Lucro da Eucatex avança 59% no 4T25; vice-presidente detalha estratégia por trás do desempenho
A Eucatex, uma das líderes brasileiras na fabricação de pisos, portas, tintas e painéis, registrou um lucro líquido de R$ 66,9 milhões no quarto trimestre de 2025 (4T25), representando um crescimento de 59% na comparação com o mesmo período do ano anterior, conforme anunciado em seu balanço divulgado na sexta-feira (13).
No balanço acumulado de 2025, a empresa atingiu um lucro líquido de R$ 340,3 milhões, alta de quase 55% em relação aos R$ 220 milhões registrados em 2024.
Esse avanço aconteceu mesmo diante de desafios no setor de materiais de construção causados pelas altas taxas de juros, ressaltou José Antônio Goulart, vice-presidente executivo e diretor da companhia, em entrevista ao Money Times.
Ele atribuiu o crescimento principalmente à estratégia focada na venda de produtos com maior valor agregado e a uma gestão mais rigorosa dos custos.
“O crescimento veio mais pela comercialização de itens com maior valor agregado do que simplesmente pelo aumento do volume, já que os segmentos em que atuamos continuam positivos, mas com uma percepção clara de desaceleração”, explicou.
Mix de produtos e controle de custos impulsionam margens
Segundo Goulart, a Eucatex vem investindo em transformar produtos básicos em soluções mais completas, como oferecer produtos ripados em vez de matérias-primas simples, e vender portas ou kits em lugar de apenas chapas, o que permite elevar o valor agregado.
Ele destacou ainda que a redução do dólar ao longo de 2025 contribuiu para baixar os custos dos insumos.
“A rentabilidade foi sustentada por três fatores: reajuste nos preços dos produtos, mix com maior valor agregado e redução dos gastos”, afirmou.
Programas habitacionais colaboram para demanda
O executivo ressaltou que programas governamentais, como o Minha Casa, Minha Vida (MCMV), continuam influenciando positivamente a procura por produtos da empresa.
Embora esses programas respondam por uma parcela pequena do faturamento, eles ajudam a movimentar segmentos ligados à construção civil, que representam mais de três quartos da receita da companhia e que ainda sofrem com o impacto das altas taxas de juros.
“Temos vendas de tintas, pisos, portas e batentes para construtoras, o que impulsiona a demanda. Além disso, a mudança para uma nova residência estimula a aquisição de móveis, área também atendida pelos nossos painéis de madeira”, explicou.
Operações nos EUA registram expansão mesmo com tarifas
As exportações desempenharam um papel importante nos resultados da Eucatex. No 4T25, as vendas internacionais responderam por cerca de 23% da receita líquida, índice estável em relação a 2024, embora em anos anteriores tenha chegado a 28%.
Nos Estados Unidos, principal mercado externo da empresa, o crescimento foi mantido apesar da imposição de tarifas comerciais em abril pelo governo Trump.
“Investimos na marca por 20 anos e não recuamos, mesmo com as tarifas altas. O ritmo diminuiu, porém fechamos 2025 com expansão de aproximadamente 21% nas exportações”, disse Goulart.
Suprema Corte dos EUA revoga tarifas e abre possibilidade de ressarcimento
Em fevereiro, a Suprema Corte norte-americana anulou as tarifas aplicadas, por entender que ultrapassavam a autoridade presidencial. Em substituição, foi criada uma alíquota global de 15% baseada na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, que permite tarifas temporárias sem aprovação do Congresso.
Para a Eucatex, a redução da tarifa anterior de 50% e a uniformização da alíquota foram alívios importantes. Além disso, a empresa possui expectativa de receber ressarcimento dos valores pagos, estimados entre US$ 5 milhões e US$ 6 milhões, equivalentes a mais de R$ 30 milhões.
Isso ocorre porque a Eucatex possui uma subsidiária nos EUA que importa os seus produtos, exercendo função de importadora e exportadora simultaneamente, com armazéns próprios para distribuição local.
Perspectivas para 2026 indicam crescimento contido
Sobre as expectativas para 2026, Goulart adotou uma visão mais moderada diante da desaceleração econômica e das persistentes taxas elevadas de juros no Brasil.
“A demanda permanece positiva, porém em ritmo mais lento. Prevemos crescimento discreto para este ano, em linha com o cenário de economia mais estabilizada”, comentou.
Investimentos e diferencial competitivo na base florestal
A Eucatex planeja continuar investindo fortemente, com um orçamento de aproximadamente R$ 500 milhões para 2026, superando os R$ 410 milhões aplicados no ano anterior.
Grande parte dos recursos será destinada à ampliação da produção de portas e batentes, com objetivo de quadruplicar a capacidade atual, além de iniciativas para aumentar a eficiência operacional.
Outro ponto forte citado é a base florestal da empresa, que atualmente compreende cerca de 40 mil hectares de florestas de eucalipto, garantindo um fornecimento equilibrado de matéria-prima, especialmente em um cenário de alta nos preços da madeira, que subiram de cerca de R$ 50 para aproximadamente R$ 280 por metro cúbico nos últimos cinco anos.
Estrutura financeira sólida e captação por CRAs
Em 2025, a Eucatex fortaleceu sua estrutura financeira por meio de duas emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), totalizando mais de R$ 600 milhões, que permitiram alongar o prazo das dívidas.
Com isso, a empresa possui entre 20% e 25% da dívida com vencimento no curto prazo e conta com caixa suficiente para cobrir esse montante. A relação entre dívida líquida e Ebitda caiu para 0,8 vez em dezembro, ante 1 vez no ano anterior, uma situação confortável quando comparada a outras companhias do setor que apresentam níveis entre três e quatro vezes.
BTG Pactual impulsiona visibilidade e governança
O processo de captação por CRAs refletiu também maior aproximação da Eucatex com o mercado de capitais, especialmente após a entrada do BTG Pactual como acionista relevante em 2023, com cerca de 33% das ações, vindo a substituir participações de fundos estrangeiros.
Goulart frisou que a presença do BTG agregou maior visibilidade à empresa e promoveu avanços significativos na governança corporativa.
“A participação do BTG foi bastante positiva, tanto pelo reconhecimento que traz para o grupo quanto pelo estímulo às melhorias internas”, finalizou.



