De WEG a Huawei e Axia: as principais empresas mirando o primeiro leilão de megabaterias no Brasil
O governo brasileiro está planejando contratar até 2 GW de capacidade de armazenamento para fortalecer o sistema elétrico nacional, que atualmente enfrenta oscilações significativas entre excedentes e faltas de energia ao longo do dia.
Empresas do setor elétrico, desde fabricantes de equipamentos a companhias de transmissão, estão se preparando para o primeiro leilão de megabaterias do Brasil, um evento inédito que pode impulsionar um mercado estimado em R$ 45 bilhões em investimentos nos próximos quatro anos.
Esses sistemas de armazenamento têm como objetivo equilibrar a operação da rede elétrica, diante das variações bruscas na produção de energia, especialmente decorrentes da expansão da geração solar. Durante o dia, com a incidência máxima do sol, a produção está alta, mas a demanda por eletricidade é relativamente baixa, causando sobrecarga na rede. Já à noite, quando o consumo aumenta e a geração solar para, o sistema enfrenta escassez de energia.
As megabaterias, conhecidas internacionalmente como BESS (Battery Energy Storage System), são projetadas para armazenar energia quando a oferta é maior do que a demanda e liberar essa energia ao sistema quando houver falta, proporcionando um equilíbrio em tempo real.
Detalhes do Leilão e Expectativas
Previsto para ocorrer em junho, o leilão ainda não teve suas regras finais divulgadas. Até o momento, o Ministério de Minas e Energia prevê a contratação de até 2 gigawatts de potência, capacidade suficiente para abastecer uma cidade com cerca de 6 milhões de habitantes. Estimativas do setor apontam que o investimento total nos projetos pode alcançar cerca de R$ 10 bilhões.
As propostas discutidas indicam que cada projeto deverá ter no mínimo 30 MW de potência e conseguir operar por até quatro horas consecutivas quando acionado.
Entre as empresas que já manifestam interesse está a ISA Energia, líder na transmissão nacional e controlada pela colombiana ISA. A companhia opera o primeiro sistema de armazenamento em grande escala no Brasil, instalado em Registro-SP, capaz de sustentar o fornecimento de energia para cerca de 90 mil habitantes por até duas horas.
Segundo Rui Chammas, CEO da ISA, o interesse da empresa no leilão é natural, embora reconheça as incertezas sobre as regras finais do certame. Ele ressalta que será um desafio analisar a competição, já que muitas companhias pretendem participar.
Outras empresas que publicamente demonstraram interesse incluem a Engie e a Axia (ex-Eletrobras). A Axia revelou possuir mais de 4 GW em projetos de armazenamento em desenvolvimento, o que representa o dobro da capacidade que o governo planeja contratar.
O modelo proposto pelo governo prevê pagamento pela disponibilidade das baterias, isto é, as empresas que instalarem e mantiverem os sistemas prontos para operação receberão remuneração fixa, independentemente do uso efetivo do equipamento.
Panorama Brasileiro e a Atuação da WEG
No leilão, os contratos com o governo serão firmados por empresas de geração, transmissão ou distribuição de energia. Porém, também há forte atenção por parte dos fabricantes das megabaterias, pois esse processo representa a abertura para o desenvolvimento desse mercado no país.
Atualmente, o Brasil possui cerca de 900 MWh de capacidade em armazenamento contratada ou instalada, o que supre o consumo nacional por aproximadamente 40 segundos. Essa quantidade é modesta se comparada a outros países: a China, líder mundial no assunto, possui BESS que suportam o consumo por cerca de 30 minutos, enquanto os Estados Unidos têm sistema para 20 minutos.
A expectativa é que esse segmento cresça significativamente, com a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE) projetando investimentos de até R$ 45 bilhões até 2030.
No cenário nacional, a WEG é apontada pela XP como a empresa brasileira de maior porte para aproveitar a oportunidade no mercado de baterias. A companhia catarinense entrou no setor em 2019 após adquirir a americana Northern Power Systems e, desde então, tem tratado a tecnologia BESS como uma das suas principais apostas para expansão, prevendo gerar cerca de R$ 3,2 bilhões em receita nos próximos dez anos.
Para assegurar sua competitividade, a WEG anunciou em fevereiro a construção de uma fábrica de sistemas BESS em Itajaí, Santa Catarina, com inauguração programada para o segundo semestre de 2027. André Salgueiro, diretor financeiro e de relações com investidores da WEG, afirmou que a empresa está se preparando há bastante tempo para este leilão.
Competição com Gigantes Globais, especialmente da China
A WEG enfrentará concorrência acirrada de grandes empresas globais. Atualmente, a Tesla domina o mercado mundial de megabaterias, detendo cerca de 15% das vendas em 2024. Logo atrás, várias empresas chinesas ganham espaço, como Sungrow, CATL, Huawei e BYD.
No Brasil, a Huawei se posiciona como líder de mercado, com cerca de 100 MWh de capacidade instalada, suficiente para suprir aproximadamente 400 mil casas durante uma hora. Em 2026, a empresa pretende instalar mais 400 MWh, já contratados.
A divisão de Digital Power da Huawei, que inclui os sistemas BESS, representa cerca de 10% da receita total da companhia globalmente.
Para o leilão brasileiro, a Huawei planeja utilizar o modelo que já adotou em outros países, em que fornece a tecnologia e o conhecimento técnico, enquanto uma empresa local parceira cuida do financiamento e das relações institucionais. Embora o nome dos parceiros ainda seja mantido em sigilo, o CTO da área Digital Power no Brasil, Roberto Valer, confirmou que há mais de um parceiro definido para a disputa.
Enquanto o edital não é publicado, a Huawei tem investido em projetos específicos para ampliar sua atuação e visibilidade, como a instalação de baterias no Mercado Municipal de Santo Amaro, em São Paulo, que garantiram a operação do local durante um apagão. Também, em parceria com a Prefeitura de São Paulo e a Matrix Energia, a Huawei está instalando sistemas BESS em garagens de ônibus para apoiar a frota elétrica da cidade, reduzindo a pressão na rede elétrica e aumentando a capacidade do sistema.
O momento oportuno para as baterias
O crescimento das baterias de armazenamento está diretamente ligado a um problema que aflige as fontes renováveis, chamado _curtailment_ ou corte da geração de energia. Quando há produção excessiva, o Operador Nacional do Sistema (ONS) ordena a redução da geração das usinas solares e eólicas para manter a estabilidade da rede.
Esse problema é intensificado pelo avanço da geração distribuída (GD), constituída por painéis solares instalados em residências e pequenas unidades, que o ONS não consegue controlar individualmente. Para equilibrar, acaba reduzindo a geração das usinas maiores.
Atualmente, cerca de 20% da energia solar e eólica potencialmente produzida precisa ser desconectada ao longo do dia para garantir a estabilidade do sistema.
Além disso, a redução expressiva no custo das baterias de íon-lítio nos últimos anos estimula a adoção da tecnologia. Entre 2013 e 2023, os preços recuaram cerca de 80%, com um declínio de 40% apenas entre 2023 e 2024.
Perspectivas indicam que os custos podem chegar a US$ 64 por kWh até 2030, valor significativamente menor do que os US$ 115 registrados em 2024, o que deve acelerar a expansão do mercado.



