Guerra no Irã pressiona inflação global e aumenta riscos de crise, alerta FMI
O recente conflito no Irã está reduzindo a capacidade fiscal dos países, elevando os preços e podendo levar a dívida global a níveis nunca vistos desde a Segunda Guerra Mundial. Essa é a análise feita pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em seu mais recente relatório Monitor Fiscal.
Segundo o documento, a situação da dívida mundial piorou em 2025, impondo às autoridades o difícil desafio de equilibrar medidas que protejam a população dos aumentos nos preços e, ao mesmo tempo, preservem o espaço fiscal diante da escassez de energia e das condições financeiras mais rígidas causadas pelo conflito envolvendo Estados Unidos e Israel.
Além disso, o relatório destaca que o aumento dos gastos com defesa, impulsionado por persistentes tensões geopolíticas, contribui para ampliar ainda mais o déficit fiscal em vários países.
Atualmente, a dívida pública global corresponde a cerca de 94% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, e, se as políticas econômicas vigentes forem mantidas, deve ultrapassar os 100% do PIB até 2029, um patamar não registrado desde o término da Segunda Guerra Mundial.
O FMI alerta que, caso o conflito no Irã se prolongue, o chamado “risco da dívida global” – parâmetro que mede a probabilidade de deterioração da relação dívida/PIB – pode aumentar em mais 4 pontos percentuais, indicando maior vulnerabilidade econômica mundial.
Rodrigo Valdés, diretor de Assuntos Fiscais do FMI, afirmou em entrevista à Agência EFE que, embora seja necessário esforço para direcionar o apoio estatal de forma eficaz e sem agravar a saúde fiscal, muitas vezes será preciso realocar recursos, mesmo que isso seja uma medida difícil, para administrar as restrições orçamentárias atuais.
Valdés ainda ressaltou que não é aconselhável promover estímulos fiscais excessivos, sobretudo porque a crise atual tem origem na oferta, não na demanda. Estimular demais o consumo no momento, especialmente diante de uma oferta limitada de hidrocarbonetos afetada pelo fechamento do Estreito de Ormuz, poderia agravar a inflação.
Assim, o diretor fiscal do FMI recomenda que a política fiscal seja seletiva, temporária e voltada para grupos específicos, adotando uma postura mais cautelosa em termos macroeconômicos. Ele destaca também a importância de continuar o trabalho para melhorar os balanços da dívida pública, mesmo diante de choques difíceis.
O Monitor Fiscal enfatiza que o problema da dívida não está apenas no alto nível atual, mas também na trajetória de crescimento da dívida global. O aumento das taxas de juros eleva o custo dos financiamentos, enquanto déficits primários maiores e mercados financeiros mais sensíveis reduzem a margem de manobra dos governos para reorganizar suas finanças.
Os Estados Unidos enfrentam déficits extremamente altos – entre 7% e 8% do PIB – mesmo em situação próxima do pleno emprego, sem um plano confiável para consolidação fiscal e com projeções que indicam crescimento da dívida pública de 124% para 142% do PIB até 2031. O relatório atribui parte desse cenário à grande lei de corte de impostos implementada no governo Trump, que deve ampliar o déficit primário anualmente em cerca de 0,75% do PIB.
Enquanto isso, a China mantém déficits consideráveis, próximos a 8%, para estimular o consumo e combater a deflação, prevendo chegar a uma dívida equivalente a 127% do seu PIB nos próximos cinco anos.
Por sua vez, o Japão apresenta a maior dívida do mundo desenvolvido, cerca de 230% do PIB, e apesar de melhora no saldo, seus custos com juros apresentam níveis recordes, suscitando preocupações sobre possíveis efeitos contágio. Na Europa, o cenário de 2025 mantém desafios, com menos disciplina fiscal em função dos gastos com defesa, envelhecimento populacional e espaço fiscal reduzido.
Economias emergentes são especialmente vulneráveis ao impacto do conflito no Irã, pois têm margens fiscais menores, vencimentos de dívida mais curtos e prêmios de risco elevados. Entre elas, os países de baixa renda sofrem ainda mais, enfrentando juros altos e redução no auxílio ao desenvolvimento.



