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Investimentos Com Falta De Senso Crítico No Mercado Financeiro

Investimentos Com Falta De Senso Crítico No Mercado Financeiro

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O investidor e a ‘Padaria Bank’

O mercado financeiro e a aparente sofisticação que pode reduzir o senso crítico

Imagine que uma padaria acaba de abrir na esquina da sua casa e exibe uma placa na vitrine oferecendo investimentos com retorno de até 2% ao mês. Você, curioso, pergunta como funciona. O padeiro responde dizendo que a “Padaria Bank” é na verdade um grupo econômico que atua nos principais setores que movimentam a economia do país: indústria alimentícia, infraestrutura e serviços financeiros.

Ele continua explicando que eles não são apenas uma padaria comum, mas uma holding de investimentos que preza por gestão transparente e sustentável nesses setores promissores da economia brasileira. O padeiro afirma ainda que começaram como uma empresa de tecnologia voltada para inovação digital e logística, e que hoje possuem um portfólio diversificado que impacta positivamente o desenvolvimento do Brasil.

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Além disso, ele reforça que a “Padaria Bank” tem o compromisso de gerar valor, focar em eficiência, inteligência de mercado e seguir rigorosamente critérios de compliance, governança e risco para transformar oportunidades em resultados palpáveis. Os recursos captados seriam investidos num ecossistema de negócios variados, não só para expandir a própria padaria. Quem investisse participaria dos lucros e receberia rendimentos mensais.

Você investiria seu dinheiro nessa oferta? Provavelmente, não.

Na situação do padeiro, a maioria das pessoas reagiria com ceticismo e faria perguntas fundamentais: como garantir o retorno prometido? Quais os riscos envolvidos? Quem é o responsável pelo negócio? Quais garantias existem? Quem fiscaliza isso? Curiosamente, quando surgem propostas semelhantes no mercado financeiro, apresentadas com linguagem rebuscada, muitos investidores parecem esquecer de questionar exatamente essas questões básicas.

Este tipo de situação tem se repetido no mercado brasileiro, como ficou claro com o recente caso do “Grupo Fictor”, que também apresentou um discurso semelhante ao do “Padaria Bank”. Aproximadamente 13 mil investidores entregaram cerca de R$ 3 bilhões a esse grupo, que prometia retornos elevados por meio de participações societárias em setores como indústria, imóveis e energia.

Essas captações foram feitas utilizando estruturas societárias chamadas Sociedades em Conta de Participação (SCPs). A proposta era simples e direta: os investidores aportariam capital nessas sociedades que, em troca, dariam rendimentos mensais entre 2% e 3%. Para muitos, parecia uma alternativa atraente diante das opções tradicionais de investimento.

É importante destacar que as SCPs são legalmente reconhecidas no direito societário brasileiro, funcionando como uma sociedade em que há um sócio ostensivo, que gerencia o negócio, e sócios participantes, que aportam o dinheiro e recebem parte dos resultados. No entanto, esse tipo de estrutura não oferece o mesmo nível de transparência e supervisão pública que caracteriza os investimentos regulamentados, como fundos, ações ou CDBs.

Na prática, o investidor é mais um sócio do empreendimento e depende totalmente da confiança no gestor e na solidez da operação. Muitas pessoas aplicaram dinheiro acreditando que se tratava de algo similar a produtos tradicionais do mercado financeiro, quando na verdade essa estrutura é usada principalmente em contratos específicos para negócios empresariais, não sendo um produto financeiro convencional.

Quando o grupo que estruturava essas operações enfrentou dificuldades financeiras e entrou com pedido de reorganização judicial, milhares de investidores começaram a questionar as mesmas dúvidas que fariam no exemplo da “Padaria Bank”: onde está meu dinheiro? Quem responde pela operação? Quais garantias existem? O caso segue em tramitação judicial e provavelmente o desfecho não será positivo para todos.

Essa não é uma situação inédita e provavelmente não será a última. No meio financeiro, a aparente complexidade e o uso de jargões técnicos muitas vezes diminuem a capacidade crítica do investidor. Se alguém oferecesse simplesmente: “Invista no meu negócio e eu prometo pagar 2% ao mês”, a reação imediata seria de desconfiança.

No entanto, quando a proposta vem recheada de termos como “estrutura de investimento”, “participação societária”, “veículo de investimento” ou “operação estruturada”, muitos interpretam que a oferta já passou por análises rigorosas e está segura.

Uma dica valiosa que pode simplificar a avaliação antes de investir é imaginar que toda essa operação complexa é apenas uma padaria. Faça a si mesmo perguntas essenciais:

  • Eu compreendo como esse negócio gera lucro?
  • Sei qual é o risco envolvido?
  • Se algo der errado, quem será responsável?
  • Qual garantia existe para o meu dinheiro?
  • Este negócio é regulado por algum órgão oficial?

Se você não investiria numa padaria nessas condições, por que aportar em um investimento sofisticado e complexo que não entende? Não há problema algum em optar por instrumentos financeiros sofisticados ou de maior risco, desde que haja conhecimento e compreensão do que está sendo feito. A complexidade não pode substituir a diligência e a análise cuidadosa.

Assim, uma pergunta simples pode servir de guia para qualquer investidor: se essa oportunidade fosse uma padaria, eu investiria meu dinheiro nela? Caso a resposta seja negativa, talvez seja melhor reconsiderar o investimento.

José Brazuna é sócio da Iaas!. Seu contato é jbrazuna@iaasbr.com.

Coluna de José Brazuna — Foto: Arte/ValorFonte

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