Por que o Líbano também é alvo de Israel na guerra no Oriente Médio
O Líbano, um país dividido historicamente entre diversas facções políticas e religiosas, abriga o grupo armado Hezbollah, que há décadas lança foguetes contra Israel a partir do sul libanês. Desde o início do conflito no Oriente Médio, Israel tem mirado não só instalações no Irã, mas também o sul do Líbano e áreas da capital Beirute, incluindo o bombardeio de uma ponte sobre o rio Litani, ocorrido recentemente. Essa escolha de alvos está profundamente ligada à presença do Hezbollah e às complexas relações regionais e históricas do país.
Situado numa faixa estreita às margens do Mar Mediterrâneo, o Líbano possui um terreno montanhoso que historicamente serviu como refúgio para diversos grupos étnicos, religiosos e dissidentes políticos, tornando-se uma das regiões mais densamente habitadas do Mediterrâneo. Durante longos períodos, foi um movimentado centro comercial e cultural no Oriente Médio, mas nos últimos anos enfrenta uma das mais graves crises econômicas da sua história. Dados do Banco Mundial indicam uma queda de cerca de 38% no PIB real desde 2019, com uma dívida pública superando 150% do PIB. Desde 2020, o país está em moratória da dívida em Eurobonds, o que dificulta seu acesso a mercados financeiros.
A inflação anual atingiu impressionantes 221,3% em 2023, enquanto a libra libanesa sofreu uma desvalorização superior a 98% entre janeiro de 2023 e março de 2024. Negociações com o FMI foram iniciadas em fevereiro de 2026 para implementar reformas estruturais no sistema financeiro e resolver a questão dos depósitos congelados.
Histórico do Líbano e seu papel na região
Formação e divisões políticas
O Líbano moderno surge após a Primeira Guerra Mundial, com o desmantelamento do Império Otomano. No acordo Sykes-Picot, de 1916, as áreas árabes foram divididas entre França e Grã-Bretanha, com a França ficando responsável por Síria e o “Grande Líbano”. Em 1926, foi criada a República do Líbano sob mandato francês. Contudo, essa delimitação territorial ignorou redes sociais, políticas e religiosas antigas, causando tensões presentes até hoje.
Durante o mandato francês, as elites locais e administradores europeus fortaleceram divisões sectárias, incorporando-as nas esferas política, econômica e social. Os cristãos maronitas buscavam um país separado da Síria, enquanto comunidades muçulmanas aspirávam a fazer parte de um Estado sírio. Em 1943, cristãos e muçulmanos chegaram a um acordo para fundar o Estado libanês independente.
O Pacto Nacional de 1943 estabeleceu um sistema político confessional baseado no censo contestado de 1932, segundo o qual a população era dividida em terços entre cristãos maronitas, muçulmanos sunitas e muçulmanos xiitas. Isso determinou que a presidência seria exercida por um cristão, o primeiro-ministro seria sunita e o presidente do Parlamento, xiita. Essa estrutura gerou descontentamento, pois os xiitas ficaram subrepresentados e sofreram maiores índices de pobreza.
Relações com a Palestina e ascensão da OLP
As regiões do norte da Palestina e sul do Líbano sempre mantiveram ligações devido à proximidade geográfica. Durante a revolta palestina de 1936 e principalmente após a guerra árabe-israelense de 1948, houve uma migração forçada significativa de palestinos para o Líbano, trazendo ideais revolucionários que influenciaram grupos radicais no país nas décadas seguintes.
Em 1970, após sua saída da Jordânia, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) estabeleceu sua base em Beirute, ampliando o número de refugiados palestinos para cerca de 400 mil no país. A OLP passou a realizar ataques contra Israel a partir do Líbano, que respondia com ofensivas militares contra o território libanês. A presença da OLP causou divisões internas entre grupos cristãos e muçulmanos no Líbano. Após forte pressão israelense, a OLP foi expulsa do país em 1982.
