Investidores decidirão o futuro do boi Angus em projeto artístico controverso
O coletivo artístico provocador MSCHF lançou um experimento no qual investidores adquiriram cotas de um bezerro chamado Angus, com a missão de determinar se o animal seria salvo ou abatido para produção de carne e couro.
Há dois anos, o grupo de Brooklyn comercializou participações tokenizadas de Angus, um bezerro preto, prometendo que caso os investidores não demonstrassem interesse em protegê-lo, o animal seria transformado em hambúrgueres e bolsas de couro desenhadas pelo próprio coletivo. Agora, na data de 13 de março, o destino do boi adulto será definido, mas as perspectivas indicam para o abate.
Até o momento, somente cerca de um terço dos 404 detentores das cotas digitalizadas enviaram suas participações ao portal online denominado Remorse Portal, manifestando a vontade de salvar Angus. Conforme as regras, para que o animal sobreviva é necessário que mais da metade dos investidores manifeste essa intenção até sexta-feira. Caso contrário, ele será abatido e o material será usado para fabricar cerca de 1.200 hambúrgueres e quatro bolsas de couro, cujo design remete à carne.
Kevin Wiesner, cofundador do MSCHF, comentou: “Sabíamos intelectualmente que as chances de salvá-lo eram menores do que as de transformá-lo em alimento, já que estamos pedindo que as pessoas alterem seu pensamento para preservá-lo, mas a situação é emocionalmente dolorosa”.
Impacto e polêmicas geradas pelo projeto “Our Cow Angus”
O mundo da arte está habituado a obras que provocam, porém “Our Cow Angus” tem gerado debates acalorados entre colecionadores e comunidades online, lembrando a repercussão da obra do artista britânico Damien Hirst na década de 1990, quando expôs cabeças de vaca em decomposição como arte.
Representantes dos direitos dos animais criticam o projeto como uma iniciativa cruel, enquanto alguns curadores veem como uma reflexão pertinente sobre a contradição dos consumidores diante do consumo de carne bovina, sobretudo em um momento de alta dos preços da carne moída por causa da escassez de gado nos EUA.
Logo após o lançamento em 2024, os pacotes de Angus esgotaram rapidamente. A venda contemplava 400 kits com três hambúrgueres por US$ 35 cada e quatro bolsas de couro por US$ 1.200. Atualmente, “tokens de hambúrguer” estão sendo revendidos por cerca de US$ 233 no mercado secundário StockX.
Wiesner afirmou que, ao acompanhar o desenvolvimento do animal em uma fazenda no interior de Nova York, ele e os outros integrantes do grupo perceberam o quão angustiante seria sua possível morte. Segundo ele, atualmente ninguém do coletivo consegue consumir hambúrguer.
MSCHF é conhecido por projetos virais recentes como o “ATM Leaderboard” de 2022, exibido na feira Art Basel Miami Beach, que mostrava saldos bancários de usuários em tempo real. O grupo também lançou mais de 20 mil pares das botas de borracha gigantes “Big Red Boots”.
Desde sua criação em 2019, MSCHF conquistou sucesso internacional ao utilizar estratégias de marketing e moda para satirizar o consumismo e a cadeia produtiva. “Our Cow Angus” marca um retorno a uma forma mais primitiva de crítica social, segundo Sabina Lee, diretora de curadoria do Daelim Museum, em Seul, que organizou a primeira exposição individual do grupo em museu em 2023.
Para Lee, a vaca tinha destino certo de virar carne, e o coletivo criou uma maneira extrema para que as pessoas possam escolher entre preservar ou consumir o animal: “Esse desconforto é a essência do propósito”.
Reações, renúncias e dilemas dos investidores
Wiesner explicou que a ideia surgiu após um projeto envolvendo bolsas de couro customizadas, quando o grupo estudou a cadeia de produção de couro e carne em uma instalação temporária no Texas, em local que permitia às bolsas ostentar a etiqueta “Made in Italy”.
Ele revelou que dois compradores de bolsas feitas com couro de Angus já desistiram de suas participações, aumentando a possibilidade de o animal escapar do abate. Outro investidor ofereceu abrir mão de sua cota, mas condicionou isso à desistência de outros detentores de tokens de hambúrguer.
Surpreendentemente, poucos investidores renunciaram a suas cotas, o que Wiesner atribui a possíveis esquecimentos do prazo, uma vez que a compra ocorreu há dois anos, ou ao receio em abrir o pacote do token e acessar o portal, já que o item pode valer como colecionável.
É importante destacar que quem devolve sua participação não recebe o valor pago, mas colabora para a preservação de Angus.
De acordo com o artista, o custo para abater Angus e transformar sua carne e couro é aproximadamente o mesmo para mantê-lo em um santuário até o fim de sua expectativa de vida, que pode ultrapassar 20 anos.
Opinião de especialista e dilemas pessoais
David McDonald, conhecido como Davis McDavis, artista de retratos de animais em Nova York e vegetariano, manifestou admiração pelo MSCHF, mas acredita que o grupo ultrapassou um limite desta vez.
Ele contou que possui um par de tênis Gobstomper da MSCHF, que muda de cor ao se desgastar, mas optou por não usá-los mais. McDavis afirmou: “Sei que as pessoas comem hambúrguer, mas quando você dá nome ao animal, ele se torna um bicho de estimação. Eu prefiro continuar com meus Hoka.”
Este experimento artístico levanta questões relevantes sobre o consumo, o apego aos animais e os dilemas morais enfrentados por investidores e consumidores atualmente.



