O primeiro quarto de século da indústria de fundos de investimento
Gestão profissional, diversidade e transparência: os pilares essenciais para investidores
Em 24 de março, foi lançado o livro “Fundos de Investimento: um guia prático para o mercado brasileiro” durante uma cerimônia que reuniu mais de 200 pessoas em um ambiente de celebração. A obra foi coordenada por mim, Hudson Bessa, e por meu colega Marcelo Guterman, com a colaboração de mais 18 autores especializados. Ao longo de 21 capítulos, o livro detalha como os fundos de investimento e seus prestadores de serviços atuam para que os investidores possam, na maioria dos dias, acessar cotas que reflitam o valor real dos ativos e, consequentemente, a verdadeira rentabilidade e risco de seus aportes.
Este projeto coletivo levou aproximadamente dois anos para ser concluído, resultando em mais de 700 páginas que transmitem os principais conceitos para que profissionais e interessados compreendam os bastidores da administração e gestão dos fundos de investimento. Tivemos ainda a honra de contar com um prefácio escrito por Roberto Teixeira da Costa, pioneiro na gestão de fundos no Brasil e o primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Ressalto ao leitor que este texto não tem o intuito de analisar o livro em si, mas sim de responder à questão: por que lançar uma publicação sobre fundos de investimento?
A indústria de fundos no Brasil encerrou 2025 com um patrimônio líquido (PL) de R$ 10,7 trilhões sob gestão, revelando uma taxa média de crescimento anual de 14,8% ao longo desses primeiros 25 anos. Essa evolução evidencia a força do setor, que conta hoje com mais de 30 mil fundos ativos, geridos por cerca de 1.100 gestores e 100 administradores.
Para dimensionar sua importância aos investidores, a Estatística de Varejo da Anbima apontou que, em dezembro, havia R$ 1,15 trilhão investidos por clientes dos segmentos varejo tradicional e alta renda em fundos, valor que supera os R$ 941 bilhões aplicados na caderneta de poupança. Já o número de cotistas chega a 12 milhões, embora haja duplicidade de registros entre instituições; estima-se que o total real de investidores seja próximo à metade desse número.
No campo regulatório, destaca-se que a indústria é moderna e está em constante transformação. A atual estrutura regulatória foi estabelecida há mais de três décadas, em 1995, quando, em meio às reformas recentes ao Plano Real, o Banco Central editou a Resolução 2.183 e a Circular 2.616. Essas normas instituíram a base para a indústria atual, com os Fundos de Investimento Financeiros (FIF) e Fundos de Administração de Cotas (FAC) e a classificação dos fundos em classes conforme os riscos potenciais aos quais os investidores estão expostos.
Em 2004, a regulação foi consolidada sob a supervisão da CVM com a Instrução 409, que unificou a regulação dos fundos de renda fixa e variável, elevando os requisitos de compliance, governança e gestão de risco, proporcionando maior transparência e proteção ao investidor. Ressalte-se que a indústria brasileira resistiu praticamente ilesa à crise financeira de 2008.
Desde então, os padrões regulatórios vêm sendo aperfeiçoados, com atualizações significativas a cada década, tais como a Instrução CVM 555 em 2015 e a Resolução 175 em 2022. Esta última destacou-se por ser a mais abrangente, criando uma estrutura detalhada de classes e subclasses de cotas, alinhando o Brasil aos padrões internacionais de operação, fator fundamental para atrair investidores estrangeiros.
Mais recentemente, a Resolução 179/23, que acompanhou a Resolução 175, promoveu um equilíbrio das responsabilidades entre administradores, gestores e distribuidores, ampliando a transparência e alinhando incentivos entre os prestadores de serviços, reforçando a proteção e a defesa dos interesses dos cotistas.
É importante destacar que todos os produtos de investimento possuem méritos próprios, porém a qualidade da estruturação e a diligência das instituições responsáveis são decisivas. No universo dos fundos, uma rede integrada de prestadores de serviço trabalha em conjunto sob a supervisão do administrador e gestor para cumprir as disposições acordadas com o investidor conforme o regulamento do fundo. Cada parte atua em sua função específica, porém todas devem monitorar mutuamente para garantir a conformidade.
Além dessa rede de proteção jurídica e operacional que assegura direitos, os fundos contam com três características que os diferenciam dos demais produtos financeiros.
A primeira é a gestão profissional conduzida por especialistas certificados, que utilizam sistemas de informação e controles rigorosos para assegurar que as decisões tomadas sejam as mais alinhadas com os interesses dos cotistas.
Em segundo lugar, os fundos oferecem diversificação natural, pois são compostos por diversos ativos de emissores variados, representando pequenos percentuais do total. Essa diversificação visa reduzir o risco de concentração em uma única empresa ou mercado e maximizar o retorno para um dado nível de risco. Por exemplo, um investidor que aplicasse R$ 10 mil integralmente em uma debênture da empresa Raízen poderia sofrer uma perda total em caso de inadimplência, enquanto aquele que aplicasse esse valor em um fundo de crédito teria sua perda potencialmente limitada a cerca de 5%.
Por fim, os fundos realizam operações de compra e venda de ativos em grandes volumes, o que proporciona ganhos de escala. Corretoras, custodiantes e registradores costumam conceder descontos àqueles que negociam montantes elevados, reduzindo custos e elevando a rentabilidade para os cotistas. Esse benefício de escala não é acessível para investidores individuais de menor porte.
Por todos esses motivos, acreditamos que a indústria de fundos merecia uma obra abrangente que, além de apresentar os produtos, aborde seus processos, atividades e prestadores de serviço em detalhes.
Desejo uma boa leitura a todos que optarem por explorar as páginas desse livro.
Hudson Bessa é economista, sócio da HB Escola de Negócios e da Spot Capital Consultoria de Investimentos, além de professor no curso de Administração da ESPM-SP.


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