Sem banheiro e água: caminhoneiros enfrentam dias em longas filas no porto do Pará
Motoristas responsáveis pelo escoamento da safra de soja em 2026 passaram dias parados em seus caminhões, sem acesso a água potável, banheiros ou locais para dormir, enquanto aguardavam para acessar o porto de Miritituba, no Pará. No final de fevereiro, a fila de veículos chegou a atingir 45 km, ocupando também parte da BR-163, que é uma das principais vias para o transporte de grãos da região Norte, especialmente vindos do Mato Grosso.
O caminhoneiro Álvaro José Dancini relatou a situação precária que enfrentou, contando que durante o período na fila de espera, os motoristas precisavam se banhar nos igarapés e usar o mato como banheiro devido à ausência de infraestrutura adequada.
Outro motorista, Jefferson Bezerra, viveu forte impacto da situação ao ficar 40 horas parado na estrada e mais 12 horas dentro do porto. Ele destacou a dificuldade de alimentação, ressaltando que apenas quem possuía mantimentos conseguia se alimentar, enquanto outros passavam fome, contando que postos próximos alimentavam os caminhoneiros com água.
Além do sofrimento causado pela falta de condições básicas, os caminhoneiros acumularam perdas financeiras, uma vez que o tempo parado significa ausência de recebimento pelo serviço. Renan Galina explicou que, com esses atrasos, os motoristas deixam de faturar porque o tempo de espera não é remunerado.
Desafios na logística do agronegócio brasileiro
O congestionamento enfrentado no porto é um reflexo dos diversos entraves no transporte da produção agrícola nacional. Entre esses problemas, destaca-se a alta concentração de caminhões nos portos ao mesmo tempo, causada pela grande produção e pela carência de armazéns para armazenagem temporária dos grãos.
O transporte no Brasil depende fortemente das rodovias, meio que transporta cargas em volumes menores e com maior consumo de combustível se comparado a ferrovias e hidrovias. Além disso, as condições precárias das estradas, muitas vezes sem pavimentação adequada, aumentam o custo do transporte ao reduzir a velocidade dos veículos e elevar gastos com manutenção e diesel.
Problemas na infraestrutura rodoviária
Fernanda Rezende, diretora executiva da Confederação Nacional do Transporte (CNT), destaca que para cargas volumosas e pesadas, o ideal seria o uso de ferrovias e hidrovias, que transportam mais carga a um custo menor. Todavia, a infraestrutura dessas modalidades no Brasil não atende à demanda crescente do setor.
Thiago Péra, professor da Esalq-USP, explicita que um caminhão consome, em média, um litro de diesel para cada dois quilômetros, em transporte de grãos. Assim, numa rota de dois mil quilômetros como a do Mato Grosso ao porto de Santos, o gasto de combustível pode alcançar mil litros, sem contar o desgaste causado pelas estradas ruins que aumentam os custos com pneus e manutenção.
O acesso ao porto de Miritituba ocorre exclusivamente por caminhões, e os terminais frequentemente não suportam o volume de carga que chega, o que força o uso das rodovias como locais de espera para os veículos, reforçando o congestionamento.
Outro aspecto preocupante é que apenas cerca de 12,4% das estradas brasileiras são pavimentadas, segundo dados da CNT, inviabilizando rotas alternativas. Além disso, a presença de estradas vicinais – caminhos não asfaltados que conectam áreas produtivas às rodovias principais – e problemas de buracos e sinalização pioram o cenário, prejudicando tanto a eficiência logística quanto a segurança dos veículos.
Os caminhoneiros enfrentam danos diários nos veículos em função dessas condições. Tanto Bezerra quanto Dancini relataram queburacos e estradas deterioradas frequentemente provocam quebras de molas, eixos e outros problemas mecânicos.
Falta de capacidade para armazenagem
A grande produção agrícola nacional não é acompanhada pela infraestrutura para armazenagem, o que obriga que o escoamento seja imediato e simultâneo, causando concentracão de caminhões nas rotas para exportação.
Rezende observa que o Brasil armazena apenas cerca de 80% da sua safra, forçando os caminhoneiros a atuarem como depósitos móveis. Péra evidencia ainda a incapacidade dos portos em alguns períodos de receber todo o volume de carga que chegam, o que também resulta em lentidão e filas.
Esse problema reduz a disponibilidade de caminhões circulando para fretes, elevando os preços do transporte durante a safra, especialmente entre o início do ano e meados de março, quando o volume de exportação é maior. Bezerra ressaltou que os caminhoneiros esperam o ano todo para trabalhar na safra, mas acabam com faturamento reduzido pela paralisação nas filas.
Impactos econômicos para o consumidor
O encarecimento do transporte reflete diretamente no custo dos alimentos no país. Thiago Péra afirma que a precária infraestrutura aumenta o custo da economia brasileira como um todo, gerando produtos e serviços mais caros para a população.
Há ainda o fator das distâncias maiores que os veículos precisam percorrer para evitar trechos inadequados, aumentando o tempo da viagem e o consumo de combustível, o que agrava o custo final.
Melhorar a infraestrutura beneficiaria o agronegócio nacional e fortaleceria a economia, promovendo geração de empregos e renda, segundo o professor da Esalq.
Investimentos insuficientes em infraestrutura
Péra destaca que o Brasil investe entre 0,4% e 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em infraestrutura, percentual baixo na comparação com países como Estados Unidos e China, que investem mais de 2%. Para ampliar a competitividade, seria necessário alcançar pelo menos 2% do PIB em investimentos.
O investimento em modais alternativos, como ferrovias e hidrovias, tem ficado aquém do crescimento da produção agrícola, gerando um descompasso evidente entre capacidade e demanda.
Além disso, a quantidade de armazéns não acompanha o ritmo da produção, limitando o armazenamento e influenciando diretamente na formação das longas filas nos portos.
Fernanda Rezende reitera a importância de ampliar e recuperar a malha rodoviária e investir na integração de diferentes modais de transporte para tornar a logística mais eficiente.
Assim, a superação desses gargalos é fundamental para que o Brasil consiga transportar sua produção agrícola com menores custos, aumentando sua competitividade nacional e internacional.



