O excepcionalismo brasileiro: uma análise crítica sobre sua realidade e narrativa
Nos últimos tempos, o conceito de “excepcionalismo americano” tem ganhado destaque, especialmente em razão dos avanços das empresas de tecnologia e da inteligência artificial. Seus defensores argumentam que a economia dos EUA é “excepcional” porque, entre outros motivos, apresenta crescimento mais acelerado que outras economias desenvolvidas desde o pós-guerra, alta capacidade de inovação e produtividade, um sistema capitalista liberal mais puro e diversas oportunidades de ascensão econômica para sua população, conceito ligado ao famoso American Dream.
A impressionante recuperação das bolsas, que retomaram máximas históricas menos de dois meses após o início do conflito no Oriente Médio, ilustram essa percepção. Por exemplo, o índice S&P 500 teve doze pregões seguidos de alta, acumulando valorização de 12%, algo inédito em sua trajetória.
Nos últimos dias, porém, tem se observado nas redes sociais uma onda de manifestações bastante entusiasmadas defendendo que o Brasil poderia trilhar um caminho similar, cunhando a tese do “excepcionalismo brasileiro”, especialmente diante da situação global e do desempenho de ativos nacionais.
Essa narrativa ganhou força após declarações do ex-presidente Michel Temer à revista Forbes e posicionamentos do Fundo Monetário Internacional (FMI), que reconhece que o Brasil “está relativamente bem-posicionado”. Os argumentos centrais apontam o país como distante do conflito na região, produtor de commodities minerais e agrícolas, além de exportador líquido de petróleo, cujo valor vem subindo, conferindo-lhe uma vantagem relativa. No âmbito dos indicadores econômicos, em 2026 o Ibovespa se aproxima dos 200 mil pontos, com alta superior a 20%, enquanto o dólar caiu cerca de 10% para um patamar próximo a R$ 5, mesmo considerando a desvalorização da moeda americana globalmente. Também são citados crescimento do PIB recente, inflação dentro da meta e uma Selic em queda. Frente a esse quadro, o otimismo é compreensível, mas a cautela é fundamental.
O principal alerta é que a valorização dos ativos financeiros e o bom desempenho conjuntural não significam necessariamente uma profunda transformação estrutural. Por exemplo, a entrada de US$ 13 bilhões em capital na bolsa brasileira este ano impulsiona o Ibovespa e contribui para a apreciação do real, mas, historicamente, os ciclos de prosperidade do país costumam derivar de fatores externos, como a elevação dos preços das commodities e a liquidez internacional abundante, e não de ganhos internos consistentes na produtividade. Portanto, há o risco de confundir um momento oportuno com mudanças duradouras.
Outro aspecto importante é a ideia simplista de que o Brasil estaria “protegido” por sua distância de conflitos bélicos. Essa visão despreza o alto grau de interconexão da economia mundial. Choques nos preços do petróleo, por exemplo, podem beneficiar os exportadores inicialmente, entretanto geram aumento de custos internos, fragilizam as cadeias produtivas e pressionam a inflação, conforme indicam os dados recentes do IPCA. Além disso, o funcionamento do sistema financeiro global provoca rápida propagação de crises regionais para economias emergentes, interferindo na taxa de câmbio, no fluxo de capitais e na percepção de risco no mercado brasileiro.
Um ponto crucial para entender o diferencial das economias tidas como “excepcionais” é reconhecer que não basta apenas bons indicadores de curto prazo. O que importa são os fundamentos sólidos de longo prazo, como uma democracia robusta, educação e saúde de qualidade, ambiente institucional estável, segurança jurídica e capacidade contínua de inovação. Nesses pilares, o Brasil ainda enfrenta desafios consideráveis.
Portanto, cabe uma reflexão mais profunda aos que acreditam que o cenário está seguro. Em uma coluna anterior, publicada em 9 de abril, destaquei que a relação dívida/PIB, que girava em torno de 72%, já se aproxima dos 80%. O déficit primário persiste apesar da nova regra fiscal, e as empresas estatais voltaram a apresentar resultados deficitários, como evidenciado pelo rombo de R$ 568 milhões apenas em fevereiro. O déficit nominal ronda 9% do PIB, atingindo o maior patamar desde o Plano Real. Além disso, o país convive com um quadro preocupante de inadimplência: mais de 80 milhões de brasileiros e aproximadamente nove milhões de empresas estão negativados. Grandes grupos empresariais, como Raízen, GPA, Gol, Azul, Tok&Stok e Americanas, passaram por dificuldades sérias, tendo inclusive recorrido à recuperação judicial. Em 2025, cerca de 2.500 empresas encontravam-se nessa situação.
Para aprofundar essa análise, respondo à questão sobre o aparente paradoxo entre o aumento da inadimplência e um mercado de trabalho vigoroso, que incentiva o consumo. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, comentou recentemente que o crédito rotativo do cartão de crédito já estaria “incorporado” ao orçamento das famílias.
Segundo a função consumo keynesiana, o consumo depende da propensão marginal a consumir (PMgC) aplicada à renda disponível — que é a renda após a dedução dos impostos — somada ao consumo autônomo (Ca), que independe da renda.
O problema é que o rotativo do cartão e o limite do cheque especial não equivalem a renda, mas sim a formas de endividamento (financiamento), mesmo com juros zero em alguns casos. Dessa forma, esses recursos devem ser considerados parte do consumo autônomo (Ca), elevando-o de forma significativa.
A questão complica-se ao avaliarmos o consumo ao longo do tempo. O crescimento da inadimplência está ligado a políticas anteriores de estímulo ao crédito, cujos efeitos surgem agora. Houve antecipação de consumo futuro, um comportamento que persiste em um ambiente econômico com baixos ganhos de produtividade. Assim, não há impacto expressivo na PMgC nem no multiplicador da renda, sendo um fenômeno essencialmente transitório. Além disso, parte dessa dívida destina-se a usos de alto risco e baixo retorno econômico, como apostas.
Finalmente, a noção de “excepcionalismo brasileiro” pode se tornar mais uma narrativa conveniente do que resultado de uma análise profunda. A ideia de que investidores estrangeiros estão apostando firme na economia nacional pela bolsa deve ser questionada. Por exemplo, ao comparar o índice amplo SMAL11 e o Ibovespa, observa-se um diferencial na ordem de 50%, algo nunca visto antes. Isso indica que os investidores estrangeiros estão diversificando utilizando a bolsa nacional pela liquidez existente, sem uma aposta firme na economia brasileira como um todo. Além disso, o país ainda está longe do nível de investimentos analisados por agências de rating, que mensuram a economia integralmente e não apenas segmentos.
O otimismo sobre o cenário atual é compreensível, sobretudo em um ano eleitoral, porém a experiência histórica recomenda prudência. Países não alcançam status de excepcionalidade por estarem momentaneamente bem posicionados ou por aproveitarem uma realocação temporária de investimentos internacionais, mas por construírem fundamentos sólidos que sustentem crescimento constante e inclusivo ao longo do tempo. Sob essa perspectiva, o ajuste fiscal do Brasil é urgente e vem sendo adiado há anos. Resta saber se o governo eleito em outubro terá a capacidade e a vontade de realizar essa tarefa.
Alexandre Espirito Santo é sócio e economista-chefe da Way Investimentos e professor do IBMEC-RJ e da ESPM.