Influências externas e conflitos internos
Durante a Guerra Fria, o Líbano tornou-se palco de disputas ideológicas. O presidente Camille Chamoun buscou apoio dos EUA para preservar a independência do país em meio à crescente oposição, resultando no envio da 6ª Frota norte-americana em 1958. Com o tempo, a urbanização acelerada criou subúrbios pobres e densamente povoados, onde comunidades armênias, xiitas e outras enfrentaram dificuldades econômicas e carência de serviços públicos.
O crescente antagonismo entre grupos sectários culminou na Guerra Civil Libanesa (1975-1990). O conflito foi marcado por violentos combates entre milícias cristãs, palestinas e outras facções, além da intervenção síria em 1976 e invasões israelenses em 1978 e 1982. Israel ocupou partes do sul do Líbano até 1985, e as tropas sírias permaneceram no país até 2005.
Formação e fortalecimento do Hezbollah
O Hezbollah foi criado no início da década de 1980, durante a guerra civil e a invasão israelense, como um movimento xiita de resistência armado, principalmente com apoio do Irã. Inicialmente focado na luta contra as forças israelenses no sul do Líbano e na defesa das comunidades xiitas marginalizadas, o grupo expandiu-se para atividades políticas e sociais ao longo do tempo. Apesar de seus recursos militares terem sido enfraquecidos em confrontos recentes com Israel, o Hezbollah continua central no cenário militar e político libanês.
Ocupação síria e violência política
As forças militares da Síria, inicialmente enviadas como força de paz em 1976, passaram a controlar profundamente as instituições libanesas por quase 30 anos, com episódios de repressão e violações de direitos humanos. A ocupação terminou em 2005 após o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri e uma onda de protestos conhecida como Revolução do Cedro.
Nos anos 1980, atentados como os ataques suicidas contra a Embaixada dos EUA e um quartel militar em Beirute causaram centenas de mortes e mudaram a natureza dos conflitos na região, sendo o Hezbollah apontado como responsável por alguns desses ataques.
Consequências pós-guerra e crise humanitária
O Acordo de Taif, em 1990, pôs fim à guerra civil, mas manteve a influência síria no país por algum tempo e aprofundou as divisões sectárias, especialmente em Beirute, com deslocamentos populacionais criando zonas com predominância xiita ou cristã.
Em 2006, o Líbano vivenciou um conflito de 34 dias entre Hezbollah e Israel, que causou muitas mortes e devastação em infraestrutura, com custos estimados em US$ 3,6 bilhões.
A guerra civil na Síria, iniciada em 2011, agravou ainda mais a situação humanitária no Líbano, que recebeu mais de um milhão de refugiados sírios, pressionando os já frágeis sistemas de saúde, saneamento e educação, além de acentuar as tensões sociais e econômicas.
Crise econômica e instabilidade recente
A partir de 2019, o Líbano enfrenta sua pior crise econômica moderna, caracterizada por dívida crescente, corrupção e colapso do sistema bancário. A desvalorização da libra e a inflação elevada aumentaram o custo de vida e provocaram manifestações populares que reclamavam por reformas.
Em agosto de 2020, uma devastadora explosão no porto de Beirute, causada pelo armazenamento impróprio de nitrato de amônia, matou mais de 200 pessoas e causou danos expressivos à cidade, aprofundando a crise política e social do país.
Conflito recente e impacto da guerra em Gaza
Desde outubro de 2023, a guerra iniciada pelo Hamas contra Israel escalou, com o conflito alcançando o Líbano devido a ataques e retaliações envolvendo o Hezbollah. Só em 2024, foram registradas mais de 3.000 mortes e 14 mil feridos no Líbano. Os confrontos de 2026, que envolveram também Estados Unidos e Irã, agravaram a crise humanitária, provocando deslocamentos em massa no sul do país e nos subúrbios de Beirute.



