Estados Unidos têm mais spas e academias do que lojas físicas
Atualmente, os consumidores norte-americanos estão mais inclinados a gastar com serviços como tratamentos estéticos ou aulas de exercício do que na compra de produtos tradicionais, como roupas ou cosméticos. Isso se reflete no mercado imobiliário, onde, pela primeira vez, mais espaços comerciais foram alugados para empresas de serviços do que para varejistas de produtos.
De acordo com dados da CoStar Group, em 2025, as companhias prestadoras de serviços ocuparam um pouco mais de 50% das áreas comerciais destinadas ao varejo, um crescimento significativo em relação aos 40% registrados há quinze anos. Essa transformação evidencia a demanda crescente por setores que envolvem saúde, bem-estar e academias.
Brandon Svec, diretor nacional de análise de varejo da CoStar nos EUA, destaca que os consumidores continuam direcionando seus gastos para serviços e não prevê mudanças nessa tendência no curto prazo. Além disso, a expansão do comércio eletrônico contribuiu para diminuir a necessidade de espaço para venda física de roupas, calçados e material de escritório.
Mesmo com uma leve desaceleração no segmento de bares e restaurantes, causada pela diminuição do consumo em algumas fatias e pela concorrência de grandes redes, a procura por espaços para serviços permanece alta. O setor de bem-estar, em especial, está em pleno crescimento, movimentando cerca de US$ 2,1 trilhões em 2024, conforme o Global Wellness Institute, que acompanha despesas em áreas como spas, beleza, nutrição, saúde mental e pública.
“Se antes o símbolo de status era uma bolsa de grife, hoje a valorização está em investir em aulas de yoga ou tratamentos faciais”, analisa Svec.
Expansão dos negócios de bem-estar e academias
As empresas do setor de saúde e beleza têm acompanhado essa demanda crescente, oferecendo desde tratamentos faciais a laser, hidratação por via intravenosa e aplicação de Botox, até terapias com luz vermelha e crioterapia, técnica que submete o corpo a baixíssimas temperaturas para reduzir inflamação e acelerar a recuperação muscular.
Brian Finnegan, CEO da imobiliária Brixmor Property Group, afirma que os consumidores estão mais atentos do que nunca à aparência e ao cuidado com o corpo. Como exemplo, ele relata a transformação de um espaço comercial de cerca de 950 metros quadrados no Whitemarsh Shopping Center, na região metropolitana da Filadélfia, antes ocupado por uma loja de bebidas. O local foi dividido em quatro unidades menores, agora abrigando um hospital veterinário, uma franquia de spas faciais, estúdios de alongamento e um salão de manicure.
Segundo Finnegan, essas novas operações geram 20% mais receita com aluguel e atraem maior fluxo de visitantes ao shopping.
As redes sociais também têm fomentado o crescimento de negócios focados em aperfeiçoamento visual para fotos, incluindo salões especializados em escovas e depilação, impulsionando a abertura de academias. Em 2025, estúdios fitness representaram quase 30% dos contratos de locação relacionados a serviços, contra 20% em 2016, segundo a CoStar.
Em bairros como Flatiron e NoMad, em Manhattan, marcas dedicadas ao autocuidado e ao exercício físico ocuparam aproximadamente 9 mil metros quadrados nos últimos dois anos, com destaque para saunas, pilates e academias especializadas em treinamento para esqui cross-country.
Noah Neiman, cofundador da rede de boxe Rumble Boxing, inaugurou recentemente na região o Pack, estúdio que oferece aulas de defesa pessoal e atividades de grupo, focando na preocupação dos americanos com saúde e socialização após a pandemia.
“Queremos que as pessoas venham aqui, façam amizades ou tragam colegas de trabalho. É o novo happy hour”, exemplifica Neiman.
Crescimento das academias e impacto no mercado de varejo
Uma das redes que mais crescem nos EUA é a Planet Fitness, que em 2025 conquistou mais de 1 milhão de novos membros e planeja inaugurar quase 200 unidades em 2026. Chip Ohlsson, diretor de desenvolvimento da empresa, explica que as pessoas têm se exercitado com maior frequência e em grupo, incluindo famílias inteiras ou equipes de trabalho. Ele ainda prevê que o uso crescente de medicamentos para emagrecimento, como o Ozempic e outros da classe GLP-1, incentivará ainda mais a procura por academias.
“Quando alguém perde peso e se sente melhor, isso cria uma oportunidade para frequentar a academia e aperfeiçoar ainda mais sua saúde”, argumenta Ohlsson.
O comércio eletrônico também tem contribuído para reduzir a demanda por espaço físico para venda de roupas e produtos de higiene, representando 16,4% das vendas totais no varejo em 2025, número que era próximo de 8% em 2016, conforme dados do Departamento de Comércio dos EUA. Muitas lojas de vestuário têm diminuído o tamanho de suas unidades físicas.
Apesar dessas transformações, a taxa de vacância no setor de varejo permanece baixa, em torno de 4,4%, próxima dos níveis mínimos históricos, sustentada pela forte procura de empresas de serviços. A Planet Fitness, por exemplo, tem instalado suas academias em locais anteriormente ocupados por redes varejistas que encerraram atividades, como a Rite Aid e a cadeia de lojas de artesanato Joann.



