Uma empresa, um relatório: o novo marco da sustentabilidade corporativa

O ano de 2026 marca um avanço importante na integração de informações sociais, ambientais, de governança e financeiras nos relatórios empresariais, com a implementação das normas internacionais IFRS S1 e S2. Essa mudança representa uma oportunidade única para consolidar dados de sustentabilidade e finanças em um único documento corporativo.

Ao longo do tempo, a busca para eliminação do que chamamos de “mundo paralelo da sustentabilidade” sempre guiou o trabalho na área. Já atravessamos várias etapas, com momentos de maior e menor intensidade. É esperado que a incorporação dos temas ambientais, sociais e de governança no funcionamento tradicional dos negócios envolva desafios, mas a meta continua firme: tornar esses aspectos parte natural e contínua das operações, a ponto de eliminar siglas e conceitos como ESG.

A partir de 2026, dá-se um passo decisivo nessa trajetória com a aplicação obrigatória das normas IFRS S1 e S2 para companhias abertas, que estabelecem requisitos claros para reportar sustentabilidade, além de riscos e oportunidades climáticas dentro dos relatórios financeiros. Esses padrões foram delineados pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), e o Brasil, por meio da CVM, teve a distinção de ser o primeiro país a adotá-los oficialmente com a Resolução CVM nº 193/2023.

Este artigo não tem como objetivo detalhar essas regras, as quais já contam com ampla documentação, incluindo guias, vídeos e eventos, que auxiliam no entendimento de sua aplicação. É importante notar que empresas como Renner e Vale já anteciparam a tendência, voluntariamente adequando seus relatórios em 2025 a esses padrões. Além disso, existem publicações valiosas de entidades com as quais colaboro, como:

  • O “Guia para conselheiros: normas de sustentabilidade S1 e S2”, elaborado em 2024 pelo IBGC e Chapter Zero Brazil, que serve como instrumento de apoio para conselheiros e profissionais de governança.
  • A “Jornada IFRS – Trilha de capacitação sobre os padrões IFRS S1 e S2 e a Resolução CVM 193”, lançada em fevereiro de 2026 pela Anbima, destinada a profissionalizar o entendimento e implementação dessas normas no mercado financeiro e de capitais.

A reflexão que proponho é sobre como será o futuro dos relatórios corporativos com a entrada em vigor dessas diretrizes. É importante ressaltar que as normas S1 e S2 não contemplam ainda todas as informações ESG já divulgadas pelas empresas atualmente. O escopo inicial abrange requisitos gerais sobre sustentabilidade e aspectos climáticos, com a expectativa de uma expansão gradual no futuro:

  • IFRS S1 (sustentabilidade): abrange governança, estratégias, metas e métricas de sustentabilidade que possam impactar fatores financeiros como posição econômica, fluxo de caixa, acesso e custo de capital em prazos curto, médio e longo.
  • IFRS S2 (clima): trata dos riscos e oportunidades relacionados ao clima que podem afetar o modelo de negócio, estratégia e desempenho financeiro das organizações.

Diante dessas limitações iniciais, alguns profissionais comentaram que ainda precisarão manter relatórios separados para divulgar informações não previstas pelas normas S1 e S2. No entanto, insisto que continuar com relatórios paralelos mantém o “mundo paralelo da sustentabilidade”, que devemos extinguir. A exigência regulatória define o conteúdo prioritário para o mercado e evitar sua fragmentação é fundamental.

Por outro lado, reconheço o desafio de assegurar a transparência abrangente que as companhias vêm adotando ao longo dos anos, utilizando múltiplos frameworks como GRI, SASB, RI, TCFD, TNFD, CSRD e outros, que abrangem uma gama ampla de temas socioambientais e de governança.

Assim, sugiro que, ao invés de produzir um relatório suplementar ao oficial previsto por lei, as empresas aproveitem seus websites institucionais ou criem páginas específicas para divulgar esses dados e fatos que ainda não estejam contemplados pelas normas IFRS. Dessa forma, alcançaremos o objetivo de ter “uma empresa, um relatório”, ao cumprir integralmente as obrigações legais sem deixar de informar sobre os demais temas relevantes, até que a regulamentação amplie seu escopo, passo a passo.

Todo avanço requer experiência prática para aperfeiçoar processos e compreendermos melhor sua dinâmica. Aqueles que, como eu, atuam na área de sustentabilidade há bastante tempo reconhecem que estamos vivendo um momento singular, em que áreas tradicionais, como contabilidade, não só apoiam, mas passam a liderar essa transformação. Essa é uma conquista significativa da qual todos devemos celebrar e usar com sabedoria.

Sonia Consiglio é SDG Pioneer pelo Pacto Global da ONU e especialista em Sustentabilidade.

Sonia Consiglio — Foto: Arte sobre foto de divulgação Fonte

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