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Petrobras e a Redução da Dependência de Fertilizantes Importados

Petrobras e a Redução da Dependência de Fertilizantes Importados

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Petrobras busca diminuir dependência brasileira de fertilizantes importados

A Petrobras tem adotado medidas para reduzir a dependência do Brasil em relação à importação de fertilizantes, um insumo essencial para o agronegócio nacional. Recentemente, a estatal retomou as operações de duas fábricas localizadas no Nordeste e reiniciou as obras de uma nova unidade em Mato Grosso do Sul. Contudo, a competitividade do setor brasileiro vai além da atuação da companhia e envolve desafios mais amplos.

Contexto global e impacto para o Brasil

O Estreito de Ormuz, no Oriente Médio, é responsável por transportar até 30% das exportações mundiais de fertilizantes, incluindo ureia, amônia e fosfatos, nutrientes fundamentais à agricultura global. Recentemente, o bloqueio da passagem de navios pelo Irã, em reação a ataques dos Estados Unidos, levantou preocupações quanto à segurança desse corredor marítimo.

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Essa situação afeta o agronegócio brasileiro, que importa cerca de 90% dos fertilizantes consumidos internamente, com 35% dessas compras provenientes dos países do Golfo Pérsico, conforme dados do Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas Alimentares (IFPRI). Qualquer interrupção no fornecimento por essa rota pode provocar aumento nos custos dos insumos agrícolas, refletindo em uma alta dos preços dos alimentos e da inflação.

Reconhecendo essa vulnerabilidade, em 2022 o governo federal definiu uma meta ambiciosa para que metade da demanda nacional de fertilizantes seja suprida por produção local até 2050. A Petrobras tem papel essencial nesse plano.

Reativação de unidades e expansão de produção

Em janeiro, a Petrobras reativou duas fábricas de fertilizantes no Nordeste — uma na Bahia e outra em Sergipe — que estavam paradas desde 2023 depois de serem arrendadas para a empresa privada Unigel, que desistiu das operações devido às condições do mercado. Foram investidos R$ 76 milhões para retomar essas unidades, as quais têm capacidade de produzir aproximadamente 3,1 mil toneladas diárias de ureia, equivalente a cerca de 12% da demanda nacional.

Além disso, a estatal planeja concluir a construção da UFN-III, uma planta localizada em Três Lagoas (Mato Grosso do Sul), com previsão de início das operações até 2029. A expectativa é que, com essa obra, a Petrobras possa fornecer em torno de 35% do mercado nacional de ureia.

Dinâmica da indústria de fertilizantes no Brasil

Para compreender os desafios enfrentados pela Petrobras e pelo país, é importante destacar as características da indústria de fertilizantes. Os produtos são classificados em três grupos principais: nitrogenados (contendo nitrogênio), fosfatados (com fósforo) e potássicos (com potássio).

Os fertilizantes fosfatados e potássicos derivam da mineração de minerais ricos nesses nutrientes, enquanto os nitrogenados são produzidos industrialmente, geralmente a partir do gás natural. Países que são grandes produtores de petróleo e gás, como Rússia, China, Estados Unidos, Catar e Arábia Saudita, também são líderes na produção desses fertilizantes.

O Brasil, embora seja o nono maior produtor mundial de petróleo, importa 95% dos fertilizantes nitrogenados que utiliza. Além disso, em 2024, 75% dos fertilizantes fosfatados e 91% dos potássicos consumidos no país foram importados, segundo a consultoria Globalfert. Essa dependência faz com que os custos para os produtores rurais fiquem mais sujeitos a variações cambiais e flutuações nos preços internacionais.

O impacto é significativo, já que, em média, os fertilizantes correspondem a 23% dos custos de produção de soja, milho e algodão no Brasil, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 2024.

Histórico da dependência e seus motivos

Na década de 1980, o Brasil esteve próximo da autossuficiência na produção de fertilizantes, resultado de políticas públicas implementadas nos anos anteriores que estimularam o desenvolvimento do setor de insumos estratégicos para o agronegócio.

Porém, ao longo do tempo, a produção nacional não acompanhou o crescimento do setor agrícola, e o tema perdeu prioridade em diferentes gestões governamentais a partir dos anos 2000.

Outros fatores também influenciaram essa trajetória. Geologicamente, as reservas brasileiras de minerais para fertilizantes fosfatados e potássicos são limitadas, encontrando-se em locais de difícil acesso.

No âmbito dos nitrogenados, o Brasil produz uma quantidade expressiva de gás natural — 179 milhões de metros cúbicos diários em 2025 —, mas uma grande parte é reinjetada nos poços para otimizar a extração de petróleo, deixando disponível um volume insuficiente para suprir a demanda doméstica. Por isso, o país precisa importar gás natural, cuja cotação chega a US$ 12 por milhão de BTUs, em contraste com os US$ 2 praticados nos Estados Unidos. Esse alto custo torna a produção local desses fertilizantes pouco competitiva.

Bernardo Silva, diretor do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Fertilizantes (Sinprifert), destaca que o gás natural representa cerca de 80% do custo de fabricação dos fertilizantes nitrogenados. Atualmente, a única produtora privada nacional desse tipo de fertilizante é a Yara Brasil, que opera uma planta em Cubatão (São Paulo), porém em capacidade subutilizada devido ao elevado custo de produção.

Desafios e retrocessos da Petrobras no setor

Até recentemente, a Petrobras havia desistido do segmento de fertilizantes. Em 2017, durante o governo de Michel Temer, com Pedro Parente na presidência da estatal, a companhia anunciou a intenção de vender seus ativos na área.

Em 2019, as fábricas no Nordeste foram arrendadas à iniciativa privada, deixando de operar sob controle da estatal. A Araucária Nitrogenados (ANSA), no Paraná, foi colocada em modo “hibernação” em 2020 após não encontrar compradores e por apresentar prejuízos contínuos, conforme relato do ex-presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, que apontou falta de lucro desde 2013 até 2019.

A construção da UFN-III também sofreu paralisações e estava em fase de venda para investidores estrangeiros, mas a negociação com o grupo russo Acron não se concretizou.

Reconversão devido ao cenário internacional

Com o início da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022, os preços internacionais dos fertilizantes dispararam — a ureia teve alta superior a 100% nos primeiros meses daquele ano — e foi evidenciado o risco de desabastecimento num contexto global, já que a Rússia é um dos principais fornecedores mundiais, sobretudo de fertilizantes nitrogenados e potássicos.

Diante disso, o governo federal lançou, em março de 2022, o Plano Nacional de Fertilizantes com o objetivo de reduzir a vulnerabilidade do país ao mercado externo, visando que 50% da demanda nacional seja suprida por produção interna até 2050. O plano também prevê incentivo a investimentos em novas minas e fábricas.

Em resposta às novas diretrizes e ao cenário internacional, a Petrobras voltou a atuar no setor em novembro de 2023, com o reinício das operações da ANSA e a retomada da obra da UFN-III em sua carteira de projetos.

Desafios estratégicos para a Petrobras e o Brasil

A decisão da Petrobras de reassumir a produção de fertilizantes envolve uma análise política e estratégica que debate o papel da estatal: atuar somente em negócios rentáveis ou assumir atividades consideradas estratégicas para o país, ainda que menos lucrativas.

No entanto, a Petrobras responderá apenas por uma parte desse mercado, já que os nitrogenados representam apenas um terço do consumo total de fertilizantes no Brasil, enquanto os demais segmentos são atendidos por outras empresas e setores nos quais a estatal não atua.

Fonte

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