Investidores estrangeiros mantêm fluxo positivo na B3 mesmo com conflito no Oriente Médio
Apesar das tensões geopolíticas causadas pela guerra no Oriente Médio, a entrada de recursos estrangeiros na Bolsa brasileira se manteve firme em março. Até o dia 19, os investidores internacionais aportaram R$ 6,8 bilhões na B3, conforme dados divulgados pelo portal Dados de Mercado.
Embora tenha ocorrido uma redução no ritmo desses aportes em relação aos meses anteriores, essa diminuição era esperada após os números expressivos do início do ano, que registraram R$ 26,3 bilhões em janeiro e R$ 15,4 bilhões em fevereiro. Com os resultados de março, o total acumulado em 2026 soma R$ 48,5 bilhões, quase o dobro do fluxo registrado em todo o ano de 2025, que foi de R$ 25,47 bilhões.
Especialistas ouvidos pelo Money Times apontam que a atração da Bolsa brasileira para investidores estrangeiros está ligada a fundamentos sólidos de médio e longo prazo, como o diferencial positivo na taxa de juros, a busca por diversificação de carteiras e os indicadores econômicos favoráveis do Brasil.
Além disso, instituições financeiras estrangeiras de renome, como o Citi e o UBS, classificam o Brasil como um refúgio relativamente seguro para investidores em ações, devido à menor exposição da economia brasileira aos impactos do conflito no Oriente Médio, em comparação com outros países emergentes.
Brasil como porto seguro em cenário global de incertezas
O chefe de investimentos do ASA, Rogério Freitas, ressalta que o mercado brasileiro é um dos grandes beneficiados em momentos de instabilidade global, pois é visto como aquele menos contaminado por riscos externos. Ele explica que a realocação global de recursos já vinha acontecendo antes do conflito atual, motivada pelos altos preços dos ativos nos Estados Unidos e seus rendimentos pouco atraentes.
“Ativos bons costumam ser caros, com retornos menores, mas fundamentados em bases sólidas”, comenta Freitas. Ele ainda relata que a saída de investimentos dos Estados Unidos rumo a mercados emergentes ganhou força após abril de 2025, especialmente a partir de movimento promovido pelo presidente Trump.
O Brasil se destaca dentro desse contexto por possuir um mercado líquido, de grande porte e uma economia relativamente robusta frente a outros emergentes, detalha o especialista, que prevê condições favoráveis para investimentos em emergentes por vários anos.
Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, compartilha essa visão, afirmando que o país tem sido considerado um refúgio para investimentos estrangeiros diante das decisões precipitadas do ex-presidente norte-americano, três anos atrás, o que gerou uma migração de capital para economias emergentes.
Ele destaca ainda que, devido a bons indicadores econômicos — como inflação sob controle, crescimento do PIB e baixo desemprego —, o Brasil se torna uma opção atrativa para investidores estrangeiros. Além disso, a bolsa brasileira vem apresentando uma trajetória de valorização contínua desde abril de 2025, alcançando recordes consecutivos.
Ativos brasileiros promovem bom custo-benefício e diversificação
O estrategista Matheus Spiess, da Empiricus Research, explica que desde o ano passado há um movimento mundial mais intenso de diversificação geográfica nas carteiras de investidores, o que ocorre aliado à desvalorização do dólar. Esses dois fatores favorecem ativos globais, especialmente os brasileiros.
Segundo Spiess, parte dessa demanda está relacionada à vontade dos investidores estrangeiros de reduzirem sua exposição ao dólar, consequência das dúvidas institucionais nos Estados Unidos. Dentre as economias emergentes, o Brasil é considerado “premium” por oferecer ativos de qualidade a preços acessíveis.
Apesar do Ibovespa ter registrado máximas nominais recentemente, os múltiplos permanecem baixos, indicando espaço para novas valorizações, ressalta o estrategista.
Diferencial atrativo nas taxas de juros
Uma outra vantagem do Brasil em comparação a outros emergentes apontada por Spiess é o início de um ciclo de cortes na taxa básica de juros. Mesmo com as incertezas geradas pelo conflito no Oriente Médio, ainda há potencial para reduções na Selic, que sofreu um ajuste de 0,25 ponto percentual em março, situando-se atualmente em 14,75% ao ano.
Ele destaca que o espaço para cortes no Brasil é maior do que em outras nações emergentes, que tinham orçamento mais limitado para essa política monetária. “Com uma Selic em 12%, ainda haveria um carry trade, ou seja, um diferencial de juros significativo”, explica.
Esse mecanismo de carry trade é atrativo para investidores estrangeiros, que podem tomar empréstimos em países com juros baixos, como o Japão (com 0,75% ao ano) e investir em ativos brasileiros, receber o retorno maior na diferença de taxas (spread) — proporcionando lucro ao final da operação.
ETFs são porta de entrada para investidores estrangeiros
Um relatório do Itaú BBA revela que os fundos negociados em bolsa (ETFs) foram responsáveis por uma entrada significativa de capital em 2026, com cerca de R$ 27,8 bilhões até a segunda semana de março, representando 68% do fluxo total estrangeiro na B3.
O indicador de amplitude estrangeira do banco, que avalia a diversidade dos investimentos dos estrangeiros entre ações do Ibovespa e ETFs locais, registra uma pontuação de 58 no acumulado do ano, mas esse número caiu para 41 em março, evidenciando concentração dos investimentos principalmente nos setores de Petróleo & Gás e Utilities.
Devido à volatilidade no cenário internacional, estrangeiros aumentaram suas compras em ações desses setores, com aportes de R$ 5,9 bilhões e R$ 1,13 bilhão, respectivamente. Por outro lado, Saúde e Consumo Discricionário registraram as maiores vendas, respectivamente R$ 1,14 bilhão e R$ 1 bilhão, refletindo essa concentração de fluxo em poucos ativos, conforme ressalta o banco.
Riscos de curto prazo: conflito e eleições
Os analistas indicam que a maior incerteza para a captação de recursos estrangeiros na B3 a curto prazo está na duração do conflito no Oriente Médio. Gabriel Mollo observa que, antes da guerra, a bolsa brasileira já flertava com os 200 mil pontos impulsionada pelo aporte externo, porém a alta no preço do petróleo pode pressionar a inflação e levar o Banco Central a adotar postura mais cautelosa.
Em consequência, caso o BC não realize cortes nas taxas de juros no ritmo esperado pelo mercado, a bolsa tende a apresentar movimentações laterais.
Além disso, as eleições brasileiras também são apontadas como fonte de volatilidade para o ingresso de capital externo, devido às incertezas fiscais que acompanham esse período.
Por outro lado, Matheus Spiess avalia a possibilidade de um rali eleitoral na esteira do que ocorreu na Argentina com a eleição de Javier Milei. Ele destaca que, desde a pandemia, o cenário político tende a dificultar a permanência dos governantes no poder, provocando uma transição da esquerda para a direita na América Latina nos últimos anos.



