Frida Kahlo está mais popular do que nunca, refletido em novas exposições
Este ano, a artista mexicana Frida Kahlo tem sua presença reforçada por meio de três grandes exposições em museus e uma ópera nos Estados Unidos, dando conta do crescente interesse em sua vida e obra.
Após o recorde alcançado pela venda da pintura “O Sonho (A Cama)” por US$ 54,7 milhões — o que a tornou a artista feminina mais valiosa em leilões —, Kahlo volta ao centro das atenções culturais. A temporada inclui uma abordagem operística sobre sua existência e memória, em cartaz na Metropolitan Opera de Nova York nesta primavera do hemisfério norte.
Mari Carmen Ramírez, curadora do Museum of Fine Arts em Houston, responsável pela retrospectiva “Frida Kahlo: A Construção de um Ícone”, aberta até 17 de maio, comentou que a artista atravessa as décadas com altos e baixos, mas nunca perde sua relevância e popularidade.
Durante sua vida, Kahlo foi mais reconhecida por seu relacionamento intenso com o muralista Diego Rivera. Sua arte só ganhou destaque global principalmente após biografias publicadas na década de 1970 que reacenderam o interesse de estudiosos e colecionadores.
Hoje, Frida é uma referência da cultura pop, celebrada não apenas pela sua produção artística, mas também pelo estilo tradicional mexicano que adotou, sua marcante sobrancelha e seus penteados trançados, que se tornaram símbolos amplamente difundidos.
Curadores percebem um aumento na atenção dedicada à sua obra, impulsionada pela influência que exerce sobre artistas contemporâneos, incluindo aqueles com deficiência, que encontram na representação honesta da dor de Frida — fruto de um grave acidente de ônibus que sofreu aos 18 anos — uma grande inspiração.
A artista não está mais confinada ao mercado de arte latino-americano; sua importância alcança o mesmo patamar de figuras icônicas do século XX, como Georgia O’Keeffe, embora ambos ainda mantenham valores abaixo dos principais nomes masculinos, cujas obras ultrapassam US$ 200 milhões em valorização.
O limitado número de peças produzidas por Kahlo é fundamental para seu impacto tanto na cena museológica quanto no mercado. Com cerca de 200 pinturas, muitas delas com restrições legais para serem exportadas do México, a exposição em Houston conseguiu reunir 35 obras, o que é considerado um feito significativo.
Entre as peças em destaque estão obras cruciais do início da carreira da artista, como seu autorretrato de 1926 e “Meu Vestido Está Ali” (1933), que oferece uma visão sombria da cidade de Nova York durante sua estada com Rivera. Nesta pintura, o vestido da artista aparece pendurado entre um vaso sanitário e um troféu, refletindo sua sensação de deslocamento nos EUA e sua saudade pelo México.
Outra obra marcante é “Hospital Henry Ford” (1932), que registra de maneira intensa o momento após um aborto sofrido por Kahlo, com vasos sanguíneos representados como fitas e objetos como caracóis, simbolizando a lentidão de sua recuperação física.
A exposição intercala essas pinturas com uma escultura de Kiki Smith, realizada décadas depois, que retrata a forma feminina da cintura para baixo com um feto pendurado pelo cordão umbilical, criando um diálogo entre as obras.
Mais de 80 artistas, incluindo 50 vivos, homenageiam Kahlo na mostra, com nomes como Judy Chicago e Regina José Galindo. A exposição seguirá para o Tate Modern, em Londres, a partir de 25 de junho, onde algumas das obras e homenagens deverão ser ajustadas conforme empréstimos locais.
O tema dos vasos sanguíneos como cordas reaparece na mostra “Frida e Diego: O Último Sonho”, programada para o Museum of Modern Art (MoMA) entre 21 de março e 12 de setembro. A curadora Beverly Adams explicou que elementos como cordas, andaimes e tecidos azuis serão utilizados para criar um ambiente teatral envolvendo as sete obras de Kahlo e as dezenas de Rivera expostas.
Esta mostra no MoMA também dialoga com a história do museu em relação ao casal: Rivera teve a segunda retrospectiva do MoMA em 1931, e Kahlo entrou para a coleção permanente em 1943.
Adams destacou que o momento da exposição está relacionado ao interesse da curadora-chefe Ann Temkin em experimentações cênicas, em parceria com Jon Bausor, responsável pela cenografia e design de figurinos tanto no museu quanto na nova montagem da ópera “O Último Sonho de Frida e Diego”, de Gabriela Lena Frank, com direção de Deborah Colker, programada de 14 de maio a 5 de junho.
A ópera apresenta uma releitura contemporânea do mito grego de Orfeu e Eurídice, na qual Diego tenta convocar a esposa falecida durante o Dia dos Mortos no México. O cenário inclui a reprodução da cama com dossel de Kahlo, de onde se estendem galhos semelhantes a artérias em direção ao céu.
Uma pequena versão dessa cama integra a exposição do MoMA, acompanhada de outros objetos cênicos, como um espelho, com o intuito de “dar vida à arte”, segundo Adams.
Destaque também para a obra “Árvore da Esperança, Permaneça Forte” (1946), presente na exposição do MoMA, onde Kahlo se retrata em dois aspectos: uma versão deitada, sangrando após cirurgia, e outra sentada, triunfante, vestida com traje tradicional vermelho.
Adams comentou que as obras de Kahlo exploram suas múltiplas trajetórias e formas de autoimagem, sendo impossível resumir sua complexidade a uma única expressão artística.
O mesmo princípio pode ser aplicado ao fenômeno do recente crescimento de exposições dedicadas à artista, cada uma trazendo uma abordagem distinta para entender seu legado.
Texto traduzido do inglês por InvestNews.



