Interrupções, desconfiança e assédio: obstáculos enfrentados por mulheres jovens no mercado de trabalho
Ao longo de suas trajetórias profissionais, mulheres relatam as estratégias que utilizaram para evitar julgamentos e situações de assédio dentro do ambiente corporativo.
Um episódio marcante da jornalista Carolina Nucci ocorreu há cerca de 20 anos, quando, trabalhando na cobertura de automobilismo no autódromo de Interlagos, teve sua presença questionada por um fiscal que duvidou de sua credencial, mesmo após ela provar estar a trabalho. Esse episódio revela o ambiente predominantemente masculino no qual muitas mulheres precisam constantemente reafirmar seu espaço, o que a levou a adotar uma aliança falsa para tentar ganhar respeito, embora os assédios tenham se tornado mais sutis após isso.
Essas experiências, apesar de antigas, ainda são comuns nos dias atuais. Situações como julgamento por aparência, suspeita sobre a competência, limitações nas oportunidades e casos de assédio seguem presentes, principalmente para mulheres mais jovens.
Esses relatos pessoais ganham respaldo em dados do relatório Women in the Workplace, produzido pela McKinsey & Company em parceria com a Lean In, que ouviu 15 mil profissionais em diversos países para mapear as desigualdades no ambiente corporativo.
Entre mulheres com menos de 30 anos, quase metade considera que a idade já prejudicou suas chances de trabalho, enquanto 36% afirmam que esse fator influenciou na perda de promoções, aumentos ou progressões. Para os homens, esse índice é de apenas 15%.
Esse cenário se reflete na liderança, com mulheres ocupando, em média, apenas 29% dos cargos executivos.
Mariam Topeshashvili é um exemplo de mulher jovem que alcançou uma posição de liderança. Gerente de uma agência internacional que conecta produtores de conteúdo e empresas, aos 29 anos, ela enfrentou dúvidas e comentários sarcásticos velados sobre sua capacidade, agravados por ser estrangeira, jovem e falar em uma terceira língua. Essa combinação a colocou frequentemente em uma posição de avaliação constante e sensação de não ser ouvida.
O estudo Women in the Workplace evidência que essas experiências não são exceção: microagressões, que são comentários ou atitudes sutis que questionam a competência, fazem parte do cotidiano de muitas profissionais.
Alguns dados importantes do levantamento:
- 39% das mulheres já foram interrompidas enquanto falavam;
- 38% tiveram sua área de atuação questionada;
- 18% foram confundidas com profissionais de nível hierárquico inferior;
- 37% relataram ter sofrido algum tipo de assédio sexual durante a carreira.
Especialmente entre mulheres jovens, há relatos frequentes sobre comentários relacionados à idade, aparência e suposta inexperiência.
Outra pesquisa realizada pelo Todas Group e Nexus reforça esse cenário, indicando que 56% das lideranças femininas entrevistadas entendem que seria fundamental que homens interrompessem falas machistas, mas apenas 35% afirmam ter recebido apoio masculino em situações de preconceito de gênero no trabalho.
Esses obstáculos são fruto não apenas do machismo estrutural, mas também do etarismo — preconceito desenvolvido com base na idade.
Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, ressalta que o tratamento dado a homens e mulheres jovens é visivelmente distinto, já que um homem promovido costuma receber admiração, enquanto mulheres enfrentam questionamentos.
Carolina Nucci enfrentou esse preconceito em diferentes fases da carreira, desde o jornalismo — onde era vista apenas como uma “menina” — até na engenharia química e marketing, onde ouviu comentários sobre sua aptidão para as áreas e percebia diferenças salariais, mesmo entre sócios. Também notou divergência no tratamento quando mencionava a maternidade, recebendo questionamentos sobre quem cuidava de sua filha, enquanto o marido era exaltado por seu papel como pai.
Impacto na trajetória profissional
O relatório também evidenciou que mulheres sujeitas a microagressões frequentes têm maior probabilidade de se sentirem exaustas, cogitar deixar o emprego e perceber o local de trabalho como injusto. Essa realidade contribui para o fenômeno conhecido como “degrau quebrado”, que se refere à dificuldade que mulheres enfrentam em alcançar a primeira promoção para cargos de liderança, ampliando as desigualdades nos níveis hierárquicos superiores.
Dhafyni Mendes, cofundadora do Todas Group, enfatiza que interrupções constantes e a desvalorização das ideias comprometem a segurança psicológica das mulheres, afetando seu desempenho. Mariam compartilha que isso pode levar à autossabotagem, com questionamentos internos sobre merecimento e pertencimento aos cargos ocupados.
Além disso, ambientes considerados injustos aumentam a rotatividade voluntária feminina e colaboram para o burnout profissional.
A pesquisa da Todas Group e Nexus também aponta que uma parte da dificuldade em enfrentar essa desigualdade está na percepção masculina, já que 51% das mulheres entrevistadas acreditam que muitos homens consideram que a igualdade de gênero no trabalho já foi atingida, enquanto 45% percebem que eles veem o debate sobre gênero como um exagero.
Denúncia, redes de apoio e planejamento estratégico
Diante dos desafios, as mulheres entrevistadas defendem a importância de se posicionar e denunciar as situações inadequadas. Mariam incentiva que essas ocorrências sejam comunicadas aos gestores, para que outras pessoas que enfrentam o mesmo problema possam ser apoiadas.
Carolina concorda, destacando a necessidade de mostrar que tais atitudes são erradas e que o silêncio não ajuda na mudança.
Além da denúncia, elas reforçam a relevância do acompanhamento por mentoras, da construção de redes de apoio e do planejamento de carreira de longo prazo, pois, quando uma mulher alcança uma posição de destaque, pode abrir espaço para outras seguirem o mesmo caminho.
Ana Fontes acrescenta que a busca constante por conhecimento e preparo são estratégias importantes para fortalecer a confiança e alterar a forma como as mulheres são percebidas no trabalho.



