A BYD além dos veículos elétricos: o papel de Brasília no crescimento da empresa chinesa
O vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, ex-ministro do governo Temer, teve um papel crucial na negociação de isenções fiscais e políticas favoráveis que impulsionaram o crescimento da marca no país.
Em 2026, a presença da BYD tem marcado importantes conquistas no mercado brasileiro. Em fevereiro, o modelo Dolphin Mini foi o primeiro carro elétrico a liderar as vendas no varejo, registrando 4.810 unidades emplacadas, superando concorrentes como Volkswagen Tera e Hyundai Creta. No mês seguinte, a fábrica da fabricante em Camaçari, Bahia, ampliou sua operação para dois turnos e ainda firmou acordo para exportar 100 mil veículos à Argentina e ao México.
O segredo desse avanço vai além da tecnologia dos produtos: está ligado à experiência política de Alexandre Baldy, que não vem do setor automotivo, mas sim do relacionamento direto com os centros de poder em Brasília e do entendimento sobre a formulação de políticas públicas no Brasil.
Com 45 anos, Baldy atua como vice-presidente sênior da BYD no país desde 2024, além de presidir o PP em Goiás e ter liderado, até março de 2026, a Agência Goiana de Habitação (Agehab). Sua trajetória inclui cargos como ministro das Cidades no governo Michel Temer e secretário de Transportes da cidade de São Paulo durante a gestão João Doria.
Ele se tornou a principal face da empresa no Brasil e representa a BYD junto ao governo federal, tendo reuniões frequentes com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Baldy também defende publicamente os incentivos fiscais do setor e negocia nos bastidores as regulamentações que regem as operações da marca no país, que contrasta com as dificuldades encontradas pela BYD em mercados como EUA e União Europeia.
A importância da articulação política para a entrada da BYD no mercado brasileiro
A escolha de Baldy reflete a estratégia da montadora chinesa e revela como o setor automotivo historicamente depende da influência política. Subsidios, tarifas e incentivos governamentais moldam o cenário competitivo no Brasil e no exterior.
Enquanto associações das montadoras tradicionais exercem influência consolidada em Brasília, a BYD precisou aprender essa linguagem e encontrar interlocutores adequados. Antes de Baldy, o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, foi vice-presidente da BYD para a América Latina, mas quando a companhia ampliou seu foco para automóveis e política industrial, Baldy foi eleito para assumir essa missão.
Em descrições de pessoas próximas, Baldy é apontado como um profissional afável e inteligente, com ampla rede de contatos em diferentes governos, habilidade que chamou a atenção da BYD no momento em que a montadora precisava justamente de acesso político.
Trajetória e desafios pessoais de Baldy
Baldy atuou como secretário da Indústria no governo de Goiás entre 2011 e 2013, passando por três partidos políticos. Em 2020, teve prisão decretada pela Justiça Federal do Rio de Janeiro na Operação Dardanários, acusação relacionada a uso indevido de cargo para intermediação de contratos no governo goiano, mas negou as acusações. Foi solto por decisão do ministro Gilmar Mendes, do STF, que depois anulou as provas do processo.
Na Secretaria de Transportes de São Paulo, Baldy passou a trabalhar diretamente com a BYD, assinando contratos para fornecimento de trens da Linha 17-Ouro do metrô. Quando o acordo foi suspenso por suspeita de irregularidades, ele se posicionou publicamente contra a decisão judicial e participou de reuniões para apressar prazos ao lado do então governador João Doria.
Em dezembro de 2022, Baldy tornou-se conselheiro especial da BYD. Ele acompanhou a inauguração da Linha 17-Ouro em março de 2026 como executivo da empresa. Nas redes sociais, Baldy exibe uma rotina que combina compromissos corporativos, eventos sociais, entregas de habitação popular e apoiadores políticos. Em Goiás, é cotado como potencial candidato ao Senado nas eleições de 2026.
