Votorantim alcança caixa recorde e projeta novos investimentos para transformar seu portfólio

Após encerrar 2025 com um caixa de R$ 7,7 bilhões e sem dívidas, o grupo empresarial da família Ermírio de Moraes, um dos maiores do Brasil, está preparado para ampliar seus investimentos tanto nas operações atuais quanto em futuros negócios. Além desse montante, a cifra de R$ 4,7 bilhões decorrente da venda da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) para a chinesa Chinalco e a Rio Tinto só deve ser incorporada ao caixa neste ano, após a conclusão da transação firmada no final de janeiro.

João Schmidt, CEO da Votorantim, comentou em entrevista que esse sólido capital disponível servirá para continuar o processo de transformação do portfólio do grupo.

Resultados financeiros e aquisições recentes

Em 2025, a Votorantim obteve lucro líquido de R$ 4,8 bilhões, com receita líquida de R$ 47,6 bilhões e um Ebitda ajustado de R$ 11,5 bilhões, indicador que sinaliza a geração de caixa operacional. Desde a chegada de Schmidt em 2020, o grupo ampliou seus negócios incluindo empresas como Motiva (infraestrutura), Auren (energia), Altre (imobiliário), Hypera (farmacêutica) e 23S Capital (venture capital em parceria com o fundo soberano de Cingapura, Temasek).

Paralelamente, companhias sob sua influência direta, como Votorantim Cimentos, Citrosuco, Nexa, Acerbrag, Banco BV e Reservas Votorantim, investiram mais de R$ 50 bilhões no período recente.

Desinvestimentos e reestruturação do portfólio

O grupo também realizou vendas importantes: a siderúrgica foi repassada para a ArcelorMittal em 2018 e a Fibria, no segmento de celulose, foi incorporada pela Suzano em 2019. Além disso, houve a entrada do fundo canadense PSP Investments como sócio da Citrosuco, sinalizando um reposicionamento estratégico mesmo nas empresas mantidas pelo grupo.

A recente venda da CBA, históricamente muito ligada ao grupo e à sua trajetória, comprova que nenhuma empresa está imune a mudanças no portfólio quando o foco é a gestão patrimonial equilibrada. Segundo Schmidt, o conjunto atual de negócios está balanceado entre setores mais resilientes, como infraestrutura e energia, e outros mais cíclicos, como commodities.

Apesar de ter desfeitos ativos expostos a commodities, o grupo mantém interesse nesse setor, avaliando a exposição de forma equilibrada para aproveitar a conjuntura atual favorável aos preços dos metais.

Focos e perspectivas para os próximos investimentos

Embora não tenha revelado detalhes sobre os destinos dos recursos disponíveis, o CEO indicou interesse em áreas como infraestrutura regulada — onde já atua por meio da Motiva e Auren — e saúde, setor onde a aposta está na Hypera.

O segmento de saúde, especialmente ligado à longevidade, representa uma novidade no portfólio do grupo. A entrada na Hypera – companhia aberta fundada por João Alves de Queiroz Filho – ocorreu em 2023, com ampliação de participação para 11% em 2025, além da presença de executivos da Votorantim no conselho administrativo.

A Hypera já figura como o principal investimento do grupo em 2026, com liderança em um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão, embora o desembolso real fique abaixo do inicialmente previsto.

Possíveis movimentações no setor de infraestrutura

Mercado também acompanha a negociação das ações da Mover (ex-Camargo Corrêa) na Motiva, atualmente em recuperação judicial. O grupo Camargo Corrêa, com 14,86% na concessionária, negocia a venda para cumprir seu plano de credores. Como acionista do bloco de controle, a Votorantim, junto com Itaúsa e grupo Soares Penido, tem direito de preferência, num negócio que pode alcançar R$ 5 bilhões.

Schmidt destacou o entusiasmo da Votorantim com a companhia e as oportunidades de investimento em infraestrutura, deixando a negociação em sigilo.

Quanto a uma possível oferta pública inicial (IPO) da Votorantim Cimentos, o CEO foi discreto, ressaltando o atual foco da empresa em um plano de investimentos de R$ 5 bilhões, com alavancagem baixa e R$ 2,7 bilhões já aplicados.

Estratégia de atuação e governança

A negociação da CBA ilustra o perfil discreto do grupo. A venda começou em meados de 2024, com a contratação do banco Moelis para buscar parceiros para o Projeto Rondon, empreendimento de mineração de bauxita no Pará estimado em US$ 2,5 bilhões. Como a CBA não podia arcar sozinha com o investimento devido ao nível de endividamento, a procura por sócios acabou resultando no interesse da Chinalco e Rio Tinto pela companhia inteira, desfecho oficializado em janeiro.

Fundada na década de 1950 por Antônio Ermírio de Moraes, a CBA deixa o portfólio após quase setenta anos, sinalizando a mudança na estratégia da holding que prioriza preservação patrimonial.

Com perto de 200 membros distribuídos entre a quarta e quinta gerações da família Ermírio de Moraes, a tomada de riscos é hoje mais individualizada, enquanto a Votorantim opera como o centro de consenso familiar.

A Hejoassu, holding familiar com 12 integrantes (seis deles da quinta geração), estabelece as diretrizes de risco e retorno. No conselho da Votorantim S.A., há apenas três representantes da família, e a administração cotidiana é totalmente profissional desde 2014, com executivos de mercado, metodologia que culminou com a liderança de Schmidt a partir de 2020.

O executivo reforça o compromisso com uma carteira diversificada geograficamente e setorialmente, e com disciplina financeira para realizar movimentos significativos, sempre com foco no longo prazo.

Essa postura conservadora e profissionalizada tem se mostrado eficaz em um cenário no qual outros grupos familiares enfrentam dificuldades na transição entre gerações ou em decisões arriscadas e excessivamente alavancadas.

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