Expiração da patente da semaglutida em 2026 intensifica competições entre China, Índia, EUA, Canadá e Brasil
Os medicamentos para perda de peso que utilizam incretinas — hormônios produzidos no intestino que controlam tanto a liberação de insulina quanto o apetite — vêm revolucionando o tratamento da obesidade. Entre esses fármacos, destacam-se os agonistas do GLP-1, como é o caso da semaglutida, e os duplos agonistas do GLP-1 e GIP, exemplificados pela tirzepatida. Atualmente, estes representam um dos segmentos que mais crescem dentro da indústria farmacêutica mundial.
O ritmo de crescimento deste mercado surpreendeu até mesmo especialistas experientes. Em 2023, as projeções indicavam que as vendas globais alcançariam cerca de US$ 100 bilhões na próxima década. Apenas um ano depois, essa previsão foi atualizada para US$ 150 bilhões, revelando uma demanda muito maior do que o inicialmente esperado.
Esse auge coincide com um ponto crítico para o setor farmacêutico: entre 2025 e 2029, várias patentes importantes expirarão simultaneamente — fenômeno conhecido como Abismo de Patentes 2.0. A perda da exclusividade sobre esses medicamentos pode levar a um impacto econômico global estimado em US$ 90 bilhões, com a abertura do mercado para versões genéricas e biossimilares. A nova geração de remédios para emagrecimento ocupa uma posição central nessa disputa por patentes, mercado e cadeias produtivas, o que tem redefinido o cenário farmacêutico no mundo.
O Ozempic, medicamento amplamente conhecido, tem como princípio ativo a semaglutida, substância cuja patente expirará em março de 2026 na China, Índia, Turquia, Canadá e Brasil. A titularidade da patente pertence à farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. Esses países juntos reúnem 40% da população global e aproximadamente um terço dos indivíduos obesos no planeta, tornando estes mercados estratégicos para a empresa. O fato de as datas de expiração coincidirem nesses territórios representa um desafio significativo para o laboratório.
Com a competição acirrada, não há margem para falhas, como as que ocorreram com o mais recente medicamento para emagrecimento da Novo Nordisk, o CagriSema. A situação se tornou ainda mais delicada diante do sucesso alcançado pelo Zepbound, da Eli Lilly, concorrente direto. Consequentemente, as ações da Novo Nordisk sofreram queda, enquanto o valor de mercado da Eli Lilly ultrapassou a marca de US$ 1 trilhão.
Novos acordos estratégicos
No final de 2025, a indiana Lupin, situada em Mumbai, firmou uma parceria com a chinesa Gan & Lee Pharmaceuticals, com sede em Pequim. Esse acordo confere à Lupin a exclusividade para venda e distribuição na Índia de um composto ainda em fase experimental chamado bofanglutida, um análogo do GLP-1. Esse medicamento é voltado para diabetes tipo 2 e demonstrou resultados de redução de peso similares ou até superiores aos da semaglutida, com o benefício adicional de reduzir a frequência das injeções para apenas uma a cada 14 dias.
A Lupin é a quinta maior empresa de medicamentos genéricos nos Estados Unidos e a oitava globalmente, atuando em mais de 200 países, incluindo Rússia, Japão, México, Brasil e EUA. No segundo trimestre de 2025, registrou lucro superior a US$ 80 milhões. A parceria entre Índia e China fortalece a estratégia global da Lupin, incluindo sua atuação no Brasil por meio da MedQuímica, localizada em Juiz de Fora (Minas Gerais). A MedQuímica é uma das 30 maiores farmacêuticas brasileiras e integrou o Grupo Lupin desde 2015.
A chinesa Gan & Lee também negocia com o governo brasileiro projetos de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) e colaborações futuras para o desenvolvimento de medicamentos inovadores contra a obesidade, como o GZR4 e a bofanglutida.
Além disso, a Lupin colabora com o laboratório indiano Biocon em mercados e produtos específicos, além de desenvolver projetos distintos em parceria com a Viatris/Mylan Pharmaceuticals. A Biocon é a maior farmacêutica da Índia, movimentando mais de US$ 1 bilhão em 2025, o que amplia significativamente a presença indiana na comercialização de biossimilares em escala global.