Resultados e avanços da BYD no mercado nacional
O impacto das articulações de Baldy é perceptível nos resultados da BYD no Brasil. Em entrevista, ele classificou como “pactuada” a isenção de impostos sobre a importação de veículos elétricos, destacando um encontro com o presidente Lula para negociar ampliação das cotas de importação sem tributos para carros produzidos na unidade da Bahia.
No âmbito federal, a BYD aproveitou a manutenção da tarifa zero para importação de veículos elétricos até o final de 2023, período fundamental para estabelecer sua marca e base de consumidores. Em julho de 2025, conquistou uma cota de US$ 463 milhões para a importação de kits SKD e CKD com alíquota zero por seis meses, favorecendo a montagem local.
Essa combinação de competências políticas, marketing e produto gerou grandes vendas: em março, a BYD comercializou 4.300 carros em apenas 48 horas, faturando R$ 700 milhões em um único final de semana, dado amplamente divulgado ao mercado.
A estrutura da BYD e seu modelo produtivo no Brasil
Contudo, o crescimento da BYD no Brasil não se explica apenas pela articulação política. Fundada em 1995 por Wang Chuanfu, a companhia é referência em Shenzhen graças a uma operação verticalizada que vai da fabricação das baterias até o veículo final, controlando tecnologias próprias e detendo milhares de patentes.
O governo chinês destinou estimados US$ 230 bilhões em subsídios ao setor de veículos de nova energia entre 2009 e 2023, o que favoreceu empresas como a BYD, que está inserida em um mercado mundial onde a China responde por aproximadamente 80% da produção global de células para baterias.
Enquanto em 2022 a empresa vendeu apenas 260 carros de passeio no Brasil, em 2025 esse número saltou para 112.814 unidades, liderando o segmento de veículos elétricos puros com 72% de participação no mercado.
Especialistas reconhecem a qualidade e a tecnologia da BYD, mas também destacam o desafio de consolidar a produção local no país.
O modelo de produção e seus desafios
Na prática, a fábrica de Camaçari funciona sob o regime SKD: veículos chegam da China praticamente montados, com carroceria pronta, pintada e interior instalado, cabendo à unidade nacional a montagem final de componentes como rodas, pneus e baterias. Áreas de estamparia, soldagem e pintura ainda estão em construção, com previsão de operação simultânea até julho de 2026.
De acordo com a Anfavea, enquanto a produção completa gera cerca de dez empregos indiretos para cada emprego direto, a montagem SKD representa somente dois ou três empregos indiretos por direto. A expectativa de 20 mil empregos na unidade baiana ainda está longe de ser alcançada; atualmente, há cerca de 3.200 funcionários diretos, com plano para contratar mais 3.000.
O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, criticou esse modelo sem citar empresas, apontando que trazer fábricas semiprontas para o Brasil, e solicitar incentivos, pode configurar uma prática de dumping contra a indústria nacional. Skaf ressalta que montar um “Lego” é diferente de industrializar de fato.
Igor Calvet, presidente da Anfavea, afirmou que não há conflito contra as montadoras chinesas, mas ressaltou que o setor debate o modelo produtivo vigente, lembrando que o segmento gera 1,3 milhão de empregos diretos e indiretos no país.
Expectativas para 2027 e o futuro da produção local
A meta de alcançar 50% de conteúdo local até 2027 representa o principal desafio para a estratégia da BYD no Brasil. Baldy afirma que a empresa já possui mais de 400 fornecedores locais homologados e que aumentar a produção nacional é também uma questão de competitividade para a marca.
Contudo, adaptar a produção chinesa ao Brasil não é tarefa simples. Um exemplo é a bateria, o componente mais caro do veículo, que ainda não é fabricada em escala industrial no país. Essas dificuldades são utilizadas pela BYD em suas negociações com o governo para garantir a extensão dos benefícios de importação, garantindo preços competitivos durante a fase de transição.
Enquanto a empresa já demonstrou sua capacidade de vender no Brasil, a ampliação da produção local ainda é um desafio, e o papel de Baldy é assegurar que as condições políticas e econômicas em Brasília permitam o tempo e o suporte necessário para evoluir nesse processo.



