Fundo global da HIG Capital destina US$ 100 milhões para investir em empresas médias brasileiras
A venda recente da Desktop, líder em internet por fibra óptica no interior de São Paulo, para a Claro por um valor empresarial de R$ 4 bilhões, destacou o potencial de negócios envolvendo fundos globais de private equity e empresas do segmento médio no Brasil.
A operação foi realizada pelo fundo americano HIG Capital, que administra globalmente mais de US$ 74 bilhões em ativos e controlava a Desktop desde 2020.
Fernando Marques Oliveira, Managing Director e Head da HIG para Brasil e América Latina, afirmou em entrevista que o fundo ainda possui mais de US$ 100 milhões disponíveis para investimentos em companhias brasileiras, especialmente no middle market. Segundo ele, essa quantia permite a realização de alguns negócios de porte.
Desde o início das atividades da HIG na América Latina há 14 anos, a equipe liderada por Marques investiu cerca de US$ 1 bilhão em empresas médias brasileiras.
Perfil dos investimentos e oportunidades no mercado
Normalmente, a HIG Capital realiza aportes entre US$ 20 milhões e US$ 30 milhões em empresas da região, adquirindo o controle acionário para garantir poder decisório simplificado. Contudo, os valores podem variar conforme as necessidades específicas.
Marques observa que existem muitas empresas promissoras, porém os preços pedidos por seus proprietários muitas vezes não refletem o valor intrínseco dos ativos, o que exige paciência para negociações até o ajuste adequado. O executivo ainda prevê que a oportunidade para investimentos pode ser dez vezes maior do que o já aportado.
O fundo concentra suas operações em um veículo dedicado à América Latina, com foco predominante no Brasil. Atualmente, não há captação de recursos em andamento, mas isso poderá ocorrer em momento oportuno.
“Há um fluxo crescente de capital chegando ao Brasil anualmente, porém grande parte ainda é direcionada às grandes corporações ou ao venture capital de startups e tecnologia,” explicou Marques, que destacou o desequilíbrio entre oferta e demanda de recursos para o middle market, considerado o motor da economia. Ele delineia esse segmento como empresas com faturamento anual entre R$ 100 milhões e R$ 2 bilhões, ou quadro de 200 a 5 mil colaboradores.
Ao longo de quase quinze anos, o time de HIG, composto por mais de cinquenta profissionais presentes em diferentes regiões do país, analisou mais de 11 mil empresas médias brasileiras e concretizou 84 aquisições.
“Somos rigorosos na nossa filosofia de investimento e no preço de entrada. Identificamos mil bons negócios, mas fechar com a equipe certa e o preço apropriado é sempre um desafio”, afirmou Marques.
As 84 aquisições se distribuíram entre 22 plataformas, termo da HIG para descrever empresas com suas estratégias de negócio, incluindo operações para consolidar setores fragmentados, o que explica o número elevado de transações em relação às companhias adquiridas.
Apesar da necessidade de ajustes nos preços, o mercado segue aquecido: no último trimestre de 2025, a quantidade de aquisições de empresas brasileiras por fundos de private equity atingiu o maior volume em cinco anos, somando 32 negócios e R$ 34,1 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP).
Empresas no portfólio e estratégias de saída
Marques destaca que não existem teses fixas para novas aquisições. O portfólio atual inclui empresas como a Kora Saúde, grupo hospitalar com atuação em quatro estados e no Distrito Federal, e a Selfit, uma das maiores redes de academias low cost do Brasil, com forte presença no Nordeste, Norte e Centro-Oeste.
Sobre a Selfit, Marques informou que o fundo entrou quando a rede contava com 8 mil alunos e atualmente possui 300 mil, crescendo entre 30% e 40% ao ano, acompanhando a crescente preocupação da população com saúde e bem-estar.
A venda da Desktop e o modelo adotado pela HIG
Ao mesmo tempo em que avalia novas oportunidades, a HIG também negocia a desmobilização de investimentos antigos que já entregaram o retorno esperado, mesmo que ainda existam possibilidades de ganhos adicionais. Esse foi o caso da Desktop.
“Fizemos o ativo crescer aceleradamente, com crescimento superior a 100% ao ano por alguns períodos. Atualmente, qualquer taxa de crescimento será menor, o que impacta o retorno anual projetado. O ativo está maduro, saudável e sólido. Por isso, decidimos testar o mercado e recebemos outras ofertas antes de fechar com a Claro”, explicou Marques.
Antes dessa venda, em novembro de 2024, a HIG também havia fechado a venda da Eletromidia, com 47% de participação vendida para a Globo por R$ 1,7 bilhão.
No total, o fundo já realizou dez desinvestimentos em empresas médias brasileiras, com um retorno médio que quadruplica o capital aportado em reais e triplica em dólares.
Para Marques, o principal caminho para a geração de valor está na multiplicação do lucro operacional das companhias adquiridas — o Ebitda das empresas que passaram pelo portfólio aumentou 203%.
A venda da Desktop para um investidor estratégico internacional — a Claro pertence ao grupo América Móvil, do bilionário mexicano Carlos Slim — exemplifica a tendência do mercado brasileiro seguida pela HIG, que realiza sua saída majoritariamente para compradores estratégicos.
A visão sobre IPOs para empresas médias
Marques acredita que, apesar do atual modelo favorecer a venda para investidores estratégicos, pode surgir uma diversificação, como vendas entre fundos de private equity, conhecidas no mercado americano como “sponsor-to-sponsor”. Ele, porém, não enxerga uma perspectiva próxima de abertura de capital (IPOs) para empresas médias no Brasil.
“Gostaria de ter mais confiança no mercado de capitais brasileiro como porta de saída para investimentos de fundos, mas não vejo essa profundidade no curto prazo,” afirmou, mencionando que eventuais janelas podem ser abertas para empresas maiores.
A última oferta pública inicial na B3 ocorreu no segundo semestre de 2021, após um período de aproximadamente um ano e meio que incluiu IPOs de três empresas do portfólio da HIG no Brasil: Eletromidia, Desktop e Kora Saúde.



