderá subir de forma expressiva. A Ásia responde por quase 90% do consumo mundial de carvão, com Índia, China, Japão e Coreia do Sul importando coletivamente cerca de 700 milhões de toneladas de carvão térmico em 2025, de um total global marítimo de pouco mais de 1 bilhão de toneladas.
Portanto, qualquer incremento na demanda por carvão deve gerar diretamente maiores volumes no comércio desse mineral e uma maior demanda por tonelada-milha. Os desvios por rotas alternativas e a substituição de petróleo e gás pelo carvão, combinados ao aumento dos preços de combustíveis fósseis, podem beneficiar transportadoras de navios do tipo Supramax e Panamax, elevando a demanda nos volumes secos transportados.
Elevação nos prêmios de risco de guerra
Outro impacto relevante será a forte alta dos prêmios de seguro considerados riscos de guerra na região. Recentemente, foi informado que a cobertura desse tipo de risco será encerrada em 5 de março na área afetada pelo conflito, e as seguradoras provavelmente proporão novas condições para diferentes submercados.
Os operadores de navios poderão optar por aceitar esses novos termos ou deixar de atuar na região.
De acordo com a Drewry, considerando os riscos presentes na área de conflito, os elevados custos de seguro devem desestimular os armadores, ocasionando, em efeito prático, uma paralisação temporária das atividades marítimas naquela região.