No Brasil, a Lupin estabeleceu parceria com o laboratório Biomm, localizado em Nova Lima (Minas Gerais) e controlado pela Biocon, para comercializar medicamentos oncológicos. Apesar dessas alianças, esses laboratórios também concorram diretamente em território brasileiro. Por exemplo, no segmento dos agonistas de GLP-1, a Lupin e sua afiliada MedQuímica devem disponibilizar a bofanglutida, enquanto Biocon, em associação com a Biomm, deverá comercializar a semaglutida genérica.
Preocupação com medo de agulhas e o avanço das versões orais
Uma pesquisa publicada em 2022 pela revista científica PLOS One revelou que 63,2% dos adultos apresentam algum grau de fobia a agulhas, sendo que mais da metade evita procedimentos como coleta de sangue e cerca de um terço deixa de tomar vacinas por esse motivo. Considerando isso, as empresas farmacêuticas investem em pesquisas para o desenvolvimento de versões orais dos medicamentos.
Nesse contexto, o laboratório dinamarquês Novo Nordisk ganhou impulso para lançar, em janeiro de 2026, o Wegovy em comprimido. Por outro lado, a Eli Lilly ainda não conseguiu a aprovação do FDA, agência reguladora dos EUA, para seu equivalente oral, o orforglipron — medicamento que pode ser aprovado apenas em março de 2026.
Uma diferença relevante entre os comprimidos dos dois laboratórios, segundo suas bulas, está na conveniência do uso: o medicamento da Eli Lilly pode ser tomado a qualquer momento, com ou sem alimentos, enquanto as versões orais da Novo Nordisk (Wegovy, indicado para obesidade, e Rybelsus, destinado ao diabetes tipo 2 e frequentemente empregado off-label para emagrecimento) exigem estômago vazio e intervalo de pelo menos 30 minutos antes de consumir qualquer alimento ou bebida.
Além disso, estudos sobre custo-efetividade indicam dificuldades na comparação direta entre as formas orais e injetáveis devido às diferenças nos critérios e populações estudadas. Quanto ao preço, ele pode variar amplamente, conforme descontos oferecidos via seguros públicos e privados, assim como por novas modalidades de venda direta e plataformas digitais.
Estima-se que até 2030 o mercado mundial de medicamentos para emagrecimento alcance US$ 95 bilhões, dos quais cerca de 24% (aproximadamente US$ 23 bilhões) serão de versões orais. Dentro desse segmento, o banco de investimentos Goldman Sachs projeta que o comprimido da Eli Lilly deve deter 60% do mercado, enquanto a versão da Novo Nordisk alcançaria 21%.
Inovações no modelo de venda direta ao consumidor
Nos anos de 2024 e 2025, as grandes farmacêuticas começaram a privilegiar programas de venda direta ao paciente (DTP), que combinam preços transparentes em dinheiro com serviços como telemedicina e entrega domiciliar. Exemplos são a NovoCare Pharmacy (da Novo Nordisk), LillyDirect (Eli Lilly), Eliquis 360 Support (Bristol Myers Squibb), Cosentyx DTP (Novartis), assim como programas da Pfizer, AstraZeneca e Amgen.
Essa mudança representa uma ruptura substancial no tradicional modelo comercial, promovendo também uma nova relação com o paciente que busca escapar do controle de preços imposto por planos de saúde e sistemas públicos. O marketing do Wegovy é direcionado a consumidores que pagam do próprio bolso e não dispõem de cobertura por seguro público ou privado.
O atual CEO da Novo Nordisk, Maziar Mike Doustdar, destacou na conferência J.P. Morgan Healthcare, evento que reúne interesses financeiros e farmacêuticos estratégicos, que os medicamentos para obesidade são mais receptivos ao formato de venda direta ao paciente. Por isso, uma das metas é aprofundar o domínio desses canais e do pagamento em dinheiro.
Novos avanços científicos e tecnológicos também são esperados, como um spray nasal à base de semaglutida, atualmente em testes, que será comercializado pela Shanghai Shiling Pharmaceutical, provavelmente por plataformas eletrônicas. Pode haver até o envolvimento de empresas como a Trump Rx, que, mesmo enfrentando críticas internas e externas, promete reduzir preços e fomentar reinvestimentos nos Estados Unidos.
Diante desse contexto complexo, os medicamentos para emagrecimento parecem cada vez mais impactados não apenas pela ciência, mas principalmente pelas dinâmicas das relações internacionais.
Carlos Roberto Oliveira declara que não presta consultoria, não trabalha, não possui ações nem recebe financiamento de empresas ou organizações que poderiam se beneficiar com este artigo, não tendo vínculos relevantes além de seu cargo acadêmico.



