Os EUA e a estratégia bilionária para garantir minerais críticos do Brasil e superar a China
Os Estados Unidos iniciaram uma ampla campanha, que inclui investimentos bilionários, para assegurar acesso às reservas brasileiras de minerais críticos e terras raras. Com aproximadamente 20% a 23% das reservas globais desses minerais — ficando atrás apenas da China —, o Brasil representa um ponto estratégico na iniciativa americana para diminuir a dependência chinesa, que domina a produção e o processamento desses recursos.
Minerais críticos, incluindo terras raras, são elementos químicos essenciais para a fabricação de equipamentos que suportam energias renováveis, além de atuarem em setores eletrônicos e militares. Entre estes minerais estão o lítio, cobalto e nióbio, amplamente utilizados na produção de baterias elétricas, ímãs para turbinas eólicas, chips eletrônicos, aviões, mísseis e satélites.
A reportagem apurou que a ação norte-americana se desdobra em duas frentes: uma econômica e outra política, envolvendo tanto investidores privados quanto órgãos governamentais, como o Departamento de Guerra do governo Trump.
Abordagem econômica e investimentos
No plano econômico, os EUA planejam expandir investimentos em empresas brasileiras ou estrangeiras que já estão autorizadas a pesquisar ou explorar minerais críticos em solo brasileiro. Fontes próximas ao projeto confirmam a disposição americana em investir “dezenas de bilhões de dólares” por meio de parcerias ou aquisição de participação acionária em mineradoras existentes, mesmo aquelas em estágio inicial.
Em setembro de 2025, os EUA injetaram US$ 5 milhões na mineradora Aclara, que atua em projetos de terras raras no município de Nova Roma, Goiás. Em fevereiro de 2026, outro investimento relevante ocorreu na mineradora Serra Verde, que recebeu US$ 565 milhões da Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC). Esse aporte garantiu participação acionária norte-americana na empresa e servirá para refinanciar linhas de crédito da mineradora.
O investimento em Serra Verde é considerado estratégico, pois a mineradora concentra quase toda a exportação de terras raras brasileiras, que em 2025 atingiu US$ 12 milhões, com 99,4% do volume destinado à China. Em dezembro, a Serra Verde anunciou a antecipação do término do contrato de fornecimento para a China para o final de 2026, sete anos antes do previsto.
Além disso, um fórum sobre minerais críticos será realizado em São Paulo em 18 de março de 2026, promovido pelo Consulado dos EUA. O evento reunirá empresários, representantes governamentais e investidores para fomentar novas parcerias e investimentos em projetos minerários localizados principalmente em Goiás, Minas Gerais e Bahia. As mineradoras de pequeno porte, chamadas “juniors”, deverão apresentar seus projetos visando atrair capital estrangeiro e apoio do governo americano.
Um dos requisitos para os investimentos americanos é que, após a implementação, as mineradoras priorizem os EUA ou seus aliados como mercado consumidor, restringindo a participação chinesa nesses recursos. No entanto, especialistas ressaltam que, num primeiro momento, será complicado excluir a China, especialmente pela limitada capacidade dos EUA em refinar terras raras — que atualmente processam apenas 11% da produção mundial.
Aspectos políticos e negociações
Politicamente, os Estados Unidos pressionam para que o Brasil assine um acordo bilateral que assegure o fornecimento desses materiais. Uma proposta preliminar deste memorando foi encaminhada ao Ministério das Relações Exteriores brasileiro em fevereiro de 2026, em preparação para uma possível reunião entre o presidente Lula e o presidente Donald Trump em Washington, cuja data ainda não foi confirmada.
Entretanto, o governo brasileiro não demonstra pressa para formalizar o acordo, confiando na posição privilegiada do país como fornecedor de um recurso valioso para os EUA. Além disso, o Brasil rejeita a exigência americana de que o país deve fechar as portas para o mercado chinês caso firme o pacto com os Estados Unidos.
A proposta americana é semelhante ao acordo firmado com a Austrália em outubro de 2025, que incluía a definição de preços mínimos para os minerais críticos, agilização de licenças e investimento em projetos voltados prioritariamente para compradores dos EUA ou Austrália, buscando minimizar a participação chinesa.
Em fevereiro de 2026, os EUA organizaram uma reunião com representantes de 54 países para propor uma zona de comércio preferencial de minerais críticos, com mecanismos para prevenir supostas manipulações de mercado atribuídas à China. O Brasil, porém, enviou representantes de hierarquia menor, demonstrando cautela e evitando comprometimento excessivo.
Posições e interesses do Brasil
Interlocutores próximos ao presidente Lula indicam que o país não pretende alinhar-se exclusivamente aos EUA para a exportação das terras raras, preservando sua tradição diplomática independente e mantendo o mercado chinês, principal parceiro comercial e maior comprador recente dessas reservas brasileiras.
O governo brasileiro busca também parceiros que invistam no processamento local desses minerais para fugir do modelo tradicional de exportar matéria-prima e importar produtos acabados mais caros. O presidente Lula destacou, durante reunião com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, que o Brasil não quer repetir o erro do minério de ferro, quando vendeu a commodity e comprou produto final por valores muito superiores, defendendo a transformação industrial no território nacional.
Disputa geopolítica global
Analistas consideram que a movimentação americana no Brasil faz parte de uma competição geopolítica maior. A política externa do governo Trump tem entre suas prioridades garantir o acesso a minerais críticos, especialmente após a China ter pausado exportações para os Estados Unidos como retaliação a sanções comerciais impostas por Trump.
Esse episódio acendeu um alerta no governo americano, refletido no documento anual da Estratégia Nacional de Segurança, que enfatiza a necessidade de assegurar independência e acesso confiável a bens essenciais para a defesa e o modo de vida americano, incluindo estes minerais.
Para a professora Elena Rodriguez, do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, a negociação entre Brasil e EUA é uma “corrida geopolítica” para redesenhar a cadeia global de fornecimento, estabelecendo rotas de suprimento seguras que reduzam a dependência do controle chinês, visto há décadas como dominante por deter a tecnologia para processar esses minerais essenciais à indústria de defesa e às novas tecnologias.
Segundo projeção da agência da ONU Unctad, a demanda global por esses minerais pode crescer até 1500% até 2050, superando a produção atualmente disponível.
Considerações nacionais sobre desenvolvimento e mercados
O diretor de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de Mineração, Julio Nery, destaca que o principal interesse dos EUA nas negociações é garantir o fornecimento desses minérios, já que a suspensão chinesa no passado recente comprometeu a fabricação de produtos avançados.
O professor Sidney Ribeiro, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), alerta que, em meio a essa disputa, o Brasil precisa pensar em suas necessidades internas e alterar a dependência exclusiva da exportação de minério bruto, investindo no desenvolvimento de cadeias produtivas locais.
Segundo Nery, os Estados Unidos não são os únicos interessados em formar acordos com o Brasil: Europa, Japão e outros países também disputam participação. Para o Brasil, manter a diversidade de parceiros comerciais é fundamental, considerando que o país não possui inimigos declarados e pode negociar com várias nações simultaneamente.
Em resposta à reportagem, o Ministério de Minas e Energia destacou a disposição para diálogo e cooperação internacional no sentido de tornar a cadeia global de minerais críticos mais resistente, transparente e sustentável, reforçando que o tema está em pauta com diversos parceiros estratégicos, incluindo EUA, União Europeia e China.



