A discussão sobre os turnos de trabalho e a jornada 0 x 0
Reduzir a jornada pode trazer ganhos sociais importantes, mas é essencial que essa alteração esteja associada a melhorias reais em produtividade, educação e inovação
Por Alexandre Espírito Santo — Rio
04/05/2026 06h40 Atualizado agora
Na última sexta-feira foi celebrado o Dia do Trabalho, o que oferece uma boa oportunidade para refletirmos sobre um tema que tem ganhado destaque crescente: a duração da jornada laboral no Brasil.
É difícil encontrar alguém contra a ampliação do tempo disponível para os trabalhadores, seja para cuidar do bem-estar pessoal, passar mais tempo com a família, investir em capacitação ou simplesmente aproveitar momentos de lazer. Esse desejo é legítimo e está alinhado com a busca por maior qualidade de vida. Nesse sentido, apoio a ideia de alterar a jornada de trabalho de 6 x 1 para 5 x 2. Entretanto, acredito que uma mudança desse porte exige cautela e análise detalhada.
Antes de qualquer medida, é indispensável promover um debate aprofundado sobre os efeitos econômicos e sociais, fundamentado em pesquisas técnicas sérias. Sabemos, por exemplo, que o setor de serviços tende a ser um dos mais impactados, podendo apresentar aumento nos custos, pressão inflacionária e desaceleração do crescimento do PIB. Há ainda o perigo de ampliação da informalidade no mercado de trabalho.
O que causa certa surpresa é a falta de discussões mais profundas e qualificadas sobre o tema. Grande parte do debate tem sido superficial, centrada no aspecto emocional e permeada pela polarização política presente tanto na sociedade quanto no Congresso Nacional.
Com o intuito de colaborar de forma construtiva, penso que qualquer decisão precisa ser precedida pela avaliação rigorosa da produtividade do trabalho no país, fator crucial para viabilizar mudanças estruturais sem prejudicar a competitividade e a geração de empregos.
Estudos indicam que a produtividade do trabalhador brasileiro é consideravelmente inferior àquela observada em países desenvolvidos e até mesmo em algumas nações vizinhas, o que reforça a necessidade de atacar problemas estruturais antes de avançar em alterações significativas na jornada oficial. Entre esses problemas, a qualidade da educação se destaca.
Após quase trinta anos atuando na área educacional como professor e coordenador, é inevitável relacionar produtividade à qualidade do ensino. Os resultados dos alunos brasileiros em avaliações internacionais, especialmente nas áreas de linguagem e matemática, são insatisfatórios e revelam lacunas na formação básica, que repercutem negativamente no mercado de trabalho.
Além da educação, outros aspectos exercem influência direta na produtividade, como a qualificação profissional contínua, o acesso à tecnologia — especialmente à inteligência artificial — e a eficiência dos processos dentro das empresas. Ainda que o ensino técnico tenha potencial para melhorar esse cenário, ele é subdesenvolvido no Brasil quando comparado a outros países.
O ambiente corporativo, muitas vezes pouco inovador, a infraestrutura deficiente e o baixo grau de digitalização restringem ainda mais o desempenho do trabalhador. Assim, discutir mudanças na jornada laboral sem enfrentar esses desafios pode resultar em consequências adversas, como o aumento de custos sem os ganhos correspondentes em eficiência.
Outro ponto relevante é a heterogeneidade do setor produtivo brasileiro. Enquanto alguns segmentos mais automatizados conseguiriam se adequar com maior facilidade a jornadas reduzidas, outros enfrentariam obstáculos significativos. Isso indica que qualquer mudança não deveria ser uniforme para todos os setores, mas considerar as características específicas de cada um, evitando soluções simplistas para uma questão complexa.
A busca por uma melhor qualidade de vida no trabalho não deve ser abandonada, mas construída de maneira sustentável. A diminuição da jornada pode proporcionar benefícios sociais relevantes, como melhora na saúde dos trabalhadores e maior equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. No entanto, para que essas vantagens sejam duradouras, é fundamental que sejam acompanhadas de avanços concretos em produtividade, educação e inovação. Somente assim será possível unir o desenvolvimento econômico ao bem-estar social de forma sólida.
Recentemente, Elon Musk declarou que poupar para a aposentadoria se tornaria irrelevante, pois a inteligência artificial criaria um mundo de abundância. Mas fica a dúvida: ideias como essa poderiam levar os jovens das gerações “nem-nem”, Z, Alpha e Beta a questionarem o valor do estudo e do trabalho. Se assim for, podemos nos deparar futuramente com a discussão sobre uma jornada 0 x 0.
Alexandre Espírito Santo é sócio e economista-chefe da Way Investimentos e professor do IBMEC-RJ e ESPM.


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